Respeita a Dona Benta! A mulher como contadora de histórias

Vou te dar um desafio: tente escolher a figura feminina mais importante da história da literatura. Muito fácil, né? Coisinha simples, boba até. Moleza.

Alguns dirão que Alice é uma boa escolha para ocupar esse trono. Sem discussão: o mérito dessa personagem, muitas vezes considerada chata e irritante, é um dos mais nobres. Pode-se dizer que a fantasia que consumimos hoje é diretamente influenciada pela criação de Lewis Carroll — inclusive aquele épico cabeçudo que só você leu. A ousadia de Carroll ao escrever uma história para crianças que não fosse moralizante, que quebrasse expectativas quanto ao comportamento da personagem e instigasse a investigação, a lógica, tudo isso teve efeito explosivo na literatura da época. E quanto a Alice ser uma chata, bom, ela é — mas é de suprema importância que seja. Sem nos darmos conta, ela se tornou a primeira heroína de todas as histórias de fantasia. Alice só é chata porque investiga demais a si mesma, passa todo o tempo se questionando, sem querer agradar ninguém, sem ser “educadinha”. Ela só quer saber quem é, assim como Chihiro ou Ophelia de O Labirinto do Fauno. É a partir dessa história que teremos muitas outras jovens partindo em aventuras e se questionando, dando origem a uma teoria de que a jornada do herói é diferente da jornada da heroína, muito mais interna e intimista. (Tem um texto bem legal sobre isso, recomendo).

Mas é claro que há outras incontáveis candidatas. Madame Bovary, por exemplo, ou Jane Eyre, Anna Karenina, Lizzie Bennet, até Pollyanna; felizmente, temos uma safra muito interessante de mulheres incríveis. Mas hoje eu quero defender território nacional: quero falar da Dona Benta.

Longe de mim dizer que Dona Benta é a figura feminina mais importante da literatura. Sem dúvida, ela foi fundamental na infância de dezenas de gerações; nunca vou esquecer a versão de Peter Pan (com a Wendy, outra contadora de histórias fundamental na literatura inglesa) contada por ela. Foi um dos meus livros favoritos e, ainda hoje, tenho certeza que sei algumas das passagens de cabeça. Mas isso não faz dela nem mesmo a contadora de histórias mais famosa do mundo: já temos a bela e inteligente Sheherazade ocupando esse posto com louvor. Mas enquanto Sheherazade tinha uma missão muito clara com suas histórias — salvar sua vida todas as noites de um marido sanguinário —, Dona Benta contava histórias por pura invencionice, puro deleite. E essa é a beleza de tudo.

Antes de avançarmos nessa trama (com o perdão do trocadilho), talvez seja importante reforçar por que pensamos, discutimos e refletimos tanto sobre histórias e suas contadoras, afinal. Segundo Jonathan Gottschall, mais do que caprichos de cérebros capazes de imaginar, nossa espécie é literalmente dependente de histórias. Segundo The Storytelling Animal, o livro de Gottschall sobre ficção e evolução (sim, é tão incrível quanto parece! Leiam!), nossa capacidade de fabular, criando narrativas e tramas, é uma vantagem evolutiva. Temos sinais disso o tempo todo: nossa capacidade de sonhar (e o quanto ficamos abalados ao acordar depois de um pesadelo terrível); como organizamos a própria vida (e a dos outros também) em histórias racionais, com início, meio, fim, causa e consequência; como parecemos hipnotizados por séries da Netflix, novelas, livros, quadrinhos. Nosso cérebro tece histórias o tempo todo, fabrica possibilidades, sonha acordado. Somos movidos por histórias. E quem as conta tem um papel central no entendimento dessa importância.

O papel da mulher como contadora de histórias é bastante antigo

É sabido que dificilmente fomos as primeiras a fabricar narrativas e espalhá-las pelo mundo; muitos folcloristas apontam que, provavelmente, as primeiras histórias orais eram narradas em primeira pessoa, pelos próprios autores de feitos heroicos. Um caso famoso de história oral é a de Keokok, estudado pela folclorista Ruth Sawyer, que passava boa parte do tempo elogiando a seus próprios músculos, por ter matado um urso com as próprias mãos. Contudo, muito provavelmente coube à mulher a tarefa de refinar a contação de histórias, contando as tramas em terceira pessoa e dando a elas mais função socializante (e talvez menos tediosa, afinal, quem quer ouvir o outro se gabando por horas seguidas?).

Segundo Marina Warner, estudiosa do tema, a maior parte das narrativas de contos de fadas ou folclore eram contadas por mulheres e, principalmente, para mulheres; reforçavam os perigos de agir de determinada forma, de se comportar de tal maneira. As histórias ajudavam a organizar e compreender a comunidade de dentro para fora: ao serem contadas dentro de casa, no ambiente familiar, preparavam crianças e adultos para as afrontas do mundo. Para Walter Benjamin, era de suma importância que o contador de histórias fosse idoso, porque já tinha visto o mundo, já o conhecia. Em “The Storyteller”, seu artigo sobre o tema, Benjamin também aponta que cada tribo produz seus próprios contadores de histórias, e até hoje é possível identificar traços e características próprias dessas narrativas. Um exemplo divertido disso (e que talvez estrague alguns dos seus sonhos, e por isso já peço desculpas) é sobre a maior referência dos Irmãos Grimm. Muito provavelmente, dizem estudiosos, os Grimm jamais viajaram por toda a Alemanha em sua nobre missão para coletar histórias folclóricas do país. Era algo caro e inviável para a época, em tempos de guerra e divisão do país. Pelo contrário: enviavam jovens aprendizes até o vilarejo mais próximo para entrevistarem uma senhorinha que, ao que se sabe, contribuiu para a maior parte do trabalho dos Grimm. De cabeça, ela contava ao “estagiário” as histórias que ouvira de sua mãe na infância, e com isso encheu páginas e páginas de histórias conhecidas até hoje. Não à toa, os contos dos Grimm se parecem tanto.

Até aí, já deu para entender a importância da Dona Benta. Ao contar as histórias para Pedrinho, Narizinho, Emília e Tia Nastácia, Benta assume essa mesma figura de velha sábia, que prepara nossa compreensão do mundo. E compreender o mundo é uma forma de criá-lo, também. Ser a narradora da história também é ter o poder de criá-la da forma que quiser.

Nesse ponto, Dona Benta e Alice não são tão diferentes. Uma cria histórias sobre o Reino das Águas Claras e toda a imensidão fantástica que o mundo lá fora tem a oferecer; a outra está contando para si mesma, continuamente, sua própria história e identidade. Alice não funciona como narradora para os outros: é dispersa, confunde tudo com um sonho, está ensimesmada todo o tempo. Mas, quando sai de sua jornada, entende perfeitamente quem é e pelo que passou, e isso basta. Talvez seja muito mais comum encontrar Alices do que Donas Bentas e Sheherazades, afinal. Mas todas elas estão na mesma busca: investigar e criar o mundo ao redor e a si mesmas. Em tempos como os nossos, em que tudo muda tão rápido, saber o caminho para casa – e para seu próprio eu – é absolutamente fundamental.


Cláudia Fusco é jornalista e mestre de estudos de ficção científica (o que sempre garante ótimas conversas em bares). Ama livros, falar sobre livros e ver gente falando sobre livros. Tem vlog, newsletter e muitos planos malignos.


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