The Crown – Pesada é a cabeça de quem usa a coroa

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O fascínio do mundo  pela Rainha da Inglaterra. Quantos filmes já foram feitos sobre ela? Mais de vinte, o último data de  2006, no qual Helen Mirren interpretou magistralmente o papel de Elizabeth II em uma película dirigida por Stephen Frears e levou o Oscar de melhor atriz, inclusive.  

Sejam esses filmes sobre a rainha Elizabeth I, Victoria ou Elizabeth II é inegável: o cargo, o fato de ainda ser uma das únicas monarquias (inda que parlamentarista) do mundo, causa certo frisson, produz certa mística no inconsciente das pessoas, talvez pelo fato de personagens como reis, rainhas, princesas, fazerem parte de um ideário de contos de fadas que, de certo modo causa encantamento a todos nós, meros mortais plebeus.

É nesse deslumbramento, ou na missão de contradizê-lo, que a nova produção da Netflix, e da produtora Left Bank Pictures (Outlander, Wallander), The Crown, se baseia.

Criada e roteirizada pelo premiado Peter Morgan (O Último Rei da Escócia,Frost/Nixon e justamente o supracitado, A Rainha de Stephen Frears – o que revela uma certa paixão do roteirista  por personagens e personalidades políticas fortes) The Crown relata a vida de Elizabeth II a partir de seu casamento com Phillip, que virá a ser o Duque de Edimburgo, aos 21 anos, a morte de seu pai, o Rei George (aquele de O Discurso do Rei), docemente interpretado por Jared Harris e finalmente sua ascensão ao trono.

Mas, mais do que retratar o dia a dia dos monarcas, a introdução de uma mulher, jovem, em plena Inglaterra pós-guerra a um alto cargo político, um mundo altamente masculino, misógino, ríspido e implacável, The Crown pretende desmistificar a monarquia, demonstrando ao público que, muito mais do que poder, a coroa simboliza perda de liberdade, peso do dever, renúncia constante e austeridade.

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Com uma produção IMPECÁVEL, imagens incríveis da Inglaterra, de várias paisagens mundiais e do interior dos palácios de Buckingham e Balmoral, interpretações IRRETOCÁVEIS de Claire Foy como uma discreta, quase tímida e elegante Elizabeth, Matt Smith como um rabugento, mesquinho e melindroso Phillip e Jonh Lithgow como um GENIAL, ranzinza, sarcástico e teimoso Winston Churchill, The Crown chama  a atenção não só por conta de seus cenários admiráveis, seus figurinos encantadores e suas interpretações sublimes, mas pelos diálogos sofisticados e sutis, capazes de levar o expectador à subtramas mais intrincadas.

É flagrante a decadência, hipocrisia e afetação de toda instituição monárquica e política, mas creio que nem seja esse o foco central da trama, ela não tem um tom crítico e sim dramático e biográfico. The Crown  também é, especialmente, sobre o frágil ego masculino do homem do século XX.  Mas, seu ponto central é o close extremo, talvez o mais próximo retratado em live action até hoje, dos sentimentos da rainha.

O seu despreparo frente aos desafios de um cenário composto, em peso, por homens mais velhos, ególatras, machistas e corruptos, por uma família castradora, inflexível e fria, sua insegurança, medos, dilemas e renúncias, sua força, presença de espírito e seu amadurecimento como mulher e monarca: não se nasce mulher, torna-se. Não se nasce rainha, torna-se.  O espectador é levado a amar, odiar e ter dó de Elizabeth II, ela é vista, finalmente, como um ser humano e essa miríade de sentimentos, pedra fundamental de um bom drama, é um trunfo advindo de uma sintonia perfeita entre  roteiro e direção (a direção alterna entre Philip Martin, Benjamin Carron, Stephan Daldry  e Julian Jarrold) e é essa dramaticidade, que não cai jamais, na pieguice, é que faz de The Crown uma ótima série, digna do investimento de seu tempo.

John Lithgow como o então, primeiro-ministro, Winston Churchill
John Lithgow como o então, primeiro-ministro, Winston Churchill

Não podemos porém, deixar de fazer algumas críticas, afinal, se estamos analisando justamente uma série que desmascara o ascetismo da monarquia, devemos lembrar de que, o fato de tornarem a Rainha Elizabeth II mais humana, não extingue, de forma alguma seus erros.

Como bem sabemos, apesar da história não nos ter sido tão bem contada assim, a Inglaterra foi um império colonialista impiedoso. Massacrou milhares de indianos, africanos, norte-americanos, caribenhos, entre outros, ao redor do mundo, por muito anos, até meados do Séc XX.  Apesar do período retratado na série ser pós-guerra e pós-colonial, ainda assim, fica um ranço condescendente e racista pairando no ar. A série é extremamente BRANCA, inusitadamente, chegou a me incomodar.

Mas, vale a conferida, por motivos históricos e dramáticos, mas também por nos fazer lembrar do preciso ditado shakesperiano “Pesada é a cabeça de quem usa a coroa” – A liberdade é um bem de valor incomensurável e um sentimento completamente pessoal e intransferível e  não está, de modo algum, ligada a riquezas materiais ou associada a grilhões físicos. É uma questão de consciência.

 


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Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina Criadora do MinasNerds.