Não apenas amigas, elas são lésbicas!

Você já pensou quantas obras, sejam filmes, livros, quadrinhos ou séries, contêm personagens lésbicas? E, nessas histórias, quantas lésbicas são retratadas em relacionamentos? Poucas, não é? 2 ou 3, talvez 6 ou 7 se tiver procurado bastante. Agora, pense em quantas dessas mulheres lésbicas que vivenciam um relacionamento e que têm um final feliz para as suas próprias histórias? Imaginem como uma lésbica se sente ao ver esse cenário…

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Vamos lembrar que em nossa sociedade heteronormativa (onde ser hétero é considerado o padrão normal ou correto) aprendemos desde cedo que o “correto” é um casal composto por um homem e uma mulher e todos os outros tipos de relacionamentos são considerados perigosos, pecaminosos, ou no mínimo exóticos. Dessa forma, as lésbicas são consideradas particularmente “desviantes” por grande parte das religiões mais difundidas no Ocidente, não por que de fato seja assim, mas porque se idealiza que a mulher existe para servir ao homem e não fazer isso torna uma mulher errada ou pecadora. Imaginem para uma moça que não se encaixa nestes padrões crescer sem se ver representada em lugar algum, sem referencial. É mais um reforço para uma auto imagem que afirma que ser lésbica é errado.

Lembremos também que a mídia fetichiza os relacionamentos e a sexualidade lésbica, quase sempre retratada somente como um pano-de-fundo ou fetiche para satisfazer o público masculino, sem qualquer preocupação com os sentimentos, a identidade ou com as vivências de mulheres lésbicas. Algo semelhante acontece na indústria pornográfica, que além da hipersexualização usual de suas obras (o famoso “pornô lésbico”), também cria pornografia específica que erotiza relacionamentos de lésbicas de outras obras de ficção criando materiais derivativos que mostram versões deturpadas das obras originais com a intenção de vender tais relacionamentos como um fetiche. Por exemplo, o material pornográfico envolvendo Sailor Urano e Netuno do anime/mangá Sailor Moon onde seu contexto é resumido a algo sexual e objetificado ou mesmo inserir personagens extras incluindo homens em cenas íntimas com elas.

A fetichização de lésbicas pode ocorrer por meio do tratamento superficial da interação entre mulheres, retratadas sem relacionamentos mais aprofundados: como no tropo do “episódio do beijo lésbico” em que é introduzida uma nova personagem secundária, sabidamente lésbica ou bissexual, que se aproxima de uma personagem heterossexual do núcleo recorrente de personagens da história, flerta com ela e, eventualmente, a beija, mas sem maior desenvolvento ou aprofundamento do relacionamento entre elas e tendo a personagem lésbica/bissexual removida da trama logo depois. Esse recurso também pode ocorrer como um único beijo lésbico dado por curiosidade entre duas personagens – onde uma ou ambas são retratadas como heterossexuais – sendo que o beijo entre elas notadamente gera reações nos personagens masculinos à sua volta. Cenas como a do “beijo lésbico” tal como retratado em Os Simpsons se popularizaram com o episódio “He’s a Crowd” (Ele é uma Multidão), de um seriado do começo dos anos 90 chamado LA Law (Lei Los Angeles), e foram criados para promover a série por meio da polêmica.

Quando pensamos em representatividade televisiva aqui no ocidente, devemos lembrar que por muitos anos estes e outros estereótipos nocivos foram veiculados como norma, seja por meio do “humor”, ou até mesmo em obras que se propunham mais sérias ou informativas.

Além disso, a ideia de que relacionamentos lésbicos não devem fazer parte da nossa cultura leva ao mascaramento destes relacionamentos de diferentes maneiras, geralmente como uma forma de amizade. Isso ocorre tanto na distribuição original da obra, como em alterações de censura durante adaptações ou  traduções. Alega-se que o público “ainda não está preparado” para lidar com relacionamentos lésbicos na mídia  e ai temos relacionamentos lindos sendo apagados, como no caso que já citei anteriormente sobre o anime Mahou Shoujo Lyrical Nanoha.

Neste contexto, felizmente, temos exemplos geniais e positivos como o de Steven Universe. A série usa referências de uma cultura e identidade própria da série para introduzir o diálogo sobre a diversidade, incluindo casais lésbicos e ainda assim ir ao ar e manter uma audiência bastante abrangente incluindo crianças. Isso é retratado por meio de referências como as fusões entre personagens, que representam relacionamentos entre as mesmas, das danças, das músicas, composições de imagem e outras referências que são introduzidas aos poucos, de forma delicada e até mesmo poética. Claro que existe quem critique, afinal há quem acredite que exista um plano secreto para programar as crianças em função de uma agenda ditatorial LGBT…

Comparação entre a mesma cena em Steven Universe na versão original, e como foi censurada no Reino Unido onde omitiram a cena de proximidade entre Rose e Pearl com um quadro de Greg perplexo
Comparação entre a mesma cena em Steven Universe na versão original, e como foi censurada no Reino Unido onde omitiram a cena de proximidade entre Rose e Pearl com um quadro de Greg perplexo

Enfim, representatividade é importante para que lésbicas se vejam refletidas e tenham sua identidade reforçada e respeitada.  Isso é importante também para que  o preconceito que ainda existe na sociedade seja dissolvido, reduzindo assim a possibilidades de agressões e assédios. Bora deixar o mundo mais amorzinho pras irmãs lésbicas?

Texto colaborativo com a nova parceira da coluna Nerdiversidade:

Ilza Natalia Becher
Mestra e Jogadora de RPG, healer, parte de uma fusão permanente, ativista feminista e lgbt, ajudou o Goku a criar a Genki Dama e tem um set de skills bem incomum!


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Cecihoney

Mulher trans, lésbica, bruxa que trabalha com pixelart pra games e vive com a cabeça em robôs, naves e engrenagens. Transfã, retrô/indie gamer e parte de uma fusão permanente! Dividida entre lacinhos rosas e armamentos pesados :3