Evangelho de Sangue: mais gore e menos desenvolvimento de personagens

ecangelho-sangue-capaClive Barker está no honrado hall dos autores que conseguiram criar uma mitologia própria que virou referência para todo um gênero. É praticamente impossível enumerar os clássicos do terror e não citar seus cenobitas, sacerdotes infernais que extraem prazer da tortura e da mutilação extrema de humanos incautos que cometem o erro de invocá-los. Para a alegria dos fãs de seus vilões mais famosos, Clive Barker retornou aos romances, lançando Evangelho de Sangue mais de 10 anos após seu último livro no estilo.

Publicado em uma edição MARAVILHOSA pela Darkside Books, o livro é um objeto de desejo para as estantes dos fãs de horror. A capa coloca Pinhead, o cenobita mais famoso e temido, como uma imagem religiosa combinando com seu “evangelho”. A edição é em capa grossa, com muita qualidade de diagramação e impressão, e 360 páginas. A tradução de Alexandre Callari consegue preservar o efeito extremo que o gore de Barker provoca nos leitores, com suas descrições vívidas de torturas e desmembramentos que reviram o estômago. Mais um exemplo do carinho e cuidado que a Darkside tem com os fãs de horror.

Barker dá o que os fãs querem: Pinhead em sua melhor (e para suas vítimas, pior) forma. As primeiras páginas do livro já entregam uma sequência gore tão intensa que, pela primeira vez em minha trajetória de fã de horror, tive que parar a leitura em momentos nos quais simplesmente não consegui suportar a descrição dos assassinatos. Realmente, esse domínio do horror corporal é algo em que nenhum autor do gênero sequer se aproxima de Barker. Stephen King fala na introdução da edição americana de Storm of the Century que ele tenta primeiro assustar o leitor com o apelo psicológico, e usa o abjeto como último recurso. Barker joga o abjeto na sua cara sem nenhum preparo ou aviso.

Após Pinhead mostrar a que veio, somos apresentados ao protagonista Harry D’Amour (velho conhecido para os leitores dos Livros de Sangue), um típico detetive noir atormentado pelo seu passado. O investigador especializado em assuntos sobrenaturais, principalmente a caça aos demônios, acabou chamando a atenção do vilão com cara de pregos, que faz uma proposta irrecusável para D’Amour. Ele recusa, e Pinhead arrasta sua melhor amiga Norma para o Inferno para obrigá-lo a ceder. Apoiado por um grupo de paranormais intrometidos como ele, D’Amour resolve seguir o demônio para resgatar Norma.

A mitologia dos cenobitas é bem moralista e fácil de identificar com os valores cristãos: os demônios acabam punindo humanos luxuriosos, que desvendam a Configuração do Lamento esperando ser levados para um mundo de prazer sexual infinito. Em Hellraiser (também publicado pela Darkside Books), a história que apresenta os personagens, o vilão Frank e sua amante Julia acabam nas mãos do sacerdote por conta de seus desejos pecaminosos. Porém, Hellraiser tem uma certa ambiguidade moral que torna os cenobitas mais interessantes: eles genuinamente acreditam que o prazer é obtido pela dor e apenas concedem aquilo que os humanos buscam, seguindo regras próprias.

Eu, pessoalmente, os acho mais interessantes quando sabemos menos a respeito de sua ordem. A ignorância gera medo.

Em Evangelho de Sangue os cenobitas já aparecem plenamente inseridos no imaginário cristão, como uma ordem no Inferno bíblico. Isso causa um certo empobrecimento de Pinhead como personagem, que age o tempo todo como se fosse mau e ambicioso por ser… mau e ambicioso. Ele arquiteta um plano para dominar o Inferno e suas motivações para isso não ficam muito claras. Em alguns momentos,chega a parecer um vilão de desenho animado, maligno só porque sua função é ser assim. Nenhum personagem é muito aprofundado, mas Barker trabalha bem no limiar dos clichês e a trama acaba funcionando assim.

Um ponto positivo é a diversidade no grupo de D’Amour, acompanhado por um casal de gays e uma mulher que luta muito bem. Mas infelizmente Norma passa a maior parte da trama sendo brutalizada nas mãos de Pinhead, no modelo previsível da donzela em perigo. Outro ponto ruim é que acontece um estupro totalmente gratuito perto do final do livro. Felizmente, não é descrito pelo autor: sabemos dele através das palavras de outro personagem, que apenas o menciona brevemente sem tornar a violência sexual um recurso de horror fetichista. Isso, contudo, não torna a violação menos desnecessária para a narrativa.

Evangelho de Sangue vai agradar os fãs que querem ver gore e entender melhor o funcionamento da ordem dos cenobitas na hierarquia infernal. Eu gosto mais da caracterização moral dos personagens. Por isso, esse não é o meu livro preferido de Barker. Mas, para quem quer uma aventura de detetives com muito sangue, é sob medida. Ninguém faz sangue jorrar melhor que Clive Barker.


Serviço

Título: Evangelho de Sangue

Título original: The Scarlet Gospels

Autor: Clive Barker

Tradutor: Alexandre Callari

Editora: DarkSide

Número de páginas: 360


Este livro foi cedido pela editora para resenha.

Conheça a DarkSide Books: FacebookTwitterInstagramSite Oficial


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Beatriz Blanco

Designer, professora, gamer e pesquisadora. Fã da franquia The Legend of Zelda, histórias de terror, aliens e kaijus. Acorda e dorme online.