Aborto nas HQ de Heróis

Com colaboração de Dani Marino

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#PrecisamosFalarSobreAborto24h

O MinasNerds está, a convite do Think Olga e do Ativismo de Sofá ,neste dia 28 de setembro, participando da virada feminista online pela discriminalização do aborto na América Latina e Caribe, juntamente com diversos sites, coletivos, iniciativas e nomes de peso como Karina Buhr, Djamila Ribeiro, Gorda&Sapatão, Marcia Tiburi, Revista AzMina, Rede Feminista de Juristas entre outros.

A data foi definida em 1990, na Argentina, durante o 5º Encontro Feminista Latino-Americano e Caribenho e desde então feministas tem organizado ações, campanhas e debates sobre o assunto durante a data e períodos próximos.

A questão do aborto é delicada em muitos aspectos mas não pode mais ser ignorada, pois há tempos deixou a esfera moral e religiosa e hoje é uma questão de saúde pública.

Segundo nosso Código Penal, o aborto é legal e um direito da mulher em três situações: em caso de risco de vida da mulher em função da gravidez, em casos de estupro ou se o feto for anencéfalo. Mas sabemos que valores patriarcais e questões religiosas entram no meio dessa discussão e consequentemente se apropriam do corpo e da vontade da mulher, à sua revelia.

Abortos acontecem desde que o mundo é mundo e sempre vão acontecer, mesmo com todos estes impedimentos morais e jurídicos. Quando uma mulher não deseja uma gravidez, nem um sistema despreparado ou uma lei criminalizadora a impede de interrompê-la e para isso ela arrisca A PRÓPRIA VIDA.

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), um milhão de mulheres abortam no Brasil todos os anos e 47 mil mulheres morrem durante o procedimento, sendo que a maioria dessas mortes é de mulheres negras e periféricas, que não têm recursos para investir em procedimentos mais seguros e caros, aos quais as mulheres das classes altas recorrem.

Portanto, para o MinasNerds, falar sobre aborto tem um apelo muito mais focado na saúde e vida de mulheres do que em questionamentos legais e morais. Estamos lutando para que mulheres simplesmente PAREM de morrer. E como nosso campo é a Cultura Pop, gostaríamos de contextualizar o assunto por esse viés.

O aborto nas Histórias em Quadrinhos

Histórias em Quadrinhos, como qualquer expressão artística, também são responsáveis pela perpetuação de certas ideias ou pela contestação delas. Em relação ao aborto, não poderia ser diferente. Embora o tema ainda seja um grande tabu no Brasil, tem estado presente em publicações independentes e fanzines produzidos por mulheres, questionando principalmente o projeto de lei 5069/2013 que entre outras coisas, dificultaria o atendimento e acesso ao aborto por vítimas de estupro.

A artista Chiquinha (Fabiane Langone) criou o personagem “Abortinho” no intuito de chamar a atenção para a forma misógina que muitas das decisões sobre nossos corpos são legisladas.

Outras artistas como Gabi Lovelove6, Laura Athayde, Helô D’Angelo, também já abordaram o tema em zines, webcomics ou em publicações como a revista Piauí, que dedicou uma seção à história de Cynthia B, “Meu aborto em Quadrinhos”.  

Tradicionalmente, assuntos como aborto e sexualidade sempre foram abordados nos quadrinhos independentes ou underground publicados por mulheres. No final dos anos 60, com o surgimento da segunda onda do feminismo, entre as principais pautas estavam a liberação sexual e direito à informação sobre nossos corpos. Como apontado no documentário “She’s beautiful when she’s angry”.

Trina Robbins, quadrinista que aparece no documentário, fala sobre as primeiras publicações feministas em quadrinhos: “It ain’t me babe” e “Wimmen’s Comix”. Ambas abordavam temas como sexualidade, aborto, política, entre outros assuntos de interesse feminino. Em conversa por e-mail, ela gentilmente enviou imagens de uma HQ dos anos 80 que publicou com Liz Schiller e lembrou que também colaborou com a revista francesa “Ah! NaNah”, editada por Chantal Montellier nos anos 70, pioneira em tratar temas tabus em quadrinhos na Europa.

Capa por Trina Robbins
Capa por Trina Robbins

Tendo desenhado algumas edições da Mulher Maravilha, Trina também comentou sobre o episódio em que a heroína mais icônica dos quadrinhos traria uma história que terminaria com uma luta em uma clínica de aborto. No entanto, essa HQ não chegou a ser publicada na época, pois o arco com seis histórias que Samuel Delany desenhava fazia parte da versão em que a Mulher-Maravilha havia perdido seus poderes sob a edição de Denny O’Neil.  Essas histórias foram severamente criticadas pela feminista Gloria Steinem que fez uma forte campanha para que a heroína voltasse a ter seus poderes, sem saber que o conteúdo das histórias que Delany trabalhava, acabariam abordando um tema que era do interesse das mulheres que fosse publicado.

Ainda assim, a relação da Mulher-Maravilha com o aborto já existia desde a sua criação, pelo psicólogo William Mouton, pois uma de suas grandes inspirações para a criação da personagem foi a enfermeria abortista Margareth Sanger, tia de uma de suas esposas (Moulton era bígamo). Sanger abriu a primeira clínica de aborto dos Estados Unidos em 1916 e publicou inúmeros textos sobre o assunto.

Jenniffer Camper
Jenniffer Camper

Aborto nas HQs Mainstream

Mesmo tendo sido assunto nas HQ underground, autorais e alternativas, nas  histórias em quadrinhos mainstream o assunto foi muito menos abordado do que deveria. Muito provavelmente pelo fato do time criativo das grandes editoras ser, em suamaioria, composto por homens terrivelmente machistas e misóginos, ainda que hoje em dia o cenário esteja mudando, até por força do mercado, que hoje  é composto de  4o% de mulheres consumidoras de HQ e cresce, dia após dia.

No entanto, selos como o Vertigo (pródigo selo da DC criado por uma mulher, Karen Berger e que virou sinônimo de HQ de qualidade) e quadrinhos de editoras menores como Image, Valiant e Dark Horse podem até ter tocado no assunto, mas, durante pesquisa feita para escrever essa matéria, foi extremamente difícil encontrar o tema nas gigantes Marvel e DC.  Que dirá encontrar histórias que vieram para cá e foram publicadas por aqui.

Quando abordado, tanto na Marvel quanto na DC, o aborto foi, na maioria das vezes retratado como sendo espontâneo, acidental, como recurso narrativo dramático, partindo do pressuposto de que a gravidez fora sempre desejada pela mulher e o aborto seria um acidente terrível.  O intuito desta matéria era justamente encontrar quadrinhos que retratassem o aborto como uma ESCOLHA da mulher e não um acidente.

Conseguimos algumas:

 

Invencível #79  (inédito no Brasil) – (Image Comics)

Atomic Eve
Atomic Eve

Eve Atômica descobre estar grávida bem quando seu namorado, Invencível, desaparece numa missão no espaço por 10 meses. Sem saber se ele estava vivo ou morto, decidiu abortar. Revelou o aborto quando Invencível voltou à Terra, em Invincible 79 (2011), roteiro de Robert Kirckman e arte de Ryan Ottley.

 

Escalpo: Revista Vertigo 38 e 39 (2013) – Rez Blues (DC Comics)

Carol, recebendo a notícia da gravidez
Carol, recebendo a notícia da gravidez

Escalpo é um título ÓTIMO da Vertigo, escrito por Jason Aaron e ilustrado por J. M. Guéra que é ambientado em uma reserva indígena americana e trata dos dramas dos nativos como a perda de identidade cultural por conta da colonização, envolvendo também drogas e problemas com a lei. Aborto é um tema recorrente na história e ao menos três mulheres centrais para a trama, o praticam.  Essa história envolve a filha viciada em drogas de Chefe Corvo Vermelho, líder da comunidade. Ela cogita abortar uma gravidez indesejada e leva a ideia a cabo, sendo que sua própria mãe já passou pela mesma situação, uma vez que métodos contraceptivos não são usados na comunidade. A mãe do protagonista, Dashiel, também revela ao longo da história que abortou uma criança alguns anos depois de ele  nascido. Grande parte dos abortos acontece por conta de medo de parceiros abusivos e violentos, mas também incluem o direito das mulheres de não quererem ter mais filhos.  Na pesquisa, foi a revista que mais tocou no assunto, de 2007 até agora.

 

Sandman : Um Jogo de Você (DC Comics)

Hazel e Foxglove
Hazel e Foxglove

Escrita por Neil Gaiman e ilustrada pro Shawn McManus – Na trama, Hazel é namorada de  Foxglove, uma cantora em começo de carreira. Hazel se descobre grávida por acidente de um colega de trabalho e tem que criar coragem para contar à namorada que pulou a cerca e está grávida. Mas nesse ínterim, pede conselhos à amiga Barbie que sugere aborto e confessa que ela mesma já havia realizado um aborto um ano antes.. O casal supera esse obstáculo e retorna como protagonista da minissérie Morte: O Grande Momento da Vida, em que Foxglove, agora famosa,, precisa resgatar a namorada e o filho da própria Morte, reavaliando no processo a importância da fama, dos relacionamentos e da lealdade. Graças a essa minissérie Neil Gaiman ganhou um troféu GLAAD em 1996. Sandman 33 (1991), no Brasil em Sandman Edição Definitiva 2 (2011)

Nocturna (X-Men) – (Marvel Comics)

Nocturna
Nocturna

 

A heroína descobre estar grávida de seu namorado Pássaro Trovejante no arco  Exiles 8-10 publicado em  2002 nos EUA, no Brasil publicado em X-Men Extra 14-16 (2003). Algum tempo depois dos Exilados serem forçados a deixar Pássaro Trovejante para trás em coma, Nocturna revela ter abortado.Roteiros de Judd Winick e arte de Mike McKone

Salteadora (DC Comics)

Salteadora
Salteadora

Nas histórias do Robin publicadas em 1998, Stephanie Brown (Salteadora) descobriu estar grávida de um ex-namorado. Rapidamente pensou em aborto, mas acabou tendo o bebê e o dando para adoção.

 

Sandman Teatro do Mistério

Sandman MysteryTheatre
Sandman Mystery Theatre

Na história a atriz Patricia Honeywell fica grávida de seu chefe, que nunca acredita em sua gravidez e a obriga a fazer sexo oral para manter seu emprego. Sem apoio e decidindo por sua carreira, Patricia faz um aborto. Em Sandman Mystery Theatre 54 (1997), por Seagle, Wagner e Davis. Inédito no Brasil.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina Criadora do MinasNerds.