A realidade feminina na cultura pop

Estamos no ano de 2016, 53 anos após Betty Friedan lançar um livro que se tornou leitura obrigatória para mulheres, independentemente da opinião pessoal das mesmas sobre o movimento feminista. A Mística Feminina, se tornou instantaneamente um clássico e é considerado um dos principais influenciadores para o que hoje conhecemos como Segunda Onda Feminista, especialmente nos Estados Unidos da América.

E mesmo após toda a luta das feministas, pelo nosso direito de votar (Obrigada Sufragistas!), pelo direito de trabalharmos, de nos separarmos e escolhermos quando e se vamos ter filhos, algumas mulheres ainda decidem seguir o caminho de ser, como disse uma revista, Belas, Recatadas e do Lar. Mas afinal, existe algum problema nessa escolha? Queremos deixar claro que, na nossa opinião não existe nenhum problema em uma mulher ESCOLHER O CAMINHO QUE ELA QUER SEGUIR. Nós não estamos julgando a escolha de nenhuma mulher, afinal administrar uma casa não é um trabalho fácil e é raramente reconhecido.

Agora, vamos concordar que também não deveria existir problemas quanto a querermos ser astronautas, psicólogas, garis, dançarinas, jogadoras de futebol… A sociedade é que torna a escolha problemática quando ainda assume que ser dona de casa é um caminho lógico, óbvio e natural para todas as mulheres, da mesma forma que é um equívoco acreditar que também deva existir uma feminilidade e um instinto maternal inerente ao nosso gênero.

E quando não só uma mídia tendenciosa, resolve usar adjetivos assim para descrever uma mulher (Do Lar? Ainda por cima soa cafona), mas enxergamos esse retrocesso em toda uma camada social que vem ganhando voz e criando absurdos como, por exemplo, a Escola de Princesas? É importante lembrar que já vimos este filme antes e ele não tem um final feliz. Betty Friedan que o diga. Isso porque os dados coletados ao longo de sua extensa pesquisa, ainda que apenas nos E.U.A., nunca deixarão de ser relevantes para discutirmos nosso papel na sociedade. E por que não usarmos de exemplos acessíveis, como séries e filmes da nossa cultura pop, para debatermos inclusive o efeito dessa pressão na vida das mulheres?

hoover-48-swscan02994

Em A Mística Feminina, Betty analisa desde a pós crise da Bolsa de Valores de 1929, focando especialmente nas décadas de 1940 e 1950. Esse foi o período que o American Way of Life nasceu e onde os E.U.A. nunca estiveram tão ricos. É importante lembrar que na 2a Guerra Mundial os americanos estiveram pela primeira vez totalmente mobilizados, mandando muitos homens para o fronte de batalha, enquanto mulheres assumiam seus postos de trabalho.  Já era comum que algumas mulheres estudassem e, com a ida dos homens para a guerra, não era incomum que elas ocupassem diversos postos de trabalho: desde de dirigir caminhões ou trabalhar na construção civil. A própria atriz Marylin Monroe, foi descoberta trabalhando em uma fábrica em 1944.

No entanto, com o fim da Guerra e o retorno dos homens para os postos de trabalho, as mulheres não eram mais necessárias no mercado de trabalho. E como convencê-las que deveriam retornar ao lar, afinal, para cuidar da casa e das crianças, não é mesmo? A saída era vender sonhos, fazer com que a mulher então desejasse uma vida diferente.

Com o crescimento do mundo publicitário, extremante bem retratado na série Mad Men (Mad Men; Inventando Verdades, 2007-2015, E.U.A.), estava dada a partida para uma série de convicções que passariam a determinar o verdadeiro lugar da mulher. A invenção da televisão facilitou que a palavra se espalhasse mais rápido, e o rádio continuou sendo importante para levar mensagens a lugares mais distantes. De repente, em todas as revistas, propagandas e programas de TV, era vendida a ideia de que tudo que uma mulher poderia querer na vida era a tal da casinha no subúrbio, com cerquinhas brancas, um amplo quintal e todo tipo de utensílios modernos para facilitar sua vida e garantir que ainda tivesse disposição para agradar ao marido. Um verdadeiro sonho! #SQN

Bela, recatada e do lar....só que não!
Bela, recatada e do lar….só que não!

“Pesquisas” e “estudos” publicados em revistas de prestígio alertavam para os malefícios de uma mulher trabalhar fora. No máximo, poderiam ser recepcionistas ou secretárias, pois as outras opções deixavam a mulher masculinizada. Ou seja, o tal do backlash (retrocesso) que tanto falamos.

Porém, aquele sonho que era vendido em forma de um aspirador de pó de última geração não foi tão apreciado por todas aquelas mulheres que tinham experimentado uma vida produtiva e independente. Não só isso, de acordo com Friedan, o número de mulheres deprimidas ou que tentavam o suicídio aumentou assustadoramente. Os depoimentos coletados por ela demonstram claramente porque em meados dos anos 60 a segunda onda do feminismo parecia conter um grito de raiva que clamava por liberação sexual e igualdade de oportunidades profissionais. O documentário She’s beautiful when she’s angry  ilustra muito bem esse período.

A verdade é que apesar de teorias psicanalíticas mais modernas estarem surgindo, como o Behaviorismo, ainda existiam muitos médicos que preferiam se basear no “pai da psicanálise” Freud. Não era incomum, mulheres serem diagnosticadas como histéricas ao invés de deprimidas ou insatisfeitas com suas vidas. Para algumas era dito que elas tinham a famosa “inveja do pênis”, para outras, era prescrito eletrochoque e algumas começaram a tomar antidepressivos fortes, o que as anestesiava do mundo.

Uma série ambientada nos tempos atuais, mas que demonstra bem os problemas das mulheres de “cercas brancas” é Desperate Housewives (2004-2012, E.U.A.), onde cada uma das 5 protagonistas carrega um problema diferente. Mary Alice (Brenda Strong), a narradora da história, talvez a mulher mais perfeita do bairro, se suicida e na medida que os episódios são apresentados por ela, descobrimos que por trás dos cardigãs tons pastel, sua vida estava longe da perfeição. Lynette Scavo (Felicity Huffman) abre mão de seu trabalho em alto cargo executivo, para ser mãe em tempo integral de 4 filhos. E volta e meia, parece meio desconfortável em ter que abrir mão da sua carreira para que o seu marido se sinta mais seguro, por ser o “macho provedor” da casa. Gabrielle Solis (Eva Longoria), é a clara esposa troféu casada com um marido ciumento e  que muitas vezes a trata como uma mercadoria. Gabi, para se vingar, trai o marido da maneira que consegue, mas morre de medo de ser pega e expulsa pelo mesmo. Susan Mayer (Teri Hatcher) é o caso de “caridade” do grupo, divorciada, com uma filha, péssima cozinheira. Apesar de sua liberdade, Susan não é a pessoa mais amada da vizinhança, muita gente a culpa por ter perdido o marido justamente por não ser uma boa dona de casa. E, Bree Van de Kamp (Marcia Cross), dona de casa perfeita, casada com um médico, dois filhos e sempre com a aparência perfeita, talvez seja o maior exemplo do fracasso e da fragilidade que essa imagem representa: com uma casa sempre impecável e uma postura que indica muita retidão de caráter, ela é alcóolatra e esconde o caso de seu marido, a gravidez de sua filha, tudo para não deixar que os outros enxerguem a sua dura e feia realidade.

desperate_housewives_poster4

A refilmagem dirigida por Frank Oz de Mulheres Perfeitas (The Stepford Wives, 2004, E.U.A.) também não é diferente: a ilusão pode ser incrivelmente convincente, mas ainda assim, não passa de uma mentira encenada para agradar aos homens do lugar. A crítica contida nesse filme é feita de forma inteligente e divertida, refletindo um ideal impossível de ser alcançado, mas que ainda assim é desejado por quem se deixa enganar.

O original Esposas em Conflito (Stepford Wives, 1975, E.U.A), um filme difícil de encontrar para assistir e extremamente datado, é ainda um clássico baseado no livro que foi lançado aparentemente com dois nomes no Brasil As Possuídas e Mulheres Perfeitas (The Stepford Wifes, 1972, E.U.A) de Ira Levin. Essa é a versão sombria e pesada, cópia mais fiel ao livro. Joanna (Katharina Ross) é aqui colocada em xeque: o quanto, assim como tantas mulheres na vida real, ela é capaz de mudar sua própria essência para ser “feliz” no casamento e cuidar de seus filhos?

Disse Freud em O mal-estar da Cultura (Das Unbehagen in der Kultur, 1929 ): “o desenvolvimento individual nos parece um produto da interferência de duas aspirações: a aspiração por felicidade, que chamamos habitualmente de ‘egoísta’, e a aspiração pela união com os outros na comunidade, que chamamos de ‘altruísta‘”. Já que Freud explica, vamos  dizer que não explicou muito as mulheres com essa…

Mais recomendações de filmes e séries que retratam a realidade das mulheres : PanAm (Netflix), Masters of Sex (HBO), Mad Men (Netflix), Foi Apenas um Sonho (Revolutionary Road, 2008, E.UA.), Mulheres Perfeitas (The Stepford Wives, 2004, E.U.A.), Esposas em Conflito (Stepford Wives, 1975, E.U.A), Carol (2015, E.U.A.), O Sorriso de Monalisa (Mona Lisa Smile, 2003, E.U.A.)

3

 

A Mística Feminina vs A Realidade Feminina – Por Dani Marino e Silvia RC Almeida


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.