A Casa de Vidro: uma história agridoce sobre a magia da vida (e fadas!)

a_casa_de_vidroSou uma grande fã de literatura de fantasia, mas confesso que é raro algo no gênero me agradar hoje em dia. É difícil encontrar material que fuja do mar de clichês medievais que inunda as séries mais conhecidas, ou das narrativas que parecem precisar de acontecimentos épicos e grandiosos para terem algum apelo.

Por isso, foi uma surpresa muito feliz ler a novela A Casa de Vidro, de Anna Fagundes Martino, estreia da nova editora Dame Blanche no mercado literário e disponível gratuitamente para download no formato digital.

A editora em si já é um alívio para fãs de fantasia entediadas pelos estereótipos, como eu. A Dame Blanche tem como objetivo, nas palavras das próprias fundadoras, Clara Madrigano e Anna Fagundes Martino, justamente inovar. “A editora publica noveletas, novelas e romances do gênero especulativo (aceitamos também livros de contos, mas preferimos nos focar nos já citados). Nós queremos boas histórias. Nós também queremos diversidade: vozes negras, asiáticas, lésbicas, gays, bissexuais, transsexuais, genderfluid, etc. Queremos protagonistas que nos surpreendam, que nos cativem, que mostrem todo o potencial da ficção fantástica. Queremos feministas, heroínas que não esperem por um herói que as salve.” Tudo que queremos também como leitoras.

Conhecendo a proposta da editora e torcendo muito por ela, já comecei a ler A Casa de Vidro com boas expectativas. Elas foram superadas pela escrita ao mesmo tempo poética e simples da autora. A ambientação e a protagonista Eleanor me lembraram uma das leituras mais queridas de minha adolescência, os clássicos romances vitorianos com foco em heroínas como as Catherines de O Morro dos Ventos Uivantes.

Eleanor, como minhas heroínas mais queridas, é uma mulher forte e complexa presa em convenções sociais que não significam nada para ela. Quando jovem, gostava de se refugiar na estufa que seu pai construiu por capricho no jardim, uma casa de vidro inspirada no famoso Palácio de Cristal que sediou a Grande Exposição de 1851. Lá, ela se encantou por Sebastian, o misterioso jardineiro da casa que fazia flores brotarem sob seu toque.

A narrativa passeia entre a paixão juvenil de Eleanor e a descoberta de seres feéricos que transitam por nosso mundo, e sua velhice como uma mulher segura e sábia, muito diferente da garota assustada no jardim.

Enquanto Eleanor descobre um outro mundo que se esconde atrás de um véu de sonhos, ela também se depara com questionamentos sobre sua sexualidade, a maturidade e sobre o papel social esperado de uma mulher. Todas as suas reflexões fluem naturalmente pela narrativa, mostrando que fazer uma história com temas feministas é bem diferente de colocar jargões e ideias sem nenhum contexto na trama (o que me incomoda muito quando acontece, tanto que apelidei a prática de “fanservice de causa”).

O romance com Sebastian é doce e natural, e prova que é possível abordar uma história de amor sem clichês irritantes de amor eterno. Eleanor não é uma mocinha à espera do único homem que preencherá seu vazio, e sim uma agente da própria vida sentimental e das próprias escolhas.

Anna Fagundes Martino trabalha a ambientação vitoriana da narrativa com uma facilidade que encanta os fãs do período, inserindo habilmente referências históricas e costumes da época sem que nada pareça artificial. Gostei especialmente das menções à Primeira Guerra Mundial, que aconteceria alguns anos após o fim dos fatos narrados na novela. Em uma história de fadas, faz muito sentido, já que as duas Grandes Guerras são vistas por estudiosos como fatores de grande influência nas mudanças das relações da humanidade com a religião e o misticismo. Como acontece com os personagens, a guerra mudou o mundo para sempre.

A Casa de Vidro foi para mim um lembrete de como me apaixonei por fantasia, anos atrás, lendo Tolkien, quando vi que as realidades fantásticas poderiam usar a magia e o extraordinário para conversar com o que temos de mais humano e banal. Me emocionei bastante em boa parte do livro, e terminei com a sensação de estar arrasada e encantada ao mesmo tempo. Muito recomendado, e com continuação já anunciada para o próximo ano.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Beatriz Blanco

Designer, professora, gamer e pesquisadora. Fã da franquia The Legend of Zelda, histórias de terror, aliens e kaijus. Acorda e dorme online.