Doutor Estranho… e incrível

Doutor Estranho (Dr. Strange – Scott Derrickson/Marvel Studios 2016) já acerta na tag de lançamento do filme:

“As Impossibilidades são Infinitas”

Realmente, o que parecia impossível para fãs de quadrinhos há cerca de 10, 15 anos, aconteceu:  TEMOS UM FILME DO DOUTOR ESTRANHO! Pensar no quanto avançamos, do primeiro seriado feito para o cinema do Batman, em 1943, até aqui e no quanto isso é importante em termos de abrangência, força e estrutura para a cultura pop, é realmente incrível e parecia totalmente impossível.

images-1

Doutor. Estranho é um filme necessário, assim como serão os outros próximos títulos de heróis solo da Marvel – Homem-Aranha – Homecoming  (previsto para 2017) Pantera Negra (previsto para 2018) e Capitã Marvel (também previsto para 2018) que irão compor o elenco de VingadoresGuerra Infinita ( também previsto para 2018): o apogeu da saga que  une o multiverso da Marvel contra o vilão Thanos e suas Jóias do Infinito.

Portanto, é um filme sobre a origem de um herói, importante para a Marvel, mas que era, até agora, completamente inexistente para o grande público. E como todo filme introdutório, como já vimos em Homem de Ferro, Capitão América, Thor,  etc. segue aquela velha formulazinha: Quem é o herói, de onde veio, para onde vai, como ganha poderes ou se descobre herói,  quem são  seus aliados e vilões, blábláblá.  Com Dr. Estranho acontece exatamente a mesma coisa.

Stephen Vincent Strange foi criado por Stan Lee e Steve Ditko em 1963 sob a “leve” influência de um famoso herói dos anos 40: “Mandrake, o mágico”, mas também baseado em programas radiofônicos sobre suspense e magia que ouviam quando eram mais jovens. Ambos decidiram criar Strange para homenagear esses heróis da infância e também para aproveitar a onda psicodêlica que dominava os anos 60: culto ao LSD, meditação transcedental, grande influência de religiões orientais, seitas religiosas, cultura hippie e tudo o mais que já conhecemos e que acabou sendo a marca da época.

mads-mikkelsen-s-doctor-strange-villain-nods-towards-the-comic-books-and-teases-black-m-940285

Strange é um famoso neurocirurgião, com um ego infladíssimo, extremamente arrogante, prepotente, profundamente cético e seguro de si.  Uma mistura de Dr. House e Tony Stark.

As primeiras cenas do filme o mostram em ação, na mesa de cirurgia, no que parece ser uma operação complicadíssima, sob os olhares admirados de sua equipe e também da colega de trabalho Christine Palmer (Rachel McAdams), médica extremamente talentosa, com quem Strange parece ter mais do que uma simples amizade, mas que aparenta estar cansada de todo pedantismo do médico. “Tudo é sempre sobre você, Strange”. – ela diz. a certa altura. E é mesmo.

Até que toda autossuficiência do Doutor é posta á prova quando ele sofre um grave  acidente de carro e tem cerca de 18 fraturas nas mãos, fora ruptura dos nervos e demais lesões que agora aparentemente, o impedem de segurar firmemente o bisturi e exercer a profissão que dava significado à sua existência.

Depois de gastar todo o seu dinheiro em cirurgias (17 ao todo), técnicas avançadas, células tronco e demais recursos da medicina, Strange fica sabendo da existência de alguém em Catmandu, Nepal, que talvez possa curá-lo.

E assim começa a saga do nosso querido Mago Supremo aos mistérios do desconhecido, caminho esse que  serve claramente como propósito de ponto de convergência entre o universo físico, bélico e plausível de Vingadores, por exemplo,e as inúmeras possibilidades apresentadas pelos demais universos místicos e fantásticos da Marvel.

É, sem dúvida, um dos filmes mais bem dirigidos da Marvel Studios, mas talvez não seja muito difícil dirigir gênios da dramaturgia da densidade de Tilda Swinton, Benedict Cumberbatch e Mads Mikkelsen.

É, certamente, o filme com elenco mais competente. Todos os atores estão muito bem, Mads Mikkelsen ´nasceu para ser vilão, Seu personagem, embora não tendo muito destaque nos gibis, foi uma ótima ponte para apresentar o principal oponente do herói nas telas.  Chi Ejiofor, (Mordo) e Benedict Wong (Wong) personagens que também saíram direto das páginas do gibi do Doutor para o cinema, estão muito bem construídos e representados.

82cfd94eb5a437b0b9b5e74deb169f67-1

Sobre a celeuma referente à escolha de Tilda para viver a Anciã, a “professora” que treina Strange em todas as artes mágicas, até que ele se torne o Mago Supremo da Marvel, bem, ela foi necessária e teve total fundamento. Apesar de  Swinton ser uma sumidade nas telas e ter interpretado uma mestre perfeita, não custava nada o diretor Derrickson ter procurado uma atriz oriental igualmente competente  que representasse a etnia e cultura orientais com propriedade. White-washing bem feio e talvez o único (mas não menos grave) deslize no elenco.  Mais tarde, no texto, o roteiro tenta “consertar” a falha com Mordo dizendo  que os alunos sabem pouco sobre a mestre, a não ser que ela tem idade incomensurável e é “celta” (oi?). Fica o puxão de orelha.

 A personagem de Rachel McAdams também é bem irrelevante para a trama. Apesar de seu nome se referir a uma das três mulheres que foram “enfermeiras noturnas” da Marvel – ( A Enfermeira da Noite ou Enfermeira Noturna (Night Nurse) foi uma curta série de quadrinhos publicada pela Marvel  em 1973, que trazia a enfermeira “Linda Carter” como protagonista, conhecida por auxiliar diversos heróis feridos do Universo Marvel.  Em 2004 ela reapareceu na revista Demolidor e na saga Guerra Civil[.  A revista de 73 contava a história de três enfermeiras : Christine Palmer, Georgia Jenkins e a protagonista Linda Carter, que hoje pode ser claramente substituída por nossa conhecida Claire Temple do universo das séries) – Christine acaba ensaiando um par romântico desajeitado com Strange e também figura algumas cenas cômicas, mas nada demais. A maior representação feminina da história fica realmente nas mãos de Tilda Swinton, que está irrepreensível.

mc-adam-will-coming-soon-as-a-nurse

No mais, não dá para contar muito sem encher vocês de spoilers e o MinasNerds não faz isso. 🙂

O filme é cheio de clichês esotéricos e de auto-ajuda que vão render muitos memes até o final do ano, e efeitos e CGI’s lisérgicos e alucinantes, chegam a dar tontura e até a cansar, por vezes. Uma mistura clara de A Origem (Inception) com Matrix.  Justificam o 3D.

Tem fanservice  de montão, principalmente para os leitores assíduos das revistas do mago. Desafio vocês a contar os artefatos mágicos e relíquias!  Tem também um fanservice incrível referente ao papel de Cumberbatch como Sherlock, série da BBC que alçou o ator à fama. Um aspecto digno de nota: Stephen Strange dos cinemas é metido a engraçadinho, bem diferente do sério e grave Doutor dos quadrinhos. Mas isso não foi ruim, até, só diferente para quem já conhece o personagem. Senti falta porém, das famosas conjurações mágicas que Stephen fazia nos gibis. Eram TÃO legais! Teria sido o máximo vê-las em live action.

A famosa Capa de Levitação, uma das marcas do personagem, juntamente com o Olho de Agamotto, tem menção honrosa como alívio cômico pertinente, arranca boas risadas.

A trilha sonora traz alguns clássicos dos anos 70 e sim, não poderia faltar uma homenagem a Pink Floyd, já que o personagem era queridinho da banda (o que faz todo sentido) – Tem Pink Floyd na trilha!

Em resumo: Doutor Estranho é um bom filme, um filme de origem de personagem que novamente, tem mais uma função prática para amarrar o MCU do que entreter o público.  No entanto, cumpre as duas funções com maestria.

E fica aqui uma constatação: A cada filme da Marvel Studios fica ainda mais claro o quanto a DC ainda está há anos luz de fazer algo decente. Isso é bem triste. In Geoff Johns we trust.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina

Criadora do MinasNerds.