O Acorde Secreto

capa do livro O Acorde Secreto, de Geraldine Brooks. Mostra a parte superior de uma harpa abaixo do título num fundo não identificado.

O Acorde Secreto é o novo romance de Geraldine Brooks, autora do encantador As Memórias do Livro, ambos lançados no Brasil pela Globo Livros. O que me atraiu para Acorde foi sobretudo minha experiência com a obra anterior, versão ficcional, porém muito possível, da história do Hagadá de Sarajevo, livro que percorreu séculos e lugares até chegar aonde está hoje.

Assim, é impossível não comparar os dois livros. Mesmo que não seja lá muito justo.

Em Acorde, Brooks reconta a história de Davi, rei, estrategista, bandoleiro, soldado, poeta e músico a quem são creditados alguns dos Salmos bíblicos, lembrado na arte e na cultura popular como o pequeno notável que matou o gigante Golias. A autora não se afasta muito do relato oficial sobre a vida de Davi, mas preenche as lacunas com audácia e uma intensa pesquisa histórica que dá verossimilhança ao cenário e humanidade aos personagens.

A narrativa acontece na voz de Natã, profeta da corte de Davi e um de seus amigos mais íntimos. Já velho, ele recorda as batalhas das quais participou com o rei e o dia em que este lhe pediu que registrasse sua vida, sem pôr nem tirar. Em busca de relatos sinceros, Natã interroga aqueles que conheceram Davi na infância e na juventude, desde gente que o ama até gente que o detesta. Isso gera histórias dentro da história, tornando a leitura instigante e fornecendo mais de um olhar sobre a figura contraditória de Davi.

Assim, a primeira metade do livro flui como água. Davi é retratado como uma espécie de caçula prodígio, odiado pelo pai pela circunstância em que foi concebido (não vou dar spoiler), desprezado pelos irmãos e protegido, na medida do possível, pela mãe. Vive desde cedo fora de casa, cuidando das ovelhas da família e desenvolvendo, sozinho (e inexplicavelmente), a arte de cantar e tocar harpa como ninguém. Até o dia em que, numa batalha entre israelitas e filisteus, ele mata Golias com a famosa pedrada. Passa imediatamente de zé ninguém a favorito do rei Saul, que o recebe na corte e chega a casá-lo com sua filha Mical.

Mas a vida boa não dura. Saul enlouquece, acredita que Davi trama para tirá-lo do trono, e está declarada a guerra. Davi se torna um dissidente político, por assim dizer, que vive a pilhar as aldeias por onde passa com seus seguidores.

Quando se acaba a história da juventude do rei, a narrativa perde um pouco do fôlego. Conhecemos então um Davi meio perdido, que, após batalhas, traições, reviravoltas e mortes, sobe ao trono, coleciona esposas e gera filhos perversos a cujos crimes faz vista grossa. É um homem de extremos, que ama demais, odeia demais e favorece os parentes mesmo quando estes não merecem. Mas a única pessoa que ama como a um igual é Jônatas, seu cunhado e general do exército inimigo. Na Bíblia, Jônatas e Davi viveram aquele tipo de relacionamento intenso entre dois caras que colocam essa amizade acima de tudo (o que hoje chamamos de bromance). No livro de Brooks eles são amantes.

Não tenho afeto pelo personagem, nem acredito que a autora espere isso do leitor. Davi é contraditório: anseia por justiça e honra, mas é movido por desejos mundanos, momentâneos; é capaz de criar estratégias elaboradas para vencer os inimigos, mas não sabe administrar a própria descendência; é e amado por Deus (ou pelo Nome, como a divindade é chamada no livro), que não hesita em castigá-lo, mas o faz com consequências trágicas para pessoas que nada têm a ver com isso.

Um exemplo disso é Betsabá. Numa narrativa muito leal à Bíblia, a jovem é avistada por Davi enquanto toma banho no terraço da própria casa e é trazida para o rei, que, encantado com sua beleza, a leva para a cama e a engravida. Depois, para poupar Betsabá da vergonha, ele dá ordens para que Urias, marido dela e fiel general do próprio Davi, seja colocado na linha de frente de uma batalha, para morrer. Dá certo, e Davi faz de Betsabá sua esposa número… já esqueci, são muitas.

A Bíblia pode não dizer isso, mas Brooks, muito acertadamente, não doura a pílula: a noite de “amor” de Davi com Betsabá é um estupro. Quando a vítima tem medo de dizer não, é estupro. Quando não tem nem mesmo o direito de dizer não (como uma mulher comum perante um rei), é estupro. Betsabá sabe que foi estuprada e ainda assim pode ser condenada por adultério. Ela ama o marido, mas é obrigada a aceitar sua morte nada acidental e a nova vida como esposa preferida do homem que a violou. Sabendo que vive numa sociedade onde a mulher não tem voz nem vez, ela aceita o destino para não enlouquecer de tristeza. Torna-se uma esposa exemplar. Isso não a poupa de perder o primeiro filho. Essa morte é um castigo para Davi, que enfureceu Deus com sua sequência de crimes. Haverá mais castigos, e outras pessoas (inclusive outra mulher inocente) estarão no fogo cruzado dos pecados do rei e dos castigos de Deus.

Voltando ao Deus do Velho Testamento, em Acorde ele, de fato, existe. Fala através de Natã, cujas profecias são certeiras, acontecem sem pedir licença e o levam a um estado semelhante a um ataque epilético. Não se lembra do que disse e pode ficar prostrado por dias. Seu contato estreito e sofrido com o Nome gera desconfiança por parte das pessoas comuns, tornando Natã um homem temido e solitário. É o personagem mais bem desenvolvido deste livro, já que a Bíblia fornece um amplo espaço para a criação da sua personalidade. Precisa lidar com a condição ambígua de pária e cortesão, e encarar a missão de repreender e amar Davi até o fim. Ele sabe que está ali para testemunhar a história de outrem. Assim, não se casa e não tem filhos. Mas tem o privilégio de ser tutor de Salomão, filho de Betsabá que, como sabemos, será o próximo rei.

No todo, O Acorde Secreto é um bom livro de uma autora que domina a arte da narrativa. Brooks sabe onde acelerar o ritmo e onde explorar detalhes saborosos que deem solidez à história. No entanto, sofre um pouco as limitações geradas pela fidelidade ao relato bíblico. Não consegue, por exemplo, dar muito espaço às mulheres. É a história de um homem contada por outro homem num livro escrito por uma mulher. Torço para que a autora publique outro tesouro como As Memórias do Livro, no qual o ponto de vista predominante é feminino e a liberdade para inventar é maior.

Por fim, não sou estudiosa nem da Bíblia nem dos povos semitas. Mas, numa época em que contestamos a imagem eurocêntrica de um Jesus loiro de olhos azuis, achei difícil aceitar os personagens de Acorde descritos quase sempre como brancos, de cabelos e olhos claros (?).


Serviço

Título: O Acorde Secreto

Título original: The secret chord

Autora: Geraldine Brooks

Editora: Globo Livros

Tradução: Claudio Carina

Número de páginas: 368

Preço: R$ 44,90


Este livro foi cedido pela editora para resenha.


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Camila Fernandes

Escritora, tradutora, preparadora e revisora de textos. Feminista, vegetariana, ateia. Autora do livro "Reino das Névoas, contos de fadas para adultos". Tentando escrever dois romances. Quando há tempo, desenho. Quando há dinheiro, viajo.