A tutela sobre o corpo feminino e o que você tem a ver com isso

#PrecisamosFalarSobreAborto24h  #28sep #28set

Em 28 de setembro, o mundo inteiro discute a descriminalização do aborto. Mas antes, quero falar com você sobre o corpo feminino e em como ele é roubado da mulher, todos os dias, pouco a pouco.

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Alguns flashes soltos, para começar:

  • Quando era pequena, me fizeram acreditar que tocar minhas partes íntimas era sujo, errado e mostrava uma tendência homossexual. Além disso, a última coisa que eu deveria querer na vida era ser homossexual – algo errado, muito errado. A despeito disso, acabei seguindo um caminho tortuoso explorando sensações e tentando descobrir sozinha o que ninguém me falava sobre o corpo feminino. E como acreditei que eu já estava perdida mesmo, parar por quê? Não parei, mas vivi muitos anos da minha infância sentindo culpa e tendo certeza de que não merecia amor, nem de deus nem de ninguém.
  • Uma menina que morava na minha rua foi arrastada pelos cabelos de dentro da casa de uma amiga, onde nos arrumávamos juntas para uma festa. Todas nós estávamos com 13 anos e o motivo da agressão foi ela estar de batom vermelho – e parecendo uma prostituta, segundo o pai dela.
  • Mais ou menos aos 15 anos, outra amiga minha estava pronta para ir a um aniversário, para o que já tinha autorização prévia dos pais. Mas na hora de sair, o pai dela voltou atrás e a proibiu de ir porque estava bonita demais.
  • Minha primeira consulta ao ginecologista, na adolescência, foi na companhia da minha mãe. Não fiz pergunta alguma, embora tivesse muitas, porque: 1) minha mãe estava ouvindo 2) a médica e minha mãe comentavam a meu respeito, como se eu não estivesse presente e reforçando que essas meninas hoje em dia, nunca se sabe… 3) eu fiquei morta de vergonha, tensa e louca para que aquilo acabasse logo. Minhas perguntas foram respondidas, nem sempre corretamente, por revistas e amigas.
  • Minha avó paterna teve só um filho, numa época em que as mulheres em geral tinham mais de 5. Não foi exatamente por ter optado por isso. Meu avô era alcoólatra e repetidas vezes chegava da rua alterado, batia nela e no meu pai, quebrava a casa toda e (provavelmente) forçava relações sexuais. Meu pai nasceu em casa, como era o costume da época. O parto foi em cima da mesa da sala, para o conforto e pelo fórceps de um médico açougueiro, que a deixou machucada, exposta e foi fumar um charuto com o meu avô na varanda. Ela nunca me disse, mas eu não tenho a menor dúvida de que ela fez abortos. Sim, no plural.
  • Minha avó materna teve um primeiro parto difícil, longo e doloroso. Ficou tudo bem no final, mas houve risco de morte para ela e para a criança. Passado o susto, ela pediu ao médico de família, que também era seu primo, que lhe desse “qualquer coisa” para nunca mais engravidar. Não havia pílula ou anticoncepcional injetável, mesmo assim, o médico disse a ela que ia providenciar uma injeção “que resolveria tudo”. Aplicada a injeção mágica, o casal passou a não utilizar outros métodos para evitar uma gravidez – que veio rapidamente, é claro. Ao relatar ao médico que andava enjoada e achava que tinha algum problema no estômago, ouviu uma risada como resposta e a frase: “Sua gastrite nasce daqui a alguns meses, não se preocupe. Você não é mulher para ter um filho só. Ia viver nervosa demais.”
  • Minha mãe teve um primeiro parto muito complicado. Após 30 horas de contrações e câimbras que desciam pelas costas até as pernas, ela simplesmente desmaiou. A bacia dela tem uma má formação que não permitia a passagem do bebê e isso estava claro na radiografia feita durante o pré-natal. Entretanto, o médico que a acompanhou não explicou nada disso a ninguém da família e decidiu tentar o parto normal. Quando ela desmaiou, meu pai, já muito nervoso, pegou o médico pelo colarinho e exigiu providências. Só então se ficou sabendo que o médico não queria operá-la por suas próprias questões religiosas. A cesariana da minha mãe, feita rapidamente e sob grande risco para ela e para a criança, foi um corte vertical enorme. Meu irmão nasceu todo roxo e com duas marcas nas têmporas porque estava preso nos ossos da bacia da minha mãe.
  • O médico que fez o meu parto, semanas depois, enquanto tirava os pontos, me disse “que com a amamentação eu ia ficar magrinha e maravilhosa”. Mas eu não devia estender por tempo demais porque “homem nenhum aguenta essa coisa de peito vazando leite eternamente, né?” E encerrou a minha consulta me dando parabéns e mandando a secretária já me agendar para dali 6 meses e a gente colocar logo o DIU e garantir que eu não ficasse estragando o meu corpo. Eu não comentei nada sobre métodos anticoncepcionais nessa consulta, muito menos disse que queria colocar um DIU.

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Onde quero chegar com tudo isso? Se você, homem ou mulher, pensa que o aborto é uma solução fácil para uma mulher que foi irresponsável e agora está simplesmente sendo cruel, eu digo a você que ninguém nesse mundo quer ter que fazer um aborto. Essa é uma escolha de quem está no limite e já é muito difícil optar por ela. Muitos caminhos levam a uma gravidez indesejada – e eles começam no dia em que uma mulher nasce. Machismo, controle, culpa, julgamentos e desinformação em relação ao próprio corpo, à própria sexualidade e à própria dignidade como ser humano, levam a não conseguir dizer não a um parceiro sexual, levam a não saber ou ter vergonha de usar métodos contraceptivos adequados, levam ao estupro, levam à gravidez indesejada e muitas vezes também ao aborto clandestino, feito sob muitos riscos e a um custo financeiro e emocional que são sempre grandes demais.

Evitaríamos muitos abortos se as mulheres não fossem tantas vezes vistas como pessoas de segunda classe e pudessem ter uma relação saudável com o próprio corpo e a própria sexualidade. Evitaríamos muitas mortes, se o aborto deixasse de ser crime e tabu, para ser uma opção consciente, atendida na rede pública, com dignidade e assistência correta.

Se a sua convicção pessoal é contra o aborto, eu acolho a sua decisão de nunca se submeter a este procedimento – da mesma forma que gostaria que você acolhesse a decisão de outras pessoas de virem a optar pela interrupção da gravidez, se assim desejarem e precisarem. Estamos falando de decisões pessoais e todos deveríamos ter direito a elas. Saindo das questões individuais, é inconcebível que políticas públicas de saúde sejam pautadas por moralismos e continuem alimentando um ciclo de opressão, abandono e tragédia que só pesa sobre os ombros das mulheres.


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