Os retratos fantasiosos de Lua Morales

A Lua Morales foi uma das primeiras pessoas no Brasil a tirar retratos pessoais fantasiosos. Ela trabalha em São Paulo, tem 24 anos e começou tirando fotos dela mesma para postar no fotolog. Hoje, faz disso uma carreira. A primeira vez que bati o olho no trabalho dela, percebi que era exatamente o que eu queria ter feito, se tivesse levado a fotografia a sério. A Lua Morales cobra um valor super em conta pela qualidade do trabalho. Se você estiver com vontade de fotografar com ela — e deveria —, é só entrar em contato pela redes sociais, via Facebook ou Instagram.

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MinasNerds: Como você começou a fotografar?

Lua Morales: Eu sempre quis, na verdade, desde criança. Eu roubava a câmera da minha irmã que ganhou a câmera primeiro. Meu primeiro emprego, meu primeiro salário foi quando comprei uma câmera e tirei fotos minhas. Porque eu sempre tive esse estilo [alternativo] e as pessoas não sabiam fazer fotos nesse estilo. Então, se eu fosse fazer uma foto com uma pessoa, pra um book ou coisa assim, eles iriam me obrigar a ser normal e eu não gostava disso. Aí eu comecei a tirar foto minha e postar no fotolog. Meu hobby mesmo. E as pessoas começaram a perguntar quem é que tirava aquelas fotos e tudo mais. Eu tirava junto com meu namorado também. Às vezes no tripé e tudo mais. Aí as pessoas começavam a perguntar e perguntar e eu fazia de graça [para elas]. Até que chegou uma hora que eu percebi que tava fazendo muita foto de graça (risos) aí eu comecei a cobrar e me profissionalizei bastante. Mas foi mais porque eu não achava gente que fazia do jeito que eu queria. Aí eu comecei a fazer do jeito que eu queria.

MN: Acho que até hoje não tem, né?

LM: Agora até tem mais. Ficou mais comum isso de foto fantasia, esse tipo de coisa. Sempre gostei de me transformar em personagem. Se fosse pra fazer foto normal… Era numa época que não tinha selfie. Eu fazia minhas selfies com a câmera grande.

MN: Isso foi quando? 2004?

LM: Dois mil e… seis, por aí. 2006, 2007. Comecei a postar no fotolog lá por 2007, 2008. 2006 eu já tinha criado, mas não interagia. Eu era bem bobinha, tinha uns 14 anos, era bem criançona, sabe?, às vezes postava foto, mas nunca deixei profissional. Foi de uns tempos pra cá que comecei a levar mais a sério. Que eu sempre fui muito criança na internet.

Mari Moon por Lua Morales
Mari Moon por Lua Morales

MN: Você consegue viver disso, de fotografia?

LM: Consigo. Só que como eu só faço retrato, book pessoal, não é como se eu tivesse uma renda muito grande. Hoje estou pensando em criar uma empresa, que seja voltada pra fotografia pra que eu possa ter uma renda maior. E possa transformar em empresa mesmo. Mas eu consigo viver disso, sim, consigo pagar meu aluguel e as coisas assim. Não tô rica, né? (risos)

MN: Você faz cosplay? Você fotografa, né.

LM: Cosplay, cosplay, não. Porque o cosplay seria mais, tipo… Depende, porque o que eu faço seria um costume play. Mas eu não chego a fazer de personagem. Eu invento personagem, que é um tipo de cosplay.

MN: Mas você tira foto de cosplay?

LM: Eu tiro só de uma menina [a cosplay Giu Hellsing, mostrada na capa da entrevista]. Ela é uma cliente fixa. Se você for ver, todas as fotos são da mesma menina.

Autorretrato
Autorretrato

MN: Conta um pouquinho do seu processo. Você maquia e faz cabelo…

LM: É curioso que eu faço tudo. Porque, se eu depender de outra pessoa pra fazer, eu acabo não gostando do resultado final mesmo. Então como a ideia é totalmente minha — eu tenho na minha cabeça aquilo já formado. Se eu pedir pra outra pessoa fazer, talvez ela não pegue exatamente o que eu tô querendo passar. Então eu faço meio que na falta de eu ter alguém que tenha mais ou menos a mesma sintonia. Mas geralmente eu faço também porque, se eu deixar por conta das pessoas pra elas irem maquiadas, às vezes a pessoa não sabe se maquiar direito, ou ela não gosta. E é necessário pra foto, por mais que seja uma coisa básica, um pó, um negócio na pele.

Aí o que eu faço geralmente. Eu converso com o cliente antes, pra ver a ideia que ele quer. Porque às vezes a pessoa tem uma ideia dela e é legal porque eu meio que posso proporcionar isso pra ela. Faço um estudo, olho as fotos dela meio por cima pra ver como que ficaria legal as fotos dela, a gente vai conversando, chega a uma conclusão de como ficaria a produção. Chega no dia eu maquio ela, mas eu meio que faço uma maquiagem só pras fotos mesmo. Não sou uma maquiadora profissional, só que seja uma ajuda pra pessoa.

Mas naquela época que eu comecei, 2010, 2011, que foi quando comecei a fazer mais ensaios, que eu larguei meu emprego fixo pra fazer isso — tava brava com meu patrão, falei “não! vou ser minha própria patroa agora!” Quando eu larguei assim, as pessoas não tinham costume de fazer desse jeito, não tinha nem maquiador que fizesse. Hoje em dia, não. Hoje em dia você contrata um maquiador no Facebook e faz. Então eu meio que eu fiz pra ajudar as pessoas também.

Lari Maza, da grife HauteXtreme, por Lua Morales
Lari Maza, da grife HauteXtreme, por Lua Morales

MN: Você faz os acessórios também, né?

LM: A maioria. Não todos, mas eu faço a maioria. Porque, meu, eu tenho muita ideia. Eu fico muito tempo no Pinterest e no Deviantart tendo ideia. Eu perco horas nisso, mesmo. Minha cabeça fica trabalhando. Esses dias eu vi uma moça com umas tranças e eu fiquei pensando em como fazer um ensaio disso. Eu tô na rua, e eu vou imaginando as coisas, aí nessas eu junto pra ter ideias pra fazer uma sessão.

MN: Quais são as suas inspirações? Teve alguém que você viu que queria fazer igual, quando você tava começando?

LM: Pior que não. Acho que são muitas pessoas, não posso dizer que seja alguém  específico. Eu queria fazer muito um estilo. E esse estilo que eu faço não é original, sabe, na gringa você vê muito. Meio Deviantart, meio Tumblr. Eu sigo muito Tumblr de referência histórica, arte. Você vê as roupas, da época vitoriana. Eu queria fazer algo assim, queria fazer algo que fosse artístico, sabe? Que não fosse simplesmente uma foto. Que fosse alguma coisa produzida, uma coisa que você se sentisse num mundo diferente. Porque foto, foto a gente tira no dia-a-dia, no celular e tudo mais. Então não é como se fosse uma inspiração em uma pessoa específica, é uma inspiração num estilo assim.

Eu me inspiro mais em ilustração do que em fotografia. Eu tenho muita inspiração, por exemplo, no Mark Ryden, gosto muito das coisas que ele faz, a paleta de cores dele, gosto bastante. É tanta coisa que fico até perdida. Gosto muito da Natalie Shau, que é uma moça que faz manipulação digital. Eu acho bem trabalhado, é uma grande inspiração. Se você ver meu trabalho, tem muita coisa bem parecida. Tinha uma moça, que acho que hoje em dia não trabalha mais com isso, que o nome dela é Viona-Art [A Viona ainda trabalha com fotografia e inclusive foi tema de uma matéria aqui no Minas Nerds.]

Era uma puta produção, uma produção fodida. Em 2008 eu olhava e ficava “meu deus!”, era muito diferente. Hoje em dia a gente vê bastante disso na internet, mas antigamente ela era maior referência de estilo assim, de produção. Minha parte favorita não é nem a fotografia, é a produção da fotografia, o processo todo. Acho que no futuro eu nem quero trabalhar clicando, quero trabalhar fazendo toda a direção de arte, que é o que mais me atrai mesmo. Então, tipo, eu tenho muita referência, não tem como, mas é mais de ilustração que de fotografia.

MN: Você tem dica pra quem está começando?

LM: Eu nunca sei o que dizer porque depende. Depende do que vc quer fazer, qual a sua intenção. Se você quer ficar rico, porque não vai, nesse meio, não. Até por isso eu tô pretendendo mudar de meio. Você trabalhar com ensaios pessoais é uma coisa que, tipo, você tem que ter muita paciência pra lidar com as pessoas. Tem que ter equipe, tem que ter contrato. Acho que essa é minha maior dica, na verdade, contrato é essencial. O equipamento nem é tão importante, dependendo da sessão que for fazer. Se for ensaio pessoal não tem porque você ter um puta equipamento. Você pode ter um equipamento de uma linha mais de início, que é de boa. Tanto é que eu tenho um equipamento que custou R$2.000,00, que não é um equipamento super carão, mas ele me serve pra o que eu preciso. Tem que ver onde você quer chegar, se você pretende ficar rico… Não sei, as pessoas olham de fora e vêem…

Giu Hellsing de Lady Loki por Lua Morales
Giu Hellsing de Lady Loki por Lua Morales

MN: Parece super glamouroso, né? E vai você e a pessoa, você fotografa de dia?

LM: Sim. Eu só uso iluminação natural. Fica mais bonito. E eu não tenho nem assistente, não levo nem um rebatedor. Então uso só iluminação natural. Hoje fiz dois ensaios. Mas é só experiência que vai fazer as pessoas saberem o que elas querem e como começar. Mas o contrato é essencial, tem que fazer contrato.

MN: Como faz pra tirar foto com você?

LM: Geralmente a pessoa entra em contato por mensagem. Aí eu passo meu orçamento inicial, que é um texto padrão, tem lá um formulário com perguntas respondidas, que são as que eu mais recebo, que eu já respondi, então fiz um FAQ. Depois disso, a pessoa tem que me dizer qual ideia ela quer, como ela planeja as fotos dela. Ou se ela não tiver nenhuma ideia, ela deixa tudo na minha mão, aí eu que planejo o ensaio pra ela. Eu adoro quando fazem isso, meus melhores ensaios são assim. Os ensaios que as pessoas mais gostam são as que me deixam trabalhar na ideia totalmente livre. E a gente vai conversando por mensagem. Geralmente eu marco uma data mais próxima do ensaio. É bem simples e é bem divertido o dia da sessão. Hoje, por exemplo, a gente foi no parque. Como é no parque, não tem muita produção, a gente se arruma no banheiro, faz as fotos no ambiente, luz ambiente, às vezes tem gente que passa do lado, às vezes tem gente que mexe, porque acha que produção é legal, dura umas duas horas no máximo, assim. Eu faço piada. (risos)


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Deborah Happ

Formada em Midialogia, pela Unicamp, com mestrado em Estética e História da Arte, pela USP. Faz umas artes quando dá, escreve por necessidade.