Nossa heroína é Bilquis Evely!

Tem muito fanboy chatinho por aí – Evely, Bilquis

Nossa querida Bilquis Evely
Nossa querida Bilquis Evely

No último dia 14 de setembro, a DC Comics anunciou uma mudança na HQ da Mulher-Maravilha. Este mês (outubro), uma nova  edição, especial, Wonder Woman #8, escrita por Greg Rucka, será lançada e o foco será a origem de  uma das principais vilãs de nossa tão querida amazona, a Mulher-Leopardo, o que esquenta as especulações sobre a vilã fazer parte do filme solo da guerreira, que será lançado em 2017.

O que muita gente não sabe é que a ilustradora contratada pela DC para tal edição é brasileira, paulistana  curte astronomia medieval e é apaixonada por, música clássica, Doctor Who, Tolkien, Legend of Zelda e Supergirl.

Entrevistamos Bilquis Evely e ela conta como é trabalhar para a poderosa DC Comics desenhando um de seus grandes símbolos: A Mulher-Maravilha:

Wonder Woman #8
Wonder Woman #8

MN- Conte um pouquinho sobre você: nome completo, onde nasceu, como começou a desenhar, formação…

Bilquis Evely – Eu nasci e moro em São Paulo. E certo, será um plot twist, mas Bilquis Evely é o meu nome mesmo. As pessoas sempre acham que é artístico
Eu desenho desde que me lembro. Meus pais sempre incentivaram meus irmãos e a mim desde bebês.
Quanto à formação, estudei muitos anos desenho e quadrinhos e, no fim das contas, larguei duas faculdades para me dedicar à profissão. Comecei a trabalhar cedo, com 18 anos, se não erro as contas.

MN- Quando percebeu que gostaria de ser desenhista/ilustradora?

Bilquis Evely: Sempre quis ser desenhista, mas percebi que gostaria de trabalhar com quadrinhos quando vi uma revista da Supergirl na banca, eu tinha uns 14 anos.

MN- Quais são/foram suas principais influências como ilustradora, mas não só nesse âmbito, o que te inspira na…música, filmes, séries, jogos, nerdices em geral? 🙂 isso também te influencia artisticamente?

Bilquis Evely – Bom, acredito que minhas maiores influências como artista são os quadrinistas mais clássicos, como o García-López, Alex Toth e Alex Raymond, Al Williamson… e também artistas franco-belgas como o Alain Dodier, Matthieu Bonhomme e Alex Alice. Para cada projeto eu tento pensar em uma tendência diferente, porque são atmosferas diferentes.
Além desse campo, gosto bastante de música clássica, principalmente de compositores do fim do Séc. XIX e início do XX, como Gustav Holst, Vaughan Williams e Edvard Grieg. Também gosto muito de músicas pop/folk dos anos 80 e 90, como Suzanne Vega e Sixpence None The Richer.
Amo os filmes do John Hughes, Janela Indiscreta,do Hitchcock, os filmes com a Audrey Hepburn e  Greta Garbo.  Hoje em dia quase não tenho mais tempo para acompanhar séries, mas Doctor Who e Downton Abbey são as minhas favoritas. Agora, sobre jogos, acho que parei lá atrás com o Nintendo 64 e o meu favorito ainda é The Legend of Zelda: Ocarina of Time. Foi o jogo que me fez gostar de literatura fantástica! Sou apaixonada por C.S. Lewis, Tolkien e recentemente estou bastante interessante em George MacDonald e G.K. Chesterton.
Tudo me influencia, sem dúvida. Até parece uma lista bem aleatória, mas uma coisa puxa a outra. Os meus gostos também determinam o tipo de trabalho que eu aceitaria ou recusaria. É importante que seja assim mesmo.

MN – Consideramos “nerd” aquela pessoa que é apaixonada e tem conhecimentos específicos sobre um certo assunto, a ponto de saber MUITO sobre ele. Você se considera uma “mina nerd”? Quais campos da “nerdice” você domina?

Bilquis Evely – Eu gosto muito de astronomia e observar estrelas no telescópio, mas principalmente porque curto muito astronomia medieval e literatura alegórica medieval. Herança dos livros acadêmicos do C.S Lewis. Acho que esse é o interesse mais específico que tenho. Mas, mesmo com isso ou não, é difícil ser quadrinista e não ser considerada nerd de alguma forma.

 

MN – Conte como foi seu trajeto até fechar o projeto da WW #8 com a DC

Bilquis Evely – Eu trabalho há pouco mais de um ano para a DC. Comecei com Bombshells e depois fiz uma minissérie de Sugar & Spike para a antologia Legends of Tomorrow. Meu último editor me indicou para o grupo editorial do Batman, para onde a Mulher Maravilha foi transferida recentemente e foi assim que acabei pegando o job.

Sugar&Spike/cores: Ivan Plascencia
Sugar&Spike/cores: Ivan Plascencia

MN -Você sofreu algum percalço do ponto de vista machista, nesse meio? Já se sentiu preterida por ser mulher, ou algo do tipo?

Bilquis Evely – Talvez. Já passei por alguns problemas envolvendo certas pessoas do meio e às vezes acho que isso não aconteceria se eu fosse homem ou se não fosse jovem.

MN – Pra você, quais são as principais dificuldades que os quadrinistas brasileiros encontram?

Bilquis Evely -Acho que varia de acordo com o tipo de trabalho. Eu não poderia dizer muito bem sobre os quadrinhos daqui, porque tenho pouca experiência com os nacionais. Se for trabalhando lá para fora, não acho que existam muitas diferenças entre brasileiros e americanos, por exemplo. Com exceção da língua, é claro.
Com a internet tudo é possível. Todas as editoras com que eu trabalho hoje me descobriram por causa do twitter, praticamente.

MN- Quais são suas heroinas favoritas? Gostaria de trabalhar com alguma especificamente?

Bilquis Evely – Minhas heroínas favoritas são a Supergirl e a Mulher Maravilha! Tecnicamente já trabalhei com as duas. Desenhei a Supergirl em Bombshells e ela fez uma participação bem legal na última edição de Sugar & Spike, porque Keith Giffen é um fofo e sabia que eu gostava dela!

MN – O que gostaria de falar para as meninas que estão ingressando nessa carreira de HQ e até mesmo para as meninas que ainda são vitimas de preconceito por seguir a carreira artística ou até por gostar de HQ?

Bilquis Evely –Meninas, vocês não estão sozinhas! É incrível o número de mulheres quadrinistas que surgiram nesses últimos anos.
Quando comecei, quase não conhecia ninguém. Hoje a situação é bem diferente, não é perfeita, mas está melhor. Percebo que os editores amam quando acham uma nova artista. Eles visivelmente estão se esforçando para diversificar um pouco mais as coisas. Só para dar um pequeno exemplo com números, nesse pouco tempo trabalhando para a DC, já tive 4 editoras diferentes e atualmente o time da Mulher Maravilha tem 5 mulheres envolvidas, sem contar as artistas convidadas para as capas variantes.

Gente sem noção sempre tem, troll a gente ignora. O número de editores, escritores, artistas e leitores que recebem a gente com carinho é muito maior.

E de minha parte, vocês sempre contarão com apoio e ajuda seja para o que for. 🙂
MN – Falamos muito sobre empoderamento, o próprio MinasNerds foi criado para dar voz à milhares de meninas que se sentiam diminuidas e marginalizadas, pela indústria e pelos convivas do meio, por serem nerds e muitas vezes por entenderem muito mais do assunto do que homens. Qual sua visão sobre isso?

Bilquis Evely – Nunca fui a eventos e por isso pouco me expus. E também, até há pouco tempo a maioria das pessoas nem sabiam que eu era mulher. Então, é difícil falar sem ter a mesma experiências das colegas.
Mas sei bem que as meninas desse meio acabam aprendendo muito mais sobre os assuntos, não só porque gostam, mas porque sentem que precisam. É como qualquer outra pessoa que tenta entrar em um grupo fechado e precisa ser melhor para isso. Parece até uma visão positiva, porque a gente acaba sendo realmente melhor, mas não é bem assim. O número de meninas promissoras que desistem ainda pode ser grande, quem sabe?  Como quadrinista, sei que sempre haverão críticas sem noção e comentários maldosos, independente de quem você seja. Todo mundo acha que é o dono do assunto, tem muito fanboy chatinho por aí.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina

Criadora do MinasNerds.