Mulher-Maravilha é ícone feminista sim! Entenda.

Então? A Mulher-Maravilha é um ÍCONE feminista? Definitivamente, SIM!

Ela sempre foi uma personagem representativa do ponto de vista feminino? Infelizmente, NÃO.

Bom, é preciso entender o que é um ícone e no que essa afirmação difere de ser de fato uma feminista. De acordo com o dicionário Priberam, entre 4 possíveis significados estão: Signo que tem uma relação de semelhança com aquilo que está a representar; Figura SIMBÓLICA representativa de algo.

Por mais vagas que possam parecer, as definições indicam que um ícone é, acima de tudo, uma representação simbólica de algo que guarda semelhanças com a realidade. Já falamos algumas vezes sobre questões de representatividade e porque é importante que a cultura pop ofereça narrativas diversas que se conectem com realidades de seres humanos diferentes.

WW ajudando a libertar mulheres Vietnamitas em Liga da Justiça New Frontier
WW ajudando a libertar mulheres Vietnamitas em Liga da Justiça New Frontier

Para entender melhor as relações sobre quadrinhos, iconografia e simbologia, conversei com o prof. Dr. Iuri Reblin, que se tornou uma referência em estudos de super-heróis e teologia. Sua tese de doutorado intitulada O alienígena e o menino foi ganhadora do prêmio Capes de melhor tese no ano de sua publicação, em 2013. Sobre a importância dos super-heróis na sociedade, Iuri afirma o seguinte:

Enquanto bens culturais, os super-heróis e as super-heroínas são fornecedores e fornecedoras de sentido. Traduzem um conjunto de valores que são expressos em suas falas e em suas ações. As histórias das personagens da superaventura têm ocupado, frequentemente, o lugar que outras narrativas ocuparam (e ainda ocupam) em nossas vidas, como as sagas bíblicas, os mitos, as histórias de ficção, as estórias e os causos que nossos avôs, nossas avós partilharam, no sentido de fornecer exemplos de atitudes, de ideais a serem almejados, influenciando na construção de identidade, no senso de coletividade e na percepção de mundo. Claro que, se considerarmos essas histórias como produto de massa vinculado a uma indústria cultural e todas as implicações correlacionadas, esses exemplos de atitudes e ideais podem ser questionados e avaliados criticamente. No entanto, isso não muda o fato de que os super-heróis e as super-heroínas hoje têm se tornado modelos de comportamento e expressão de nossos ideais e visões da realidade. Seu papel consiste em ser simultaneamente uma válvula de escape e um símbolo ora mais, ora menos difuso que pode orientar nosso caminhar. ”

Ajudando a libertar mulheres no oriente médio em N52
Ajudando a libertar mulheres no oriente médio em N52

Por isso, ao responder o que é um ícone da cultura pop, Iuri explicou que os ícones possuem poder de influência que é mensurado pelos valores compartilhados e por sua presença em espaços de comunicação e socialização e cujas relações, quando bem aceitas pela sociedade, seriam capazes de representar ideais que se tornam também símbolos de poder.

Diana nunca se assumiu abertamente feminista, até porque de onde ela vem, este conceito sequer existe. Ela pode ser assumidamente qualquer coisa de acordo com as intenções do roteirista que a escreve, no entanto, lembrando mais uma vez que histórias em quadrinhos são um produto de uma cultura de massa inseridas em um contexto capitalista, a tendência é que a personagem feminina de maior alcance dos quadrinhos mantenha certa coerência com as demandas do público feminino.

Já nas histórias iniciais, concebidas por William Moulton, Diana tinha um discurso de não submissão aos homens, lembrando constantemente que nenhuma mulher deveria se sentir inferior ou se submeter às vontades masculinas. Esta seria a primeira e mais remota identificação com o discurso feminista de igualdade de gêneros, se não fosse o fato de sua criação estar diretamente ligada ao movimento sufragista entre os anos 10 e 20.

WW se recusando a se submeter às imposições sociais nas primeiras histórias
WW se recusando a se submeter às imposições sociais nas primeiras histórias

De acordo com a pesquisadora Jill Lepore, em seu livro The Secret History of Wonder Woman, sem o feminismo nossa heroína sequer existiria, pois foi depois de ter conhecido o movimento sufragista que Moulton desistiu de se matar. Posteriormente, após suas experiências com o polígrafo, também de sua criação, constatou que as mulheres eram emocionalmente superiores aos homens, por mentirem menos, por isso, seriam capazes de articular melhores diálogos em prol de um bem comum.

Ou seja, a Mulher-Maravilha não surge de uma concepção de igualdade entre os gêneros, mas de superioridade, o que estaria em discordância com o feminismo, claro. Ainda assim, no decorrer dos seus 75 anos e tendo passado pelas mãos de inúmeros desenhistas e roteiristas, algumas de suas características principais como a busca pela paz e pela justiça e o fato de não precisar ser salva por um herói, sendo capaz de tomar suas decisões baseadas em suas próprias convicções, geraram identificações por parte de grandes feministas como Gloria Steinem.

Capa da Ms Magazine
Capa da Ms Magazine

Steinem não só escreveu artigos sobre o impacto que a Mulher-Maravilha teve em sua vida, como a colocou na capa da primeira publicação feminista americana, a Ms. Magazine, com os dizeres: Mulher-Maravilha para presidente!

Esse mesmo impacto, reconhecido por outras autoras feministas e explorado à exaustão em artigos acadêmicos e livros publicados no mundo todo, reforçam a ideia de que entre os papéis da ficção está o de nos ajudar a lidar com questões reais: “o que a Mulher-Maravilha faria? ”

Lilian Robinson em seu livro Wonder Woman: Feminisms and superheroes, também narra um episódio de superação em que teria se inspirado na personagem para conseguir se erguer depois de uma queda em sua banheira, quando teria fraturado o joelho, fazendo uma alusão ao poder das narrativas em nossas vidas cotidianas.

Questionando Etta e Trevor sobre as mulheres se colocarem como inferiores no mundo dos homens na animação de 2009
Questionando Etta e Trevor sobre as mulheres se colocarem como inferiores no mundo dos homens na animação de 2009

Artistas que foram responsáveis pela amazona  relatam como ela transformou suas vidas: Gail Simone diz que a Mulher-Maravilha significa basicamente tudo para ela e Trina Robbins atribui a ela seu interesse pelo feminismo.

Então, se na soma de suas falas a Mulher-Maravilha não reflete grande parte do discurso feminista, sua escolha como um ícone pouco tem a ver com isso, na verdade. Toda simbologia ligada à personagem está ligada à forma e à intensidade com que mulheres no mundo todo se sentem empoderadas por suas ações. Este fato foi preponderante em sua escolha como embaixadora do empoderamento feminino pela ONU, que quando da sua nomeação afirmou que a luta pela justiça e pela manutenção da paz representadas na figura da princesa amazona ajudará a organização a focar suas campanhas em 5 pontos específicos:

  • Denunciar discriminações contra mulheres e meninas
  • Se aliar a outras pessoas contra violências e abusos de gênero
  • Apoiar efetivamente e totalmente a participação e as oportunidades para as mulheres em papéis de liderança em todas as esferas, incluindo locais de trabalho
  • Garantir que todas as mulheres e meninas tenham acesso à educação de qualidade
  • Compartilhar exemplos de mulheres reais que fazem a diferença todos os dias.

O empoderamento está relacionado não só a fazer com que mulheres se sintam tão capazes quanto os homens para exercer determinadas funções e ocupar certos espaços: ações de empoderamento visam sobretudo fazer com que as mulheres entendam que merecem tanto quanto qualquer pessoa exercer tais funções e ocupar tais espaços.

 

Nesse sentido, ao escolher uma personagem cujo alcance é imensurável, a ONU reafirma a posição de uma mulher, ainda que fictícia, como um símbolo na luta contra as desigualdades de gênero no mundo todo e o que seria mais feminista que a luta pela igualdade de gêneros?

Apesar de milhares de estudos e publicações reforçarem que a figura da Mulher-Maravilha como um ícone feminista, é preciso ter claro em mente que isso não significa que ela seja uma, ao menos até que um roteirista faça tal afirmação, como foi o caso de sua bissexualidade atestada por Greg Rucka. De qualquer forma, essa escolha feita por feministas e endossada por mulheres no mundo todo, não deixa dúvidas que a identificação é muito maior que qualquer teoria que tente desmerecer seu título, portanto, é bem possível que seu posicionamento como uma personagem assumidamente feminista nos quadrinhos mainstream venha em breve, selando de uma vez por todas essa discussão e norteando suas futuras histórias.

Na cerimônia em comemoração ao dia da Mulher-Maravilha na sede da ONU

Sobre o significado dessa escolha, Iuri Reblin me enviou um lindo tratado que tento resumir aqui:

Escolher a Mulher Maravilha como um ícone significa assumir um símbolo de poder num exercício de empoderamento. A Mulher-Maravilha é um símbolo de poder, de poder da mulher. Mesmo que haja uma ambiguidade e, inclusive, uma contrariedade nos enfoques em quase 80 anos de histórias (isto é, nem sempre as histórias da Mulher-Maravilha foram pró-libertação das mulheres, reproduzindo, não raras vezes, clichês patriarcais, sobretudo, pelo fato de essas histórias serem escritas por homens imersos em uma sociedade patriarcal) há certas convenções primárias em torno do mitema de suas histórias que perduram ao longo dos anos, de modo que, dentro dessa ambiguidade, seja possível identificar e reconhecer a Mulher-Maravilha como símbolo de poder da mulher.

Escolher a Mulher-Maravilha como um ícone significa construir uma representatividade pública e cultural. Isso significa que, em termos quantitativos, as mulheres sempre foram coadjuvantes nas histórias ou dependentes de narrativas masculinas. Nessa direção, essa representatividade significa uma reivindicação de protagonismo, assumir as rédeas da história e ser sua protagonista, considerando igualmente o impacto que uma personagem como a Mulher-Maravilha possui na vida social cotidiana e no imaginário comum.

Escolher a Mulher-Maravilha como um ícone significa assumir um norteador na construção de identidade de adolescentes (meninas e também meninos) e mulheres, como uma alternativa a Barbie e as Princesas da Disney. À medida que o papel da Mulher-Maravilha como ícone nítido da luta de mulheres se torna mais claro publicamente, e os novos enredos de suas histórias assumem esse papel, há uma diversificação entre os modelos identitários existentes e até mesmo uma tensão entre eles.

Escolher a Mulher-Maravilha como um ícone significa assumir valores específicos como Verdade, Justiça e Igualdade, que estão articulados e intrinsecamente vinculados aos anseios de uma transformação social, cultural e política. A premissa do mito da Mulher-Maravilha remete a uma heroína estranha ao mundo (ela vem de fora) que enxerga a violência machista e se propõe a desconstrui-la, lutando por uma nova ordem social. Esse movimento está intimamente relacionado à luta por direitos de igualdade. Sua principal arma é a Verdade, representada por um laço. Isto é, a verdade é uma ferramenta indelével de sua luta pela igualdade.

Escolher a Mulher-Maravilha como um ícone não significa (ou não deve significar) ignorar que o movimento feminista é plural e que vai se permanecer crítico também em relação à Mulher Maravilha. Na perspectiva de Heleieth Saffioti, em seu texto “Ontogênese e filogênese do gênero: ordem patriarcal de gênero e a violência”, a complexidade do feminismo abrange a desconstrução de estruturas racistas, classistas, de opressão, de exploração que vão identificar também as limitações da Mulher-Maravilha. Sem a diversidade e a pluralidade, há o silenciamento de experiências e identidades. Nessa direção, penso que a luta vai ser para que a Mulher-Maravilha não seja um ícone domesticado dentro da lógica hegemônica constituída. O que quero dizer é: Nem todas as mulheres se sentem (e não precisam se sentir) representadas pela Mulher-Maravilha. O movimento feminista é plural e contestador e sua luta política vai além da tensão entre igualdade entre homens e mulheres, ou, melhor dizendo, a luta pela igualdade entre homens e mulheres vai além do binômio, envolvendo outras esferas e outros conflitos sociais.

 

Arte de Lucas Werneck em apoio à Chelsea Cain http://lukaswerneck.tumblr.com/
Arte de Lucas Werneck em apoio à Chelsea Cain
http://lukaswerneck.tumblr.com/

Consultoria da mina nerd Rachel Asakawa que é nossa especialista em Wonder Woman. (obrigada!)

Referências:

LEPORE, Jill. The Secret History Of Wonder Woman. 2014

ROBINSON, Lilian. Wonder Woman: Feminisms and Superheroes. 2004

 

http://www.un.org/apps/news/story.asp?NewsID=55367#.WBJEMvorLIU

http://www.themarysue.com/wonder-woman-and-feminism/

http://www.npr.org/sections/goatsandsoda/2016/10/20/498569053/is-wonder-woman-suited-to-be-a-u-n-ambassador

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.