Studio Seasons fala com o MinasNerds!

Hoje é aniversário do Minas Nerds. E aqui no Anime/Mangá o nosso “Omedetou/Parabéns” vem com uma super entrevista com as artistas do Studio Seasons. Em 2016, elas comemoram 20 anos de estrada no mundo do mangá autoral. O grupo tem uma trajetória incrível no mercado brasileiro e recebe o carinho do público em eventos e encontros.

As mulheres que formam o Studio Seasons dividem seu dia entre suas produções e sua vida profissional em outros setores e comprovam que o que faz a diferença para um artista é a sua vontade e energia para correr atrás e estudar sempre. Elas não economizaram nos detalhes em cada resposta e nossa entrevista completa, você confere agora.

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Entrevista

MINAS NERDS – Como vocês se conheceram e como o grupo se reuniu? Quantas mulheres fazem parte dele?

STUDIO SEASONS – Nós nos conhecemos numa série de cursos e eventos organizados pela ABRADEMI, em São Paulo, em meados dos anos 90. Inicialmente, o grupo era maior e misto, mas com o tempo só ficaram quatro mulheres. Em 1996, nós fundamos oficialmente o Studio Seasons do qual fazem parte Márcia Hajime/Maruchan (colaboradora), Montserrat (roteirista, escritora, desenhista e colorista), Simone Beatriz (desenhista, colorista e web designer) e Sylvia Feer (desenhista e colorista).

MN – Vocês trabalham apenas para o Studio Seasons? Como é o dia a dia de cada uma?

SS – Não. O Studio Seasons é um projeto pessoal a parte. Temos nossas profissões. Trabalhamos diariamente e nos horários vagos e folgas nos dedicamos aos projetos do nosso estúdio, quando podemos. Montserrat trabalha em uma biblioteca, Simone trabalha com design gráfico, Sylvia é professora. Márcia mora no Japão e atualmente, só acompanha nosso trabalho, mas seu lugar de honra no grupo é garantido. ^_^

MN – Vocês realizam trabalhos para os mercados nacional e internacional? Como é realizada a avaliação desses pedidos? Passa pelo Studio sempre?

SS – Nós já fizemos trabalhos para os dois mercados, mas a avaliação varia. Quando é um projeto do Studio Seasons, passa pelo nosso crivo, mas Simone e Sylvia fazem vários freelas para o exterior também. Nesse caso, é o crivo pessoal delas que conta. No do Studio nós levamos várias coisas em conta, como o tipo de proposta da obra, pagamento e histórico do pessoal que nos contata. Geralmente, quando o pessoal nos contata aqui no Brasil, vem por nos conhecer pelo trabalho que já fizemos como grupo.transformers-sylvia-feer

MN – Quais projetos as artistas ou o Studio Seasons estão envolvidos neste momento?

SS – Do nosso estúdio temos dois projetos mais imediatos que é 7 Dias em Alesh e Oiran, mas estamos tendo de organizar questões financeiras e isso faz com que tenhamos de focar um pouco fora deles, atrasando-os. Tem outro trabalho em que estamos envolvidas, mas não podemos falar ainda sobre. Ideias nossas mesmo temos muitas, mas tudo tem de ficar na fila das possibilidades. rsrsr

Trajetória

MN – Como foi (e é) a trajetória de estudos de cada uma em suas áreas de atuação?

Montserrat: No meu caso eu sempre desenhei e escrevi de forma autodidata. Só fui aprimorando com o tempo e buscando material para me informar. Lendo livros técnicos, estudando estilos, maneiras de narrar e, no caso dos roteiros, sempre lendo muito material diverso pra ter ideias e atiçar a criatividade. Na parte de desenho foi muito estudo também e treino diário.

Simone: Completamente autodidata, rsrsrs! Porque já tentei fazer alguns cursos e eles acrescentaram em quase nada. Inclusive já tinha escutado de um professor de web-design que ele não formava concorrência. Então, parei de sofrer e procurei aprender o que queria por mim mesma! \o  Isso funciona até hoje. Quero fazer determinada coisa? Corro atrás para saber como se faz. A internet tá recheada de tutoriais sobre tudo, é só saber procurar e querer procurar.

Sylvia: Tenho formação didata em relação a desenho e pintura. Sempre desenhei desde criança e muitas vezes fora da folha de papel (na parte de baixo das mesas, da minha cama, nas paredes… XD ) Sou formada em design gráfico pela PUC-RJ mas dei aulas de desenho, pintura e quadrinhos por muitos anos em ateliês e escolas de arte no Rio e em Niterói. Descobri que gosto mais de dar aulas do que ser designer, então fiz um curso de licenciatura e hoje leciono e faço trabalhos freelancers de ilustrações e quadrinhos.

voguel-montserratMN – Quais artistas foram marcantes para cada uma em sua formação e aperfeiçoamento?

Montserrat: Nossa, tanta gente! Não tenho como dizer só alguns, porque leio muito e sempre observei muitos artistas. Em literatura eu gosto muito de scifi, fantasia e romance histórico. Aprecio bastante literatura europeia/americana do século XIX, mas tem muita coisa da literatura oriental e do oriente médio que me influencia. Em arte eu gosto muito de Gaudí, Mucha, arte orgânica em geral, mas também aprecio arte antiga da África, oriente médio e euroasiática, o panorama é muito amplo! Desenhistas: Range Murata, Meruhenmeka, Clamp, JET, You Shiina e Hiroaki Samura são alguns dos quais gosto bastante.

Simone: A primeira vez que vi um mangá foi a Mai, a Garota Sensitiva, então Ryoichi Ikegami foi fundamental para meu traço ir para esse lado oriental dos quadrinhos. Hoje em dia, busco orientação em traços como o da Kaoru Mori, Nanpei Yamada, Motoka Murakami e mangás com desenhos bem detalhados.

Sylvia: Eu comecei com quadrinhos europeus e ilustradores de fantasia e ficção científica. Moebius, Bilal, Harold Foster, Jeff Easley, Larry Elmore, Frank Frazetta, Hajime Sorayama, Alex Milne, Sarah Stone… são alguns. Mais tarde mergulhei no mundo do mangá e admiro muito o trabalho de Kaoru Mori, Nobuhiro Watsuki, Tsukasa Hojo, entre outros.

Escolhas e decisões

MN – Como foi o processo de escolha do estilo de cada uma? Como separar a escolha pessoal de algo voltado para o comercial? É possível fazer essa separação?

jean-grey-simone-beatriz2Montserrat: Foi um processo gradativo, sempre testando estilos. Quando vi a estética do mangá, me encantei e percebi que era isso que eu estava procurando o tempo todo. A questão de fazer escolhas entre pessoal e comercial é algo muito particular. Vai depender de um artista para o outro. Tem gente que faz o que lhe pedem, sem questionar. Pra mim sempre será uma escolha pessoal porque não faço um trabalho que não posso imprimir minha marca e deixar ali um pouco daquilo que acredito. No entanto não tem como julgar de primeira quem pega um trabalho pra fazer que possa ser polêmico, de algum modo, já que o inverso também ocorre. Quanta gente faz trabalhos bons e depois têm atitudes pessoais polêmicas? É fácil correr para julgar, difícil é entender o todo envolvido.

Simone: Embora lesse muitos quadrinhos ocidentais, sabia que meu traço não era para aquilo. Eu vi animes antigos e isso influenciou bastante na escolha do traço. Geralmente, clientes me procuram porque querem algo voltado para o mangá, e é isso que posso oferecer com know-how, mas já peguei encomendas que tinham uma pegada mais cartoon e até comics, e foi tranquilo.

Sylvia: Comecei com um estilo bem voltado para cartoon, passei por um estilo mais europeu e fiquei um tempo fazendo o estilo comics (este, eu nunca me senti muito à vontade fazendo), até que descobri os mangás, numa ida a um workshop em São Paulo. O estilo possuía tudo que eu gostava e o adotei para meus trabalhos. Hoje pego serviços em estilos diferentes sem problemas. Adoro poder variar um pouco. Cada um tem características bem específicas de traçado e arte-final, dá pra separar bem.

MN – Entre as decisões pessoais e coletivas, vocês poderiam pontuar o que determinou seus melhores e piores momentos neste mercado (se possível)?

SS – Felizmente, tivemos muitos melhores momentos. rsrsrsr Acho que os piores momentos são quando pessoas tentam nos desacreditar, não porque isso nos afete, mas pela feiura dessas atitudes. Já vimos gente da área falando mal de nós, leitores extremistas falando bobagens só por destilar raiva… já até nos chamaram de feias! rsrsr Enfim, você pode ser denegrido de várias maneiras, das mais sutis até as mais bobas! Acredite, você lê e ouve muita coisa em 20 anos. Acho que um pior momento marcante foi quando lançamos inicialmente Oiran e Alesh: a editora afundou na sequência e se omitiu de dar explicações ao público. Nós tivemos de fazer isso. Foi chato porque o material vendeu bem e foi a administração ruim que impossibilitou o prosseguimento dos projetos. Mas hoje, como estivemos mexendo nas histórias, a gente até agradece o imprevisto. rsrsrsr Pôxa, melhor momento é sempre o público receptivo dando feedback e colegas de trabalho te apoiando. No FIQ 2015 foi lindo ver as pessoas nos procurando, querendo nos ver pessoalmente, abraçar. Nada substitui isso!

Publicações e redes sociais

MN – Como podemos adquirir suas obras publicadas?

SS – Zucker e Helena estão a venda no site da NewPOP e em lojas especializadas. Mitsar e Os 50 Avistamentos do Grande Fofinho estão à venda na lojinha online do Studio Seasons. http://www.loja.studioseasons.com.br

MN – O Studio Seasons possui obras online (periódicas ou já finalizadas)?

SS – Nós possuímos algumas histórias no nosso site oficial, mas são apenas amostras. Nós optamos por produzir material mais focado para impressão direta pela questão de disponibilidade de tempo. Não temos como manter publicações periódicas.

alesh-sylvia-feerMN – Como podemos acompanhar cada artista do Studio? Quais as redes sociais ou plataformas online (Behance, Deviantart, etc.) que podemos segui-las?

SS – Todas temos pontos de contato:

Montserrat:
Facebook https://www.facebook.com/montserrat.montse.773

Devianart http://montserrat.deviantart.com/

Twitter https://twitter.com/Montserrat_

Simone:
Facebook: https://www.facebook.com/sissi.bia

Twitter: https://twitter.com/simone_beatriz

ArtStation: https://simonebeatriz.artstation.com

Sylvia:
Facebook: https://www.facebook.com/sylvia.feer

Twitter: https://twitter.com/sylviafeer

ArtStation: https://sylvia_feer.artstation.com/

SS – Além disso, temos a página oficial do Studio Seasons onde existem links para nossas outras mídias: http://www.studio.seasons.nom.br/

Dicas para novas artistas

MN – O que uma garota deve priorizar para iniciar seu caminho no desenho e/ou no roteiro?

SS – O mesmo que qualquer artista: técnica, conteúdo e estilo. Não existe uma regra diferente para meninas ou meninos. Isso é importante dizer: os passos são os mesmos. O que ocorre é que sempre haverá uma cobrança maior em cima das mulheres por elas estarem tomando o terreno com maior força e voz nestes tempos. O importante é sua obra ter substância. E importante: representatividade é bom, mas conquistem os temas, ousem os assuntos! Vejo muito material com perfil autobiográfico. Isso é legal, mas precisamos ir além e criar universos, realidades onde todos terem espaço é normal. Explorar a criatividade para além do universo particular é vital para as artistas serem reconhecidas também. Façam como a Enterprise: sigam audaciosamente onde ninguém jamais esteve… ou onde só um grupo está! Ocupem temas, situações! Falem de tudo!giovana-montserrat

MN – O que uma garota deve fugir no processo de aprendizagem ou na formação de networking? (como enviar o próprio e-mail para que uma editora ou até mesmo vocês analisem o trabalho dela, por exemplo)

SS – Uma única coisa: gente nociva. rsrsrsr Evitem a todo custo pessoas invejosas e com comentários ácidos. Isso é totalmente desnecessário. Existe uma diferença entre uma avaliação neutra e um comentário maldoso. Se a pessoa já te julgar sem consultá-la com perguntas básicas sobre seu trabalho, não é um bom começo. Networking é muito importante, mas certifique-se de ter na sua rede pessoas com diversas experiências, e uma dica: nem todas precisam concordar com você o tempo todo, mas precisam te respeitar como pessoa. Enviar um trabalho para uma editora exige uma pequena pesquisa prévia. Verifique se a editora tem interesse no seu tipo de material ou projeto. Envie amostras de arte, sequência de quadrinhos, não o roteiro. Ninguém vai ler. rsrsrsr Apenas envie sinopses para os avaliadores poderem se inteirar do projeto. Tenha em mente o tamanho da obra e prazos. Editores podem perguntar isso de primeira, ou serem flexíveis.

MN – Uma frase que define cada uma de vocês ou suas trajetórias.

Montserrat: Para mim, sempre uma palavra: caleidoscópio. ^_^

Simone: Mais do que os olhos podem ver. =D

Sylvia: Que cada dia seja um novo dia, com novas possibilidades, novas experiências e novos aprendizados.

 

Imagens: acervo Studio Seasons


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