Entrevista: Janayna P. Bianchi

Foto da escritora Janayna P. Bianchi sorrindo.
Janayna P. Bianchi.

Janayna P. Bianchi é uma escritora nascida em Campinas. Formada em engenharia de alimentos, trabalha como engenheira de processos industriais, é colaboradora do Clube de Autores de Fantasia e do Pacotão Literário, e humana de estimação da Pipoca e da Paçoca. Também é a criadora da Galeria Creta, onde diversos mitos se encontram com o mundo real, criando um universo de fantasia urbana. Lançou a novela Lobo de Rua de forma independente em 2015, custeando a produção com verba própria e recebendo muitas resenhas positivas em sites como Skoob e Goodreads. De lá para cá, publicou o e-book Sombras na Amazon e o conto Analogia na revista Trasgo, e está participando da antologia ainda não publicada Contos de Taverna, com o conto Redenção. Seus devaneios, textões e fotos de filhotes podem ser apreciados aqui e aqui.

Nesta entrevista, Janayna conversou com o MinasNerds sobre a Galeria Creta, autopublicação, colaboração entre escritores independentes, representatividade feminina e muito mais. Rola a barra!

Janayna, em primeiro lugar, obrigada por aceitar bater um papo com o MinasNerds! Por favor, comece contando um pouco sobre o universo da Galeria Creta e como você o criou.

Oi, pessoal! Eu que agradeço o convite. Amo o MinasNerds! e tudo o que esse projeto significa, então estou me sentindo uma diva por falar aqui! <3

Bom, o universo da Galeria Creta surgiu do meu desejo de ler mais fantasia urbana ambientada no Brasil. Especificamente em São Paulo, cidade que amo. Moro no interior, a 100km da capital, mas a família do meu pai é da Lapa e passei muitos e muitos fins de semana da minha infância — e da minha vida adulta, agora — na cidade, que acho totalmente incrível pelo fato de que, nela, TUDO pode acontecer. Sempre fui uma leitora assídua de fantasia, desde criancinha, e em um determinado momento comecei a perceber que gostava muito mais de fantasia urbana do que fantasia épica — isso quando tinha meus 12, 13 anos e nem sabia dar nome aos bois. Aos poucos, fui percebendo que gostava mais de História Sem Fim, Fronteiras do Universo e Harry Potter do que Senhor dos Anéis e Eragon. Depois descobri Neil Gaiman e essa divisão em subgêneros se fez clara na minha cabeça, o que me permitiu procurar ativamente mais livros do gênero. Sempre gostei de coisas ambientadas aqui, em cenários que reconheço, então não demorei pra começar a procurar fantasia urbana brasileira/ambientada no Brasil, o que me levou até as maravilhosas obras do Eric Novello e algumas coisas do André Vianco. Foi quando percebi quantas oportunidades incríveis existiam em um cenário como SP. Aí tive a ideia de um lugar nos submundos da cidade onde a realização de qualquer desejo estaria sempre em estoque, onde escambos esquisitos pudessem ser feitos entre pessoas e criaturas sobrenaturais — uma mistura de Beco Diagonal com Galeria Pagé. Como imaginei esse lugar meio labiríntico, me veio à cabeça que o gerente seria conhecido como Minotauro. A princípio ele seria um homem meio misterioso, apenas, mas depois pensei: “Por que não um demônio da encruzilhada que possui o cadáver de uma pessoa com a cabeça de um touro costurada no pescoço, não é mesmo?”. E assim a Galeria Creta nasceu, devidamente gerenciada pelo Minotauro, mas ainda sem nenhuma história pra preenchê-la.

Sempre fui leitora assídua de fantasia. Comecei a perceber que gostava muito mais de fantasia urbana do que fantasia épica.

capa do livro Lobo de Rua, de Janayna P. Bianchi. Mostra a silhueta de um menino colada à sombra de um lobisomem.
Capa de Lobo de Rua, primeiro livro publicado de Janayna P. Bianchi.

Numa entrevista ao site Ficções Humanas, você se descreve como “uma escritora iniciante que começou do nada em 2014”. O que a levou a começar? Quando decidiu que estava pronta para publicar?

Eu sempre escrevi, tenho aqui alguns textinhos que escrevia desde os meus 7 anos (e já eram de fantasia). Mas foi em 2014 que comecei a encarar a escrita como algo que poderia dar frutos, e não só uma brincadeirinha, então acho mais certo usar esse marco. Essa virada aconteceu em 2014 porque tinha me formado na faculdade meses antes e, como estagiava de dia e estudava à noite, foi só depois da formatura que comecei a ter porções decentes de tempo pra me dedicar à escrita com mais seriedade. Comecei escrevendo contos aleatórios enquanto planejar meu primeiro romance no universo da Galeria. Aí entrei no Clube de Autores de Fantasia, em busca de uma comunidade de outros autores iniciantes com os quais pudesse conversar, e surgiu a ideia de cada um de nós escrever um conto ou novela nos respectivos universos pra fazermos um primeiro intercâmbio de produções. Resolvi escrever sobre lobisomens, minha criatura preferida da mitologia clássica, e o primeiro rascunho de Lobo de Rua surgiu. A novela começou a ter um bom retorno do pessoal do CAF. Isso foi o que me fez pensar que talvez estivesse pronta para publicar na Amazon. Hoje sei que Lobo de Rua tem vários defeitinhos, mas fico feliz por ter dado esse passo e colocado o meu primeiro texto no mundo. Muitas coisas legais aconteceram depois disso.

Tive a ideia de um lugar nos submundos de São Paulo onde escambos esquisitos podem ser feitos entre pessoas e criaturas sobrenaturais — uma mistura de Beco Diagonal com Galeria Pagé.

Hoje fala-se muito da publicação independente versus a publicação por editoras tradicionais. Por que decidiu pela autopublicação? Repetiria a experiência?

A escolha foi meio natural, na verdade. Quando o pessoal do CAF (especialmente a Paola Siviero, minha grande amiga da vida real, hoje) começou a propor que eu publicasse Lobo de Rua, nem sequer pensei na publicação tradicional. Primeiro porque eu achava que não havia espaço nas editoras para publicações tão curtinhas, como as novelas (e depois descobri que não tem tanto espaço mesmo, mas, sim, ele existe), e segundo porque minha ideia era publicar só pros meus amigos próximos, familiares e colegas escritores. Aí pesquisei as plataformas existentes e optei pelo programa KDP da Amazon, que é descomplicado e gratuito. Depois, quando achei que seria interessante ter uma versão física, pesquisei um pouco e descobri que poderia publicar de três maneiras: através de alguma vanity press (editoras que cobram pela publicação), através de plataformas de venda de livros por demanda ou por publicação totalmente independente. Descobri essa última no Catarse, especificamente através do projeto do Lauro Kociuba (A Liga dos Artesãos). Meu lado engenheiro foi à loucura com a possibilidade de entender, participar e tomar decisões em cada fase da produção do livro, que descobri ser enorme e mais complexa do que aparenta. Como a tiragem foi pequena e o livro também é bem curtinho, fiz as contas e decidi bancar a produção do meu bolso (em vez de fazer um financiamento coletivo, por exemplo). E eu repetiria a experiência, sim, porque particularmente acho delicioso pegar o livro na mão e dizer “fui eu que fiz”, mesmo sendo MEGAtrabalhoso — não só fazer o livro, mas principalmente divulgar e distribuir depois, sem o apoio de uma editora. Também recomendo a experiência sempre que posso. Na época eu nem fazia ideia, mas hoje vejo que Lobo de Rua me serviu como um cartão de visita. Além disso, hoje entendo melhor o mercado porque passei por todas as dificuldades de tirar um projeto no papel. Minha única ressalva quando recomendo a autopublicação é sobre a qualidade do texto. Justamente por ele ser um texto que vai apresentar (e representar) sua obra, não é legal publicar seu texto de qualquer maneira, sem uma revisão legal ou mesmo sem leituras críticas, edição, copidesque, uma capa feita por um profissional. O autor já dedicou um monte de tempo e esforço à pesquisa e à escrita da obra, seria uma pena publicá-la com qualidade a desejar porque não entendeu a verdadeira importância dos serviços editoriais, né?

Meu lado engenheiro foi à loucura com a possibilidade de participar de cada fase da produção do livro, que descobri ser enorme e mais complexa do que aparenta. Hoje entendo melhor o mercado porque passei por todas as dificuldades de tirar um projeto no papel.

Você menciona com frequência o CAF (Clube dos Autores de Fantasia) como um grupo de escritores que se incentivam e se ajudam. Considera importante os autores se envolverem com o trabalho uns dos outros?

Com certeza! Na verdade, pertencer a uma comunidade de escritores é uma das coisas que eu julgo mais importantes pra um autor iniciante. Uma pelo networking — é naturalmente muito difícil navegar no mercado literário brasileiro sendo um peixinho pequeno, então é importantíssimo se juntar a outros peixinhos e formar um cardume. E outra porque eu acho que ter contato com textos de outros autores iniciantes é uma das coisas mais saudáveis que existem. É como você descobre que seu texto não é o pior do mundo, mas também não é o melhor do mundo, então você precisa continuar trabalhando, mas não deve deixar a peteca cair. Fora que é quase um grupo de apoio! É muito bom ver “gente como a gente” se dando bem, subindo na carreira degrau a degrau, com muito trabalho e esforço. Pelo menos pra mim, essas pílulas de coisas boas acontecendo com as pessoas ao meu redor servem de incentivo diário pra escrita.

lobinho-1

Soube que Lobo de Rua será relançado pela editora Dame Blanche. Parabéns! O que podemos esperar da nova edição? Mais importante: o que você espera dessa parceria?

SIM! A versão da Dame — a princípio, em e-book — sai em breve, muito em breve! A nova edição vai ter uma nova capa (feita pela maravilhosa da Marina Ávila, aliás), um começo novo e também umas surpresinhas em cada capítulo. Em termos práticos, o e-book também vai estar acessível em mais plataformas além da Amazon! E, dessa parceria, eu só espero coisas boas. Eu me apaixonei pela Dame Blanche imediatamente, foi amor à primeira vista. Afinal, ela vem com a proposta de ser uma editora tradicional, que trata o livro com o carinho que ele merece através de serviços editoriais de qualidade, que não cobra nada do autor nacional (pelo contrário, paga os direitos devidos, como deve ser) e que ainda valoriza pontos de vista diversos, autores diversos, histórias inclusivas e tudo mais — isso pra não falar que a Dame Blanche quer traduzir e trazer pro Brasil obras maravilhosas publicadas lá fora. Como não amar? Sem querer parecer megalomaníaca ou dramática demais, eu acho que a criação da Dame Blanche ainda vai ser considerada um marco na história do mercado de ficção especulativa no Brasil. Outras editoras, como a Nocaute, já estão surgindo com propostas similares. Editoras e projetos já existentes, como a Draco e a Revista Trasgo, estão ganhando mais reconhecimento. Eu realmente espero mais coisas boas acontecendo nos próximos meses e anos.

untitled-1Em seu perfil no Facebook você fala, entre outras coisas, sobre feminismo. As ideias feministas estão presentes na sua obra? Como escritora de ficção, pensa em trabalhar a representatividade feminina?

Muito legal essa pergunta, porque há tempos estou procurando a oportunidade de articular bonitinho esse pensamento sobre a mudança — ou melhor, a conscientização — enorme que aconteceu em mim entre 2014 e agora, 2016. Então, segura o textão! Haha… Bom, pensando em retrospecto, eu sempre fui feminista — felizmente, eu, minha irmã e minhas primas fomos criadas em um ambiente familiar EXTREMAMENTE saudável para meninas (e meninos, claro). Sempre ouvimos as histórias de como nossas avós eram maravilhosas e poderosas, de como nossa tia mais velha se opunha à ditadura militar enquanto estudava Economia na UNICAMP na década de 60, ou de como minha mãe dirigia o Fusquinha dela pela cidade na década de 80 e era conhecida por ser uma ótima motorista. Sempre ouvi das mulheres e dos homens da minha família que eu podia usar as roupas que bem entendesse, que podia ser escoteira junto com os meninos, que podia viajar sozinha, que podia ser mergulhadora, que podia fazer as tatuagens que quisesse, e que podia ser quem eu bem entendesse — de fato, foi natural querer me formar em engenharia (sem entrar no mérito de eu ter acertado nisso ou não, hahaha…). Mas, ao mesmo tempo, eu não tinha a consciência do que o feminismo realmente era — especialmente, o que ele significava para as outras mulheres do mundo, especialmente as mais vulneráveis. Outra coisa sobre a qual eu refletia pouquíssimo era a representatividade (não só da mulher, inclusive). Eu não me incomodava CONSCIENTEMENTE pelo fato de não ser representada na cultura nerd, por exemplo. Foi muito recentemente — ouso dizer que lá pra 2015 — que eu descobri que sim, eu me incomodava, e muito. De repente, fez todo o sentido eu amar tanto Fronteiras do Universo (que tem uma menina como protagonista), ter ficado tão apaixonada por Direitos Iguais, Rituais Iguais (um livro do Terry Pratchett que conta sobre uma menina xamã) e gostar mais da Hermione do que do Harry Potter. E, como disse, isso foi muito recente. Assim, por conta daquele modo automático em que funcionamos quando não pensamos muito sobre um assunto, tanto Lobo de Rua quanto o primeiro romance da Galeria têm homens como protagonistas e não tocam em questões feministas em momento algum. Quando me dei conta disso, percebi que precisava pensar melhor sobre meu papel como escritora. Precisava racionalizar o que ia colocar no papel, quem eu ia representar, que mensagem eu ia passar — em relação à questão do feminismo e tantas outras. O “problema” é que já tinha um universo iniciado — um em que apenas homens viram lobisomens, por exemplo —, então, tive que criar malabarismos pra ser mais diversa nesse universo (como em Sombras, que tem uma personagem mulher que eu amo de paixão). Em outros universos, no entanto, pude assumir esse meu desejo de escrever e criar mais mulheres, e hoje posso dizer que, mais do que simplesmente evitá-los, eu simplesmente não tenho vontade de escrever protagonistas homens (salvas raras exceções que envolvem personagens de Lobo de Rua e Sombras). Não é um desafio pra mim; na realidade, é extremamente libertador escrever sobre personagens que eu poderia ser, ou personagens inspiradas em mulheres maravilhosas que vivem ao meu redor. Então, resumindo o textão pra responder a pergunta: na minha obra publicada, o feminismo não está presente, o que é uma pena. Há outros tipos de representatividade, sim, mas não abordei questões feministas. Nas minhas obras em andamento e nas minhas ideias para obras futuras, porém, já há MUITO reflexo da minha opinião sobre quão importante o feminismo e a representatividade feminina são pra mim e pro mundo. (E falo um pouco mais disso na próxima questão!)

É extremamente libertador escrever sobre personagens que eu poderia ser, ou personagens inspiradas em mulheres maravilhosas que vivem ao meu redor.

Para finalizar: o que vem por aí? Por favor, fale um pouco de seus próximos projetos.

Um pouco por conta da minha questão anterior, acho legal “anunciar” aqui que meu primeiro romance da Galeria, aquele que surgiu antes mesmo de Lobo de Rua e que tem o Téo (que aparece em Lobo) como protagonista, está parcialmente pausado até eu entender exatamente o que me incomoda nele e o que eu posso fazer pra continuá-lo (ou dar um total reboot), de modo que eu fique totalmente satisfeita com a primeira história maior que quero contar nesse universo que tanto amo. Enquanto isso, estou trabalhando a todo vapor em uma novela em inglês com mitologia tupi que pretendo submeter ao edital mais recente da Tor. Se ela não for selecionada, vou traduzi-la para o português e publicá-la em algum canto, nos dois idiomas, porque curto muito a mensagem principal da história. Ainda este ano, escrevo mais um conto convidada pra uma revista, e “só”. Pros anos de 2017 e 2018, pretendo escrever — não necessariamente nessa ordem — uma ficção científica (protagonizada por uma moça de outro planeta que mal conheço e já considero pacas), um juvenil de fantasia urbana sobre magia e a amizade entre meninas e um romance fix-up sobre a vida pregressa do Tito, que é uma coisa que os leitores de Lobo pedem muito (e o Tito é um personagem que mora no meu coração). Devo, também, retrabalhar o tal primeiro romance da Galeria. Isso sem contar outras ficções curtas que, certamente, devo intercalar com esses três projetos maiores.  Ou seja, é coisa demais e tempo de menos! Hehe…


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Camila Fernandes

Escritora, tradutora, preparadora e revisora de textos. Feminista, vegetariana, ateia. Autora do livro “Reino das Névoas, contos de fadas para adultos”. Tentando escrever dois romances. Quando há tempo, desenho. Quando há dinheiro, viajo.