Dois títulos que repensam o papel dos heróis

O Universo Marvel passou por um novo cisma com os eventos apresentados em Guerra Civil II. Dessa vez os heróis se enfrentaram em times opostos para decidir se os poderes do inumano Ulysses, capaz de prever e impedir crimes antes que esses aconteçam, devem ser usados para parar vilões que nem mesmo sabem que o são.
Como resultado direto desse conflito, dois novos títulos entraram no mercado americano nas últimas semanas e prometem trazer mudanças na forma de agir dos super-heróis.


Não tem a ver com super vilões

 

champions_2_preview_1

O primeiro dos títulos anunciados é Champions escrito pelo premiado roteirista Mark Waid (Reino do Amanhã, LdJ: Torre de Babel) e ilustrado por Humberto Ramos que já havia feito parceria com Waid em outros trabalhos, como a série do jovem velocista Impulso da DC Comics.

O novo grupo adolescente se une através do sentimento de descontentamento com o papel dos super-heróis e seu impacto nas vidas das pessoas comuns.

Kamala Khan, a Miss Marvel, deixa de lado seu papel de fangirl dos Vingadores ao perceber que os heróis se afastaram demais das necessidades dos cidadãos comuns e parecem pouco se importar com a trilha de destruição que deixam para trás ao terminar seu nobre dever de combater o mal. Pensando nisso, Kamala deixa os Vingadores e retoma contato com dois antigos companheiros, os também dissidentes Nova (Sam Alexander) e Homem-Aranha (Miles Morales).

champions_3_cover-300x460Juntos eles decidem fazer a diferença no mundo, combatendo a injustiça em um plano mais humano, visando se tornarem a inspiração que os Vingadores falharam em prover para as pessoas, o fato de escolherem um nome para a equipe sem qualquer ligação com os Vingadores mostra como estão determinados a trilhar um caminho diferente. Logo juntam-se a eles o gênio milionário Amadeus Cho no papel do Hulk, Viv Vision, a sintozóide filha do Visão e o jovem Ciclope, uma versão adolescente de Scott Summers, que, como visto no arco de Vingadores vs. X-Men (2013) tornou-se um homem odiado e considerado um vilão por muitos no universo 616 até a sua morte alguns arcos adiante.

Apesar de jovens, esses heróis possuem o currículo de veteranos que passam por invasões Chitauri, traições e a perda de pessoas queridas por eles. O novo título vai abordar temas como racismo, a crise de refugiados, guerra e corrupção, assim como o papel dos adolescentes na solução dessas crises. O título não podia ter vindo em um momento mais propício quando jovens  ao redor de todo o mundo tomam as rédeas das lutas pelo fim de sistemas injustos e buscam mudança através de suas vozes. Ainda assim, a série possui a delicadeza e descontração  que costumam acompanhar histórias de grupos jovens, lembrando muito as primeiras fases dos X-Men, Os Jovens Titãs e até mesmo Os Fugitivos com bastante foco no crescimento dos personagens e suas descobertas.. O traço estilizado de Ramos ajuda muito nesse sentido e com certeza pode atrair a atenção de leitores mais novos, o que vem se mostrando um desafio para as editoras.

Os outros 99%

 

14937006_10206984974451738_1528179147_nO segundo título lançado pela Marvel é Occupy Avengers  que assim como Champions procura se afastar das tramas intergaláticas e da briga entre super seres para se focar nos problemas enfrentados no dia a dia por muitas pessoas e que recebem pouca atenção dos super-heróis. 

O título lembra um pouco a fase emblemática de Dennis O’Neil e Neal Adams em Lanterna Verde e Arqueiro Verde, da DC que abordou os problemas sociais na década de 70.

O viajante da vez é o Gavião Arqueiro, que após grandes acontecimentos mostrados em Guerra Civil II #3 decidiu mudar o foco de sua atuação como herói e visitar lugares afastados onde dificilmente um super herói pisaria. O primeiro volume mostra o homem de mira infalível chegando a uma pequena cidade do Novo México  para descobrir que as reservas de água foram contaminadas por resíduos tóxicos de uma grande indústria.

O diferencial dessa série, escrita por David Walker (Deadpool) com arte de Carlos Pacheco (Crise Final, A era de Ultron) é a presença de cidadãos comuns que buscam a parceria de heróis para resolver o problema COM eles e não PARA eles. Assim como a série Luke Cage da Netflix, Occupy Avengers aproxima o herói da vida comum e de problemas que envolvem muito mais do que máscaras, super-vilões e entidades cósmicas.

14971402_10206984974331735_1596828268_n

A palavra Occupy no título refere-se aos movimentos sociais que ganharam repercussão há alguns anos como forma de protesto contra sistemas considerados injustos e responsáveis pela desigualdade de direitos e ao desequilíbrio social, o mesmo se mostra na HQ com o Gavião Arqueiro tentando redescobrir o papel dos super heróis na sociedade, assim como reavaliar o conceito de justiça presente entre os seus companheiros que prontamente o absolveram por um ato que até ele tem dificuldade de entender e perdoar, por isso ele se une ao Lobo Vermelho e a uma tribo indígena local para investigar o problema do vazamento tóxico e trazer os culpados à justiça.

De acordo com Walker, usar acontecimentos políticos em uma história em quadrinhos gera uma oportunidade única para desenvolver personagens que de outra forma seriam apenas cascas vazias espancando vilões. É importante lembrar que a política sempre foi uma parte importante dos quadrinhos e sempre refletiu as lutas sociais que acontecem fora delas.


A nova fase chega ao Brasil em 2017.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.