10 Fotógrafas de Autorretratos

Em A Câmera Clara, Roland Barthes estipula que um retrato é formado por quatro imagens: o que o fotografado é, como ele quer ser visto, a percepção do fotógrafo a respeito do fotografado e o que o fotógrafo de fato mostra. O autorretrato corta esse processo ao meio, sendo que o fotógrafo e o fotografado se tornam a mesma pessoa e, portanto, o fotografado consegue se expressar exatamente como quer. A selfie, por sua vez, enquanto transforma a câmera – ou o celular – em um espelho, é o triunfo absoluto do fotografado, já que é possível se ver e, portanto, controlar exatamente o resultado final da imagem.

Jean Luc Godard já dizia que a história do cinema era a de um homem apontando uma câmera para um mulher. Essa afirmação reducionista e machista pode se extender para todos os campos das artes. A fotografia é vista, também, como um homem apontando uma câmera para uma mulher. Quando uma mulher pega uma câmera e registra o mundo do seu próprio ponto de vista, ela já faz um ato revolucionário simplesmente por fugir do olhar masculino tradicional. Apontar a câmera para si mesma, se mostrar como quer ser vista, sem o auxílio de um homem, então, é quase um sacrilégio.

Vaidade, egocentrismo, clamores por atenção. É tudo isso que dizem que evocamos quando queremos falar de nós mesmas. Abaixo segue uma lista de 10 mulheres que, de maneiras muito distintas e de épocas diferentes, se mostraram através dos seus autorretratos. Em comum, elas usam seus próprios corpos para questionar padrões de beleza e comportamentos femininos.

E lembrem-se, nunca peça desculpas pelas suas selfies.

Claude Cahun (1894 – 1954)

Claude Cahun foi uma fotógrafa surrealista de Berlin. Ela é musa de seus próprios trabalhos. Seus autorretratos são performáticos. Ela se fantasia e encarna diversas identidades diferentes em frente às câmeras. Homossexual, judia na Alemanha nazista, amante de sua irmã adotiva, ela usava seu próprio corpo para questionar padrões de gênero. Fizemos uma matéria completa sobre ela aqui.

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Vivian Maier (1926 – 2009)

Vivian Maier foi descoberta há pouco tempo como a babá que era fotógrafa de rua nas horas vagas. Apesar de ser amadora, Maier fotografava a Chicago dos anos 40 com um olhar delicado e perspicaz. Ela foi pioneira em fazer autorretratos refletidos em espelhos e vitrines, recurso bastante comum nas selfies com cunho mais artísticos de hoje.

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Nan Goldin (1953 – )

Nan Goldin fotografava compulsivamente a Nova Iorque dos anos 60 e 70. Seu objeto era seu cotidiano regado de drogas, sexo e relacionamentos abusivos. Assim, ela retratava seus amigos, seus amantes e, muitas vezes, ela mesma. “The Ballad of Sexual Dependency”, seu famoso slideshow de fotos cotidianas, é uma forma de escancarar sua própria degradação e aquela das pessoas ao seu redor. Nan Goldin também teve uma matéria inteira aqui no Minas Nerds.

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Cindy Sherman (1954 – )

Cindy Sherman é a rainha dos autorretratos e, por isso, ilustra a capa dessa matéria. Já teve Assim como Claude Cahun, ela questiona os padrões de feminilidade quando se monta como diferentes personagens. Satiriza personagens femininas clichês de Hollywood, da história da arte e, mais recentemente, figuras curiosas das ruas de Nova Iorque, na figura de mulheres riquíssimas.

Untitled #359, 2000, Farbfoto, Auflage 6, 76,2 x 50,8 cm Cindy Sherman Ausstellung im Martin-Gropius-Bau 15. Juni bis 17. September 2007

Francesca Woodman (1958 – 1981)

Francesca Woodman fotografava desde os 13 anos e se suicidou aos 22. Seus retratos são etéreos, simbolistas e claustrofóbicos. Seu corpo, muitas vezes borrado, se mistura ao fundo em preto e branco, de paredes descascadas. Woodman discute gênero e identidade e, por que não, sua própria tristeza.

Untitled 1975-80 Francesca Woodman 1958-1981 ARTIST ROOMS Acquired jointly with the National Galleries of Scotland through The d'Offay Donation with assistance from the National Heritage Memorial Fund and the Art Fund 2008 http://www.tate.org.uk/art/work/AR00359

Iiu Susiraja (1975 – )

A finlandesa Iiu Susiraja faz autorretratos cômicos que aborda questões como feminilidade, o corpo, tradições, estereótipos sociais e amor. Através do humor e do estranhamento, ela busca mostrar que o anormal, no caso, o corpo de uma mulher gorda, pode ser normal.

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Nona Faustine (década de 70 – )

Nona Faustine usa seu corpo gordo, negro e nu para questionar racismo e os rastros de escravidão nos Estados Unidos. Usando apenas scarpins brancos, que representam o patriarcado branco europeu, ela tira fotos de si mesma em pontos da cidade onde memórias da escravidão foram enterradas pelo asfalto, como no Brooklyn, onde passou a infância nos anos 70, e em Wall Street, onde havia um mercado de escravos no século XIX.

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Patrícia Araujo (1987 – )

Na arte contemporânea brasileira não tem tanto autorretrato e, sim, registros de arte performática. A cearaense Patrícia Araujo trabalha com instalações e performance, registrando-as em vídeo e fotografia. Ela investiga o corpo em situações limítrofes, de borda, e também usa sua obra para falar sobre política de gênero e intimidade.

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Sara Não Tem Nome (1992 – )

Apesar de atualmente estar mais focada na sua carreira musical, a mineira Sara Não Tem Nome é uma jovem expoente da arte contemporânea brasileira e registra suas performances através da fotografia, assim como Patrícia Araujo. Ela brinca com questões de gênero, sendo ela mesma bastante andrógina, e com a relação corpo-objeto.

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Hobbes Ginsberg (1994 – )

Hobbes Ginsberg tem 21 anos e mora em Los Angeles. Ela é uma artista não-binário que se identifica como mulher. Ginsberg já chama seus autorretratos, por mais profissionais que sejam, de selfies. Usa seu trabalho para discutir gênero, depressão, beleza e positividade. Diferentemente das duas fotógrafas anteriores, o trabalho de Hobbes surgiu na internet e faz parte do movimento contemporâneo que surgiu em mídias com o Tumblr para empoderar pessoas socialmente marginalizadas.

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Deborah Happ

Formada em Midialogia, pela Unicamp, com mestrado em Estética e História da Arte, pela USP. Faz umas artes quando dá, escreve por necessidade.