Não quero um amor como o de Romeu e Julieta

Quando se pensa em amor romântico, uma das primeiras coisas que vêm à mente é Romeu e Julieta. Em todos os lugares que olhamos, todos dizem que eles são o casal ideal. Perguntam quem é nosso Romeu ou sugerem que devemos procurar um. Mas e se alguém te dissesse que não, você não quer um amor como o de Romeu e Julieta, e que essa peça não é sobre amor, mas sim sobre o egoísmo?

Este artigo é o primeiro que não é uma resenha na coluna de teatro, e começamos falando da peça que é provavelmente a mais famosa do mundo. Vamos tratar do contexto histórico do período em que ela foi criada e do que está nela escrito para criar uma nova compreensão sobre o texto.

A trágica história de Romeu e Julieta

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Capa da segunda publicação feita de Romeu e Julieta

A história do amor trágico de Romeu e Julieta é remanescente de muitas outras, como Píramo e Tisbe, contada por Ovídio em Metamorfoses, e Tristão e Isolda, uma lenda medieval da Grã-Bretanha.

William Painter, em 1567, lançou uma coletânea de noveletas italianas que fez muito sucesso. Embarcando nesse sucesso, William Shakespeare escreveu várias peças baseadas nas noveletas com a intenção de chamar mais público. Algumas das mais famosas foram O Mercador de Veneza, Muito Barulho por NadaRomeu e Julieta.

O ano exato em que a peça foi escrita não é claro, mas existem alguns indícios que apontam para o período entre 1591 e 1596, sendo que a primeira publicação foi em 1597 — considerada uma edição porca, recontada por um ou dois atores, em vez do texto integral escrito pelo dramaturgo.

A Europa do final do século XVI e Shakespeare

Ilustração usada em Romeu e Julieta no livro de E. Nesbit
Pintura de John H. F. Bacon

As peças escritas nessa época dialogavam com muito do que se lia das tragédias gregas, uma continuação da arte renascentista, na qual havia uma retomada de muitos preceitos clássicos somados ao pensamento da época, um pensamento focado no ser humano como o centro das coisas.

A Inglaterra passava por um período de ouro. As primeiras peças de Shakespeare destacavam os feitos heroicos dos reis ingleses como grandes conquistadores. Quando começou a escrever as tragédias, ele manteve o ideal grego dos personagens nobres e do sofrimento desmedido — o eu exacerbado que era a causa da tragédia.

Havia uma clara mudança da visão da ideia do grupo para a ideia do indivíduo, e ela foi trabalhada por Shakespeare a ponto de alguns estudiosos acreditarem que o Homem, tal como conhecemos hoje, é fruto dos trabalhos shakespearianos. Harold Bloom, em seu livro O cânone Ocidental (Editora Objetiva, 2010), analisa a ficção ocidental moderna com Shakespeare como ponto de partida.

A peça

Romeu e Julieta (filme de 1968)
Paramount Pictures

Romeu e Julieta é o raro tipo de peça que todo mundo conhece, todo mundo já parodiou e todo mundo cita fora de contexto. Mas, na verdade, poucas pessoas leram o texto integral. Muito do que se conhece é por causa das reproduções da peça. Por exemplo, a fala que geralmente atribuímos a Romeu, “uma rosa, se chamada por qualquer outro nome, ainda teria o mesmo cheiro doce” (em tradução livre), foi na verdade dita por Julieta no Ato II, Cena 2.

A história toda se passa no período de três dias e os personagens são muito jovens: Julieta tem 13 anos, e Romeu tem 17. Deveria ser apenas uma história de romance adolescente, visceral e rápido, mas que deixa suas marcas. No entanto, ela acaba tomando proporções absurdas por uma série de razões.

No Ato I, Cena I, a situação é completamente apresentada: o coro entra e conta sobre duas famílias que se odeiam há muito tempo, e que a morte de dois jovens vai finalmente pôr um fim nisso. Entram os atores, dois servos, um Montéquio e um Capuleto, e eles brigam. A peça enfatiza a briga expondo-a no palco, e então, ainda na mesma cena, entra Romeu junto de Benvólio.

Romeu está irremediavelmente apaixonado, irremediavelmente sofrendo por amar Rosalina. Uma curiosidade é que geralmente cortam por completo essa cena quando vão encenar a peça, mas ela é de extrema importância para a compreensão do todo. Romeu já está apaixonado e sofrendo, e nem conheceu Julieta ainda.

Julieta aparece pela primeira vez na Cena III, ainda do Ato I, e apresenta a situação do seu lado. Aos treze anos, sua mãe lhe dá um ultimato: está na idade de começar a pensar em casamento. Ou ela se apaixona ou os pais escolherão alguém para ela, e eles já têm um pretendente.

Quando Julieta e Romeu se conhecem, durante uma festa em que ele entra de penetra para ver Rosalina, apaixonam-se à primeira vista. Ele é do tipo que ama amar, enquanto ela vê nele uma esperança de se casar por amor, e não com um desconhecido.

O que acontece a seguir é uma série de individualidades que se contrapõem.

O Frei Lourenço, que serve quase como uma balança entre as ordens do Príncipe e os desejos dos amantes, no fim acredita que ele, sozinho, vai resolver a situação de Verona e a briga das famílias. Em um determinado momento, chega a dizer que vai lutar pelo que é de Romeu no lugar dele (Ato III, Cena III). As famílias são irredutíveis na inimizade por um motivo que nem elas parecem lembrar ao certo. E a Ama, apesar de chegar a contestar o amor que a jovem sente, obedece a Julieta e guarda segredo em vez de contar tudo à mãe da menina logo de cara, depois que Romeu mata Teobaldo, um Capuleto.

Apesar da ideia da adolescência ser um conceito moderno, os protagonistas são retratados como muito jovens e bastante ingênuos, e é essa ingenuidade, essa vontade de ficar juntos e de se casar de um jeito bem princesa da Disney (te conheci hoje e nós vamos nos casar) que mostra sua imaturidade. Os casamentos arranjados aconteciam com uma velocidade bem assustadora, mas os casamentos por amor eram acompanhados de um certo tempo no qual o casal se conhecia.

Quando o Frei Lourenço não compartilha com Romeu os planos que Julieta fez de fingir a própria morte para poder fugir com o namorado, ele leva à tragédia final. Acreditava que todos pensavam como ele e estavam compreendendo aonde ia seu plano de juntar as famílias. Shakespeare é conhecido por seus quiproquós, mal-entendidos que levam a ações cômicas; nesse caso, por se tratar de uma tragédia, é um mal-entendido que leva ao trágico, é algo que deixa de se entender por conta da pressa desmedida do “eu” que citei no começo. A vontade pessoal é tão forte e tão maior que o resto, que atropela as ações.

No conto original, o Frei é banido e vira um eremita, enquanto a Ama é condenada à morte por ter auxiliado os amantes em seus planos. Na peça, quando as famílias resolvem não mais brigar no final, não é porque “o amor vence tudo”, mas sim porque “se não fôssemos irredutíveis, nada disso teria acontecido”. Seis pessoas não teriam morrido, incluindo os dois adolescentes.

As palavras finais da peça são do Príncipe Escala: “Nunca houve uma história de tanta tristeza como essa de Julieta e o seu Romeu” (em tradução livre). Elas indicam que não devemos “morrer de amores” com os dois, mas sim nos condoer da desgraça que se deu por falta de comunicação. Devemos compaixão e assim trazer uma moral ao fim, um desejo de que uma situação como aquela não se repita.

Romeu e Julieta, por fim, não é um amor para se repetir. Romeu e Julieta é um amor para fazer refletir, avaliar a situação e não agir como eles ou como os outros personagens da peça. Você não quer um amor como o de Romeu e Julieta. Nem Shakespeare queria.


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