O papel dos coletivos na luta pela visibilidade feminina

Com um ano em atividade, as Minas Nerds têm muito o que comemorar e eu sinto orgulho em fazer parte disso e poder compartilhar com vocês os motivos que fazem desta iniciativa um dos grupos mais relevantes na luta por visibilidade das mulheres no universo nerd, que em menos de um ano já conta com cerca de 4.000  mulheres que discutem o dia inteiro sobre cultura pop em seu grupo fechado, um volume estrondoso de visitas em seu site e mais de 23k de curtidas na fan page de Facebook, totalmente orgânicas.

Isso sem falar de sua presença fora do âmbito digital, em eventos, Comic Cons, palestras em escolas, universidades, festivais literários, promovendo cursos, marcando presença  na grande mídia, realizando projetos educacionais no Terceiro Setor, parcerias com editoras e outros sites e lojas do segmento, entre outros planos em andamento.

Para entender a importância dos coletivos femininos é preciso que eu contextualize sua existência: Jesus Martin-Barbero (2003), importante semiólogo da área da Comunicação, afirma que o final dos anos 60 revelou a “irrupção de uma enzima marginal”, composta por negros, mulheres, loucos, homossexuais… e que trazia à tona sua conflitividade ao promover a crise de uma concepção de cultura que era incapaz de dar conta dos movimentos sociais e de suas transformações. Ou seja: aqueles que não se viam representados nas produções culturais e que se sentiam excluídos socialmente, começavam a se unir para que suas vozes fossem ouvidas.

No entanto, nenhum advento foi tão significativo para a ascensão de certos grupos como a internet. Estudiosos como Manuel Castells se dedicam a pesquisar os efeitos e as implicações das mobilizações feitas a partir das redes sociais. Em seu livro Sociedade em Rede, Castells analisa acontecimentos como a Primavera Árabe e outras manifestações que tiveram como principal veículo de comunicação as redes como o Facebook.

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Slide da minha pesquisa sobre coletivos femininos

Sendo assim, não é possível ignorar que a onipresença das mediações digitais permeia nossas relações e dita novos padrões de comportamentos, ainda quem nem todas as pessoas estejam online. Prova disso é um estudo realizado pela National Academy os Sciences of the United States of America sobre o contágio de emoções em escala massiva manipulado através das redes sociais. O experimento com o Facebook comprovou que estados de humor podem ser transferidos aos outros via contágio emocional, levando as pessoas a experimentarem as mesmas emoções sem terem consciência disso, evidenciando que o contágio emocional ocorre sem que haja interação direta entre os envolvidos e mesmo diante da completa ausência de marcas verbais.

Se, por um lado, a imprensa apaga dizeres sobre o feminismo e evidencia discursos patriarcalistas, as redes sociais virtuais constituem-se, então, como um espaço de confronto a esses discursos hegemônicos. A popularização da internet contribuiu para fazer circular massivamente discursos de valorização do feminismo. (LIMA, 2013, p. 1)

Bom, tendo estabelecido que as redes sociais têm um alcance inimaginável até uns anos atrás e que movimentos femininos têm conseguido se expressar por meio delas, por que os coletivos exclusivos ainda seriam necessários? Porque infelizmente, não só as redes sociais não têm se mostrado seguras para que as mulheres se expressem, como fora dela o espaço conquistado ainda não reflete a igualdade de gêneros que tanto buscamos.

Porém, só temos noção do tamanho do problema quando começamos a ouvir os depoimentos e a conviver com as mulheres que costumam ser mais afetadas pela violência, negligência e apagamento causados pelo machismo que afeta nossa sociedade em todos os âmbitos.

Desde agosto de 2015 quando participei de um encontro com a quadrinista Trina Robbins, promovido pela Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial (de qual faço parte), comecei a ter noção do tipo de assédio e problemas que as mulheres que produzem quadrinhos sofrem. Infelizmente, os depoimentos compartilhados pelas artistas presentes no evento, não eram diferentes do que Trina havia passado nos anos 70, ou seja, muito pouco mudou de lá pra cá.

Então, quando tomei conhecimento do Minas Nerds e do grupo fechado exclusivo para mulheres, comecei a acompanhar o trabalho da iniciativa, cujas ações vão desde publicar textos voltados para o público feminino, como promover encontros presenciais para debates, cursos profissionalizantes, bate-papos, etc… Tudo com o objetivo de aumentar a visibilidade das mulheres no universo pop e de lhes assegurar ambientes seguros para que possam se expressar.

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Cartilha da Defensoria pública realizada em parceria com Minas Nerds http://www.defensoria.sp.def.br/dpesp/repositorio/0/documentos/ccsai/OqueeCyberbullying.pdf

 

Grupos e páginas mistas, salvo raras exceções, costumam ser ambientes nos quais que somos atacadas pelo simples fato de nos manifestarmos. Cosplayers e gamers sofrem assédio e violência tão frequentemente, que muitas vezes preferem se calar ou não se expor para não ter que lidar com esses problemas, que vão desde xingamentos, difamação, montagem de fotos e vazamento nas redes, cartões de crédito hackeados,  perseguição inbox ou mesmo presencialmente nos eventos e até em suas casas, como foi o caso da repórter Ana Freitas, do Brasil Post.

Essas atitudes, somadas a uma cultura que nos diminui desde o momento em que nascemos ajuda a perpetuar estigmas, opressões e traumas que são extremamente nocivos à nossa autoestima, fazendo com que muitas mulheres optem por não participar mais de eventos ou grupos e abandonem seus hobbies.

Nesse sentido, o papel dos coletivos femininos é fundamental para que as mulheres saibam que não estão sozinhas e possam se fortalecer e lutar contra problemas comuns como machismo, assédio, não reconhecimento ou boicote de seus trabalhos, preconceito, falta de oportunidades igualitárias, entre outros…

Portanto, até que os números de produções femininas e masculinas sejam equivalentes, a realização de eventos, oficinas e cursos que visem profissionalizar e divulgar os trabalhos das artistas bem como a criação de redes e publicações exclusivas, estão entre as soluções viáveis para a diminuição da desigualdade de gêneros no universo nerd, afinal, ainda que o reconhecimento possa vir apenas das pessoas de um mesmo gênero, não alterando talvez o status quo, sem a realização de tais ações exclusivamente femininas que propiciam resultados práticos significativos no que tange os direitos das mulheres e sua visibilidade no universo da cultura pop, é que não conseguiremos avançar em nossas demandas.

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Mesa redonda sobre a Mulher-Maravilha

 

Referências:
CASTELLS, Manuel. Redes de Indignação e Esperanças. Rio de Janeiro: Zahar, 2013

LIMA, Quézia dos Santos. Blogueiras feministas e o discurso de divulgação do feminismo no ciberespaço. In: Seminário de estudos em análise do discurso. Rio Grande do Sul. Estudos em Análise do Discurso. Rio Grande do Sul: Instituto de Letras, 2013.  Disponível em: <http://www.ufrgs.br/analisedodiscurso/anaisdosead/6SEAD/SIMPOSIOS/BlogueirasFeministasEODiscurso.pdf>

MARTIN-BARBERO, Jesús Martin. Dos Meios às Mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2003.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.