Entrevista exclusiva com Alison Bechdel

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Você já deve ter ouvido falar dela, talvez mais pelo Teste de Bechdel do que por seu trabalho como cartunista e roteirista. Mas Alison Bechdel é uma cartunista americana, uma das primeiras a publicar tirinhas lésbicas nos   EUA , tirinhas estas que foram consideradas tão importantes para as novas gerações de lésbicas quanto os livros de Rita Mae Brown e Lisa Alther.  No caso, as tirinhas eram a série Dykes To Watch Out For  que durou 25 anos  e narrava o dia a dia, com ênfase nos episódios políticos, intelectuais e amorosos, de uma gama bem diversificada de personagens, a maioria delas, mulheres lésbicas, de uma cidade americana de médio-porte. Suas tirinhas são consideradas a publicação LGBT mais longeva que se tem notícia e foi muito importante para o movimento, obrigatória para quem estuda sua origem e desdobramentos.

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Além das tirinhas, Alison também é a autora de dois quadrinhos autobiográficos que abordam igualmente o mundo LGBT, mas desta vez através dos dilemas de sua família. Fun Home – uma tragicomédia em família,  lançado em 2006 foi o grande marco na vida de Bechdel.  Ele foi apontado pela revista Time como o melhor livro daquele ano (única HQ a receber essa distinção) e foi finalista do National Book Critics Circle Award. Em 2007 também recebeu o Eisner Award, considerado o Oscar dos quadrinhos. Fun Home ainda ganhou uma adaptação musical na Broadway, por Lisa Kron e  Jeanine Tesori, que acabou recebendo cinco prêmios Tony, inclusive o de Melhor Musical de 2015.

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Seis anos depois de Fun Home, em 2012, a cartunista lançou uma nova graphic novel, Você é minha mãe? Um drama em quadrinhos (no original, Are you my mother? A Comic Drama) também de teor autobiográfico, que trata de sua relação com a mãe.

Bechdel também é a co-criadora do Teste de Bechdel, que avalia a representatividade feminina em produções cinematográficas. Em 2014,  foi agraciada com o “Genius” Award”, pelo Instituto McArthur, por conta do teste que mudou a maneira como vemos os filmes.

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O MinasNerds teve a honra de entrevistar esse ícone dos quadrinhos e saber um pouco mais sobre sua carreira e história.

MinasNerds- Bem, a maioria das pessoas já conhece seu trabalho como ilustradora/cartunista e roteirista de HQS, vou pular essa introdução. Você poderia nos contar então, quais foram as principais dificuldades que encontrou no começo de carreira? Ser uma mulher, lésbica, foi um empecilho? Como foi processo para a publicação de sua primeira tirinha, Dykes to Watch Out For, de 1983, foi o jornal que te procurou ou o contrário?

Alison Bechdel – De um modo geral, ninguém deu espaço para o meu trabalho. Eu e minhas amigas sabíamos que não conseguiríamos publicar nossas perspectivas feministas em nenhum veículo da época, então acabamos indo para Nova York e fazendo nosso próprio jornal, quase um fanzine. Éramos todas voluntárias e publicávamos mensalmente, com nosso dinheiro. Eu desenhava minhas tirinhas por hobby e mostrava para minhas amigas, e um dia uma delas me perguntou se eu gostaria de inclui-las no coletivo feminista que tínhamos e por acaso publicá-los no jornal. Então aconteceu e o jornal começou a publicar minhas tirinhas mensalmente. Ninguém vai dar espaço pra você publicar seu trabalho. Você tem que fazer acontecer.

MN – O movimento LGBT alcançou muita visibilidade, realizações e cresceu muito desde os anos 80. Como você o enxerga hoje? Qual a direção que você acha que deveria tomar? Estamos deixando algum assunto importantíssimo de lado?

AB-  O movimento LGBT se transformou e alcançou feitos muito maiores do que pensei que fosse alcançar, quando eu era jovem. Ainda quase não consigo acreditar que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é legal, por exemplo. O movimento teve altos e baixos e criou diversas ramificações ao longo dos anos. Quando eu era mais jovem, era um movimento muito radical, era muito mais interessado em abolir o casamento como instituição no geral, do que em legalizar o casamento gay. Portanto, a coisa toda mudou e se tornou muito mais sobre aceitação da nação queer pela sociedade, com um foco maior na legalização de seus relacionamentos e militância do que abolir instituições. Talvez tenha sido frustrante para a ala mais radical do movimento, mas as consequências disso aplanaram caminhos para que muitas pessoas se assumissem. O que realmente mudou tudo. Ficou muito mais fácil se reconhecer gay ou lésbica hoje em dia, mas isso não significa que a batalha tenha terminado. A nova fronteira são os direitos dos transexuais.

MN- Como manter a representatividade lésbica sem reforçar a construção social em torno dela?

AB- Bem, acredito que apenas contando nossas experiências talvez seja a melhor estratégia. Tento não sair muito disso, sobre minha vida queer, e tento detalhá-la ao máximo para passar essa vivência às pessoas, mostrar que somos reais e normais, o máximo possível.

MN- Você fala bastante de si em suas obras, bastante de sua vida privada, já se sentiu exposta alguma vez? Como se dá o processo de escrever sobre si mesma? É tão fácil quanto desenhar? (ou nenhum dos dois é/foi fácil)?

AB- Olhando para trás, analisando algumas coisas que escrevi e desenhei sobre minha vida, me sinto um pouco exposta, sim. Mas se tratava de algo que eu simplesmente precisava  fazer. Quando jovem eu aprendi o mote feminista  “o pessoal é político”, e eu o levei muito a sério. Eu podia ver que minha vida privada, com todos os seus caminhos e problemas, fazia parte de um sistema muito maior de poder.  Acabei descobrindo a relação entre uma realidade política muito maior e minha vida privada e sua realidade íntima e foi muito, muito libertador.

MN – O que você pretende quando escreve ou desenha? Por que o faz? Para quem? Quais são suas principais motivações e intenções?

AB- Quando desenhava Dykes To Watch Out For,  estava consciente de estar escrevendo para um público de pessoas como eu e me esforçando para refletir suas opiniões e preocupações com precisão. Mas agora que eu estou fazendo um trabalho mais autobiográfico, eu sinto que o público que mais precisa ser convencido e interessado sou eu mesma. Eu só estou tentando descobrir a minha própria vida.

MN- Você menciona muitas pessoas em suas obras: amigos próximos, analistas, namoradas, família. Alguém já ficou chateado ou bravo por ter sido exposto/citado? Você costuma mostrar antes para eles? Qual o tipo de feedback que você tem, tanto dos citados quanto do público em geral?

AB- Tento mostrar tudo o que escrevo, sobre meus amigos e familiares, para eles antes. Primeiro converso com eles sobre a situação que vou retratar, mostro sketches e rascunhos, deixo-os revisar o que estou fazendo. Também ofereço a opção de mudar o nome, se assim preferirem, mas geralmente eles não me pedem pra fazer isso, não. O feedback é bem positivo em todos os casos.

MN- Vamos falar do teste Bechdel! Creio que talvez a maioria das pessoas te conhece mais por ter criado o teste do que por seu trabalho como cartunista. Por que o criou e como? Você achou que ele fosse ter a projeção que que tem hoje?

AB – Bem, tecnicamente não fui eu quem o criou. Em primeiro lugar, a ideia central nem foi minha. Roubei de uma amiga. Foi mais ou menos em 1985, quando comecei como cartunista e minha amiga Liz começou a me contar sobre regras que tinha se auto-imposto para assistir a filmes uma delas era: Eles deveriam ter pelo menos duas mulheres e ambas precisavam conversar sobre outros assuntos que não só homens. Eu achei aquilo hilário, porque, pensando bem, era realmente impossível encontrar um filme que cumprisse aqueles critérios. Naquele tempo, me lembro que o único filme que se encaixou no teste foi ALIEN, porque havia duas mulheres nele e elas conversavam entre entre si sobre o monstro.
De qualquer forma, a tirinha na qual expressei a ideia ficou esquecida por décadas até que jovens cineastas feministas surgiram, começaram a produzir filmes e usar tais critérios como uma forma real de avaliar como as mulheres eram representadas nos filmes, isso no começo dos anos 2000. Eu não tive muita participação na criação da coisa toda, mas no final fui beneficiada por ela, por ter meu nome ligado ao teste. É realmente engraçado saber que isso se tornou grande e é, de fato, mais conhecido do que meu trabalho.

MN- Você pode nos dar exemplos, na cultura pop de filmes que passam no teste?

AB- Quer saber uma coisa triste? Eu não assisto muitos filmes! Mas no site http://bechdeltest.com (que alguém genial criou, não fui eu) temos ótimos exemplos. As pessoas se logam, aplicam o teste a filmes recém-lançados e debatem sobre eles terem sido aprovados ou não, algumas discussões são incríveis.

O novo Caça-Fantasmas passa, com certeza, até porque as protagonistas são mulheres, por exemplo. Mas passar no teste não significa que o filme seja ou não, bom – eu não gostei de Caça-Fantasmas…

Eu amo os filmes do Homem de Ferro. O primeiro não passou, mas o segundo e o terceiro sim! É um progresso!

MN – Você conhece o trabalho de alguma ou algum quadrinista brasileiro/a? Alguma mulher ou do meio LGBT? E você gostaria de vir ao Brasil, para alguma comic con?

AB- Olha, eu amo muito o trabalho de Fábio Moon e Gabriel Bá, eu amei Daytripper, é bem meu estilo. Mas infelizmente não conheço o trabalho de quadrinistas brasileiras nem de artistas do meio LGBT. E sim, adoraria participar de alguma comic con por aí, eventualmente.

MN -Alguma mensagem para as mina nerds brasileiras e minas quadrinistas em geral?

AB- Sejam verdadeiras em tudo o que fizerem. E NÃO PAREM DE DESENHAR!

 

*(agradecimentos a Beliza Buzollo por algumas perguntas sobre representatividade lésbica)

 

 


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Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina Criadora do MinasNerds.