Aquarius | Política e Memórias

Dirigido e roteirizado por Kleber Mendonça Filho, Aquarius chamou atenção antes mesmo de estrear no Brasil. Mesmo sem levar prêmios no Festival de Cannes deste ano, o filme ganhou visibilidade no mundo todo por conta da polêmica envolvendo o elenco, que protestou contra o impeachment, durante o festival.

O longa conta a história de Clara (Sônia Braga), uma jornalista que é a última moradora do edifício Aquarius, em Recife. Ao longo da história, vemos a protagonista lidando com Diego (Humberto Carrão), representante de uma construtora que pretende demolir o prédio. Clara não pretende sair do apartamento, que foi seu lar por anos e guarda memórias tão queridas de seu passado.

O roteiro é dividido em três partes: O Cabelo de Clara, O Amor de Clara e O Câncer de Clara. Na primeira parte, conhecemos o passado da protagonista e a sua luta contra o câncer. No segundo ato, o roteiro nos apresenta as características que definem Clara e, como indica o título, o que ela ama. Vemos a ligação que a personagem tem com aquele apartamento, as memórias, a família, etc. Na última parte, o filme conclui o conflito principal da história.

A atuação do elenco é um dos muitos destaques de Aquarius. A história é naturalmente focada na personagem principal e na relação que ela tem com seu redor. Sônia Braga interpreta Clara muito bem, dando a intensidade necessária para a personagem funcionar e roubar a cena. Humberto Carrão também se destaca como o antagonista passivo-agressivo. Ao longo do filme, vemos como ele vai mudando sua postura diante das atitudes de Clara, o que enriquece as cenas entre os dois.

O roteiro nos apresenta personagens bem construídos e interessantes. Até mesmo em pequenas ações conseguimos entender melhor aquelas pessoas, inclusive os personagens menores. Os diálogos também são muito bons, e por mais que alguns deles possam parecer longos, são ricos para a construção da história.

Apesar do filme apresentar uma gama diferenciada de assuntos que mereçam atenção, o grande foco da história é Clara. Quando o longa termina, temos a impressão de conhecer muito bem aquela mulher e consequentemente, torcemos por ela. Suas características são apresentadas de forma orgânica e intensa. Vemos desde a relação com cada um de seus filhos, até a forma como ela lida com sua sexualidade, o que é muito interessante.

Há inúmeras reflexões que podem ser feitas a partir dessa história. Um de seus principais elementos é a relação que temos com nosso passado, as memórias e o saudosismo. Logo no começo do filme isso é destacado,através de um flashback. Nele, vemos uma família grande reunida para comemorar o aniversário de Tia Lúcia. Logo depois, um corte seco mostra como aquele lugar está nos tempos atuais. Mesmo que a festa esteja no passado e nas memórias de Clara, aquele momento faz parte daquela casa.

Mesmo valorizando muito a história daquele apartamento, Clara não repudia o novo. Uma das primeiras cenas ambientadas no presente mostra a protagonista dando uma entrevista. Ela mostra que, apesar de gostar de mídias antigas, não tem problema algum com novidades. Gostar e sentir carinho por coisas do passado não impede Clara de aproveitar o que está surgindo agora.

Esse conflito entre o passado e o futuro aparece com mais força no dilema da especulação imobiliária. O roteiro é muito sutil ao mostrar os vários lados da situação. Clara tem todo o direito de querer ficar em seu apartamento, nada vai substituir suas lembranças, que para ela valem mais que a “oferta generosa” da construtora. Diego, o agente imobiliário, vê a protagonista como teimosa por ser tão insistente em ficar.

Os motivos dele seguem o modelo da sociedade capitalista em que vivemos. Já os filhos de Clara, principalmente Ana Paula, também acham que a mãe é teimosa. No caso da filha, o maior motivo para querer que Clara se mude do apartamento é a preocupação com a mãe. São esses diversos pontos de vista que enriquecem o conflito principal do filme.

Há também críticas nas conexões que existem dentro dessas grandes corporações. Diego é parente de uma pessoa de alto cargo na construtora, por isso mantém seu emprego e é livre para agir da forma que quer. Ele é desrespeitoso em vários momentos, mas suas conexões o protegem. Isso é uma questão muito atual em que o “Quem Indica” sobrepuja a ética.

É surpreendente a forma como a trama principal é concluída. Não só funciona para fechar a história, mas também se encaixa com as outras peças e simbolismos que foram apresentados ao longo do filme.

Aquarius apresenta uma história interessante, bem feita e dá espaço para o público refletir. O filme ainda está em cartaz nos cinemas. Apesar de ainda não ter data confirmada, Aquarius também foi confirmado para entrar no catálogo internacional da Netflix.


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Clarice França

Connect to Database. Origem: Reino do Sonhar. Classe: Radialista, escritora e amante de histórias. Reputação: Campeã do Labirinto e de Kirkwall, Heroína de Ferelden, Herdeira de Andraste, Comandante Shepard, Paragade, Dovahkiin, Witcher, Dobradora de Fogo, Targaryen e Corvinal.