Board games: um oásis offline para as crianças que nasceram conectadas

O mercado de jogos modernos de tabuleiro – ou board games – está em franca expansão, atraindo cada vez mais adeptos, novas editoras e empresas interessadas em traduzir para o mercado nacional os principais sucessos mundiais. Ao longo dos cerca de 15 anos da nova onda de crescimento do hobby no Brasil, muitos dos jogadores que começaram na adolescência estão agora considerando investir em boas opções que incluam também as crianças.

Divertidos e estimulantes tanto para a socialização como para o raciocínio, os jogos de tabuleiro modernos oferecem um mundo de possibilidades de aprendizado e de contato com o concreto – um oásis offline para as crianças da geração Alpha, conectada desde o berço.

Quem são as crianças Alpha?

Cercados por gadgets desde que nasceram, a partir do início dos anos 2000, os meninos e meninas Alpha começam a estudar mais cedo do que as gerações anteriores e vivenciam a tecnologia em todos os aspectos de sua vida, através de produtos e projetos cada vez mais personalizados e horizontais(1). Essa grande e precoce exposição à tecnologia e ao mundo online possui vários aspectos positivos, mas também gera maior ansiedade, dificuldade de concentração e no desenvolvimento de habilidades sócio-emocionais – desafios que podem ser trabalhados através dos jogos de tabuleiro.

(1) Fonte: Fernanda Furia, mestre em psicologia infantil pela University College London/The Anna Freud Centre – Londres, via Portal Ig (http://delas.ig.com.br/filhos/2014-06-02/de-x-a-alpha-entenda-as-geracoes-dos-ultimos-50-anos.html)

De mães para filhas

Alice e Zoé, 3 anos e 9 meses, jogando My First Orchard
Alice e Zoé, de 3 anos e 9 meses, jogando seu board game favorito, My First Orchard

Residentes no Rio de Janeiro, Isabel Butcher (41), jornalista, e Tânia Zaverucha (40), bióloga, jogavam os tradicionais AD&D (RPG), War, Imagem&Ação e baralho durante a adolescência nos anos 90 e tiveram contato com os jogos modernos a partir de 2005, através de um amigo. Da primeira rodada de Ticket to Ride até o acervo atual, com dezenas de títulos de várias nacionalidades, os jogos de tabuleiro foram motivação não só para as animadas reuniões semanais com os amigos como para pesquisas e viagens em busca de eventos sobre jogos e novas aquisições para a coleção. Após a chegada das gêmeas Zoé e Alice, de 3 anos e 9 meses, Isabel e Tânia passaram a procurar opções que pudessem ser interessantes para a faixa etária das meninas.

“As minhas filhas começaram a jogar com 3 anos, mas o meu sobrinho, de 2 anos e meio, também já se diverte bastante junto com elas. A série My Very First Games, da Haba, é recomendada para crianças a partir de 2 anos. No início, é importante que os jogos sejam rápidos e muito concretos. A beleza do material também tem um apelo importante nessa idade. Prefiro jogos cooperativos para os pequenos, porque algumas crianças podem não reagir bem à questão de ganhar ou perder. Este é o ponto mais crítico para que a criança seja introduzida com sucesso ao mundo dos jogos. Entretanto isso deve ser tratado de forma natural: às vezes ganhamos, às vezes perdemos. O objetivo do jogo não é ganhar, mas se divertir. Quem ganha é um mero detalhe” _ diz Tânia.

Aos poucos o hobby se tornou um projeto profissional para Isabel – com a criação da Curió Jogos e da comunidade Tabuleirinho, voltada para pais e desenvolvedores de jogos de tabuleiro para crianças. “Eu e minha sócia, Graziela Grise, já tínhamos tentado abrir uma editora de jogos de tabuleiro focada em adultos, mas não deu certo pois estávamos dedicadas também a outros projetos e acabou ficando complicado. Quando saí da empresa em que trabalhava como jornalista, decidi aproveitar o momento para tirar meu sonho do papel. Em fevereiro de 2016, decidimos montar uma empresa de jogos de tabuleiro, cartas e brinquedos criativos para meninas e meninos de 3 a 10 anos. O Brasil já recebe muitos jogos de tabuleiro importados da Europa e dos Estados Unidos, mas com foco nos adultos.”

Moradora de São Paulo, Graziela Grise (36), doutora em Física, é sócia de Isabel e mãe de Gabriel (6) e Noah (4). No começo de outubro, a família viaja para a Alemanha e já incluiu em seu roteiro a visita à Essen Spiel 2016, o maior evento do mundo para o público de board games. Este ano, de 13 a 16 de outubro, a feira espera receber 162 mil pessoas, em um espaço de 63 mil m², com 1000 exibidores de 41 países e previsão de cerca de 900 lançamentos.

“A comunidade Tabuleirinho surgiu da necessidade de conversar sobre as opções atuais de jogos para crianças, sobre as possibilidades de envolver nossa família e filhos em um hobby que tanto curtimos. Há várias comunidades sobre board games para adultos no facebook, mas nessas comunidades pouco se discute sobre o mercado infantil ou sobre adaptações de jogos adultos para crianças. O nosso grupo foca mais especificamente nisso. Já em relação à Curió, nosso primeiro jogo está em fase de ilustração. Enquanto isso continuamos fazendo testes e jogando com crianças para fazermos os últimos ajustes. Nossa ideia é entrar no mercado até o primeiro trimestre de 2017. Temos também outros jogos em desenvolvimento, além de kits criativos e jogos portáteis” _ conta Graziela.

Noah e Gabriel, 6 e 4 anos, jogando uma versão de board game inventada por eles usando Lego e jogando o PNP Hero Kids com o pai
Noah e Gabriel, de 6 e 4 anos, brincando com um jogo de tabuleiro inventado por eles com Lego e jogando com o pai o print-and-play Hero Kids

Diversão em primeiro lugar

A introdução aos board games pode trazer muitos benefícios às crianças, entretanto, para que seja um sucesso, é preciso ter atenção a alguns detalhes. Fique de olho nas dicas:

  • Eventos públicos são bacanas para crianças um pouco maiores, a partir dos 7 anos. Para os pequenos, é melhor um evento em família, no espaço deles e com pessoas já conhecidas.
  • Brinque com prazer e amor. Não adianta brigar com uma criança de 3 anos porque ela largou o jogo no meio, por exemplo.
  • Apresente o jogo sem pressão, sem que o domínio completo das regras seja uma condição para jogar. Às vezes, a criança vai seguir as regras, outras vezes não vai. Entre no clima. Se não fluir bem, tente outro dia.
  • Para os bem pequenos, os jogos devem ter mecânicas simples, usando cores e não números. Os componentes devem ser grandes, para que não haja nenhum risco.
  • Respeite o tempo e o interesse da criança. Em geral, uma partida não deve demorar mais do que 15 ou 20 minutos.
  • Saiba acolher a criança diante das frustrações. Não é o caso de deixá-la ganhar sempre, mas não minimize a tristeza ou diga que é besteira.
  • O mais importante é se divertir, pois no final das contas, isso é que vai fazer com que se queira repetir a experiência.

Para todos

Ainda que seja possível combinar com os amigos e montar uma coleção de jogos em grupo, o hobby dos board games pode ser um investimento inacessível para muita gente. Se o orçamento está curto e ainda não dá para adquirir os jogos mais famosos, há também as opções dos print-and-play (ou PNPs) e das plataformas online, como Board Game Arena  – onde se pode testar muitos dos jogos de tabuleiro mais conhecidos.

“Gosto muito dos print-and-play, pois ajudam a popularizar o hobby, ainda bem elitista. As opções online, embora não sejam minhas preferidas, servem também para que potenciais interessados possam testar um jogo antes de comprá-lo. Mas principalmente acho maravilhoso fazer essa atividade junto com as crianças, envolvendo-as no processo de criação e fabricação dos jogos. Aqui em casa jogamos bastante Hero Kids, um PNP de RPG pra crianças a partir de 4 anos. Sou fã do Studio Teia de Jogos também” _ comenta Graziela.

Crianças e adolescentes jogando board games durante o primeiro evento do Projeto Lúdico, no Grajaú, em São Paulo
Primeiro evento do Projeto Lúdico Jovens e Crianças Offline, no Grajaú, em São Paulo

Pensando em apresentar os jogos de tabuleiro às crianças e adolescentes da periferia, Ly Pucca (40), doula, fotógrafa e mãe de Luiza (16), Pedro (7) e Amanda (4), juntou-se a outros amigos boardgamers para desenvolver o Projeto Lúdico Jovens e Criancas Offline, que já promoveu um encontro em julho deste ano, na região do Grajaú, em São Paulo e vai fazer mais um em Pirituba agora em outubro.

Os encontros do Projeto Lúdico só acontecem devido ao esforço coletivo e voluntário dos amantes de board games. A cada edição, é necessário conseguir patrocínios, doações e empréstimos de jogos, além de recrutar interessados em ensinar a jogar, montar e distribuir os lanches para as crianças e adolescentes que lotam o evento. O II Jovens e Crianças Offline acontece no próximo sábado, dia 8/10, a partir das 13h, no Centro Esportivo Pirituba, na Av. Agenor Couto de Magalhães, 32 – Pirituba. Quem quiser conhecer melhor e colaborar com a iniciativa, pode acessar o facebook ou o blog do projeto.

Uma comunidade global

Apesar de ser uma atividade essencialmente presencial, os adeptos de board games se beneficiam muito do uso da rede mundial para trocar informações, aperfeiçoar suas habilidades e também financiar e impulsionar iniciativas independentes. Os sites, perfis de facebook e youtube proliferam pela Internet, oferecendo avaliações, tutoriais e rankings dos títulos preferidos. Além das avaliações de especialistas e das comunidades, outro critério interessante é ver os jogos assinados por desenvolvedores já conhecidos. E há brasileiros entre os grandes nomes campeões de vendas e de prêmios: fique sempre de olho no que estiverem fazendo Sergio Halaban, André Zatz e Fel Barros, por exemplo.

No mercado internacional, as grandes referências em jogos para crianças são a Haba e a Ravensburger. No Brasil, as mais conhecidas editoras/importadoras de jogos de tabuleiro são a Devir, a Galápagos Jogos e a Conclave – que promete trazer para o Brasil os títulos da Haba. Mas também há opções de boa qualidade chegando ao mercado através de empresas menores como Arcano Games, Pingado Games, Sherlock S.A., Papaya Editora e Ludofy.

Para quem está pensando em começar uma coleção, uma ótima ideia é acompanhar que jogos foram os vencedores das premiações Spiel des Jahres (geral) , Kinderspiel des Jahres (para crianças) e Kennerspiel des Jahres (para jogadores avançados). Um dos melhores sites internacionais sobre o hobby, com informações alimentadas quase sempre pela própria comunidade, é o Board Game Geek. Na mesma linha, mas com conteúdo em português e cobrindo também o mercado nacional, há o Ludopedia.

Agora só falta você

O Dia das Crianças está chegando e é uma ótima oportunidade para começar a se divertir em família. Confira as indicações das nossas entrevistadas e mãos ao tabuleiro!

Dancing Eggs é um dos mais originais e divertidos entre os jogos modernos para crianças

My First Orchard My First Orchard (Haba) (2+)

Looping LouieLooping Louie (Hasbro Estados Unidos) (4+)

A Troupe dos Porquinhos (Devir) (4+)

Dancing EggsDancing Eggs (Haba) (5+)

My First Stone Age (Z-Man Games) (5+)

OutfoxedOutfoxed (Gamewright) (5+)

Rhino HeroRhino Hero (Haba) (5+)

Dobble (Spot It)Dobble (Spot it) (Galápagos Jogos) (7+)

Dino Race (Devir) (8+)

King of TokyoKing of Tokyo (Galápagos Jogos) (8+)

Química MalucaQuímica Maluca (Meeple BR) (8+)

Survive: Fuga de AtlântidaSurvive: Fuga de Atlântida (Conclave) (8+)

GunrunnersGunrunners (Pensamento Coletivo) (10+)


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