Priya, a heroína da igualdade de gênero, está de volta

*Por Karine Bender

A super-heroína Priya, uma sobrevivente de estupro, está de volta. Priya vem sendo reconhecida por grandes mídias como uma heroína da equidade de gênero. Desta vez, a narrativa do  projeto escrito por Ram Devineni e Paromita Vohra e desenhado por Dan Goldman foca no problema de ataques de ácido contra mulheres indianas. O Espelho de Priya, como a edição anterior, foi também publicado em realidade aumentada. Pode-se usufruir deste incrível recurso em qualquer smartphone ou dispositivos similares.

Em Priya’s Mirror (O Espelho de Priya), assim como em sua primeira edição, nos deparamos com os problemas enfrentados por mulheres na sociedade patriarcal.  Conhecemos neste novo volume a história de mulheres vítimas de ataques de àcido, dentre elas, Anjali. A personagem foi inspirada em Monica Singh, que aos 18 anos, após negar o pedido de casamento de um amigo, dirigia pelas ruas de Lucknow quando um grupo de rapazes passou por ela e despejou ácido sobre a moça. Monica teve 65% de seu corpo queimado.

A Índia encontra-se em um período de transição social. Está, aos poucos, saindo e um esquema tradicional, onde mulheres eram sempre submissas, rumo a um modelo contemporâneo, onde, com acesso a educação e desenvolvimento profissional, não desejam desempenhar o antigo papel.

Parte da população masculina percebe isso como um ataque a sua masculinidade, um ataque a seu poder sobre o sexo feminino. Os ataques de ácido, conforme relatos, estão comumente ligados a rejeições ou qualquer tipo de resistência a desejos masculinos. Apenas em 2013 algumas medidas foram tomadas, quando a Suprema Corte Indiana restringiu a venda de ácido bem como a indenização de cerca de US$ 5 mil às vítimas. Antes disso, o produto era comercializado sem restrições. Porém essa medida foi fraca, e novos casos surgem, dia após dia, em um país superpopuloso e carente como a Índia.

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Como retratado em Priya’s Mirror e como acontece na realidade, mulheres que sofrem tais ataques têm enormes prejuízos em suas vidas. Além da dor emocional de um rosto desfigurado, consequentemente tem dificuldades de estabelecer conexões sociais. Acabam desvinculando-se de suas próprias carreiras profissionais ou estudos, muitas  isolam-se da sociedade, cobrindo suas cicatrizes e vivendo em sofrimento. Algumas até optam pelo suicídio.  

As heroínas que convivem com este trauma encontram a maior parte do apoio umas nas outras. Um belo exemplo a citar é o café que fica na cidade indiana de Agra, o Sheroes Hangout. O estabelecimento é gerenciado por mulheres sobreviventes de ataques de ácido, buscando não somente sua reinserção profissional, como também chamar atenção à condição feminina no país. O nome do café é a junção das palavras she(ela) e heroes (heroís).

Assim como retratado em Priya’s Shakti, e nas palavras do diretor do projeto, Ram Devineni, “a violência contra a mulher não é um problema jurídico, mas sim, cultural”. A cultura do estupro bem como toda a violência a mulher está enraizado na sociedade. O modus operandi é o mesmo: naturalizar a prática da violência, descredibilizar e culpabilizar a vítima, e proteger o agressor. Tudo de forma a legitimar o comportamento abusivo de homens diante de mulheres.”

Falar sobre assuntos como o retratado tanto em Priya’s Shakti e O Espelho de Priya promove a conscientização e debate sobre estes problemas. Quanto mais pessoas tomarem conhecimento da realidade de outras, mais chances de serem encontradas soluções para problemas culturais que afligem principalmente as camadas mais carentes da sociedade.

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As histórias em quadrinhos são uma excelente escolha de mídia pra disseminar esta conscientização para o público de todas as idades, valendo-se do bônus do crescimento exponencial da cultura pop nos últimos anos. A trilha de Priya não irá terminar aqui, pois ainda há muito a ser mostrado.

Precisaremos de nossa heroína ainda mais vezes. Iremos rever Priya muito em breve!


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