Como as mulheres estão mudando o mercado de HQ

Dêem uma olhada nestas imagens. Nas primeiras, vemos a personagem Misty, de Trina Robbins como foi concebida: jovem independente e decidida que corria atrás de seus sonhos, sem depender da aprovação de ninguém. Com narrativa voltada ao público feminino adolescente, Misty também apresentava alguns elementos típicos do estereótipo juvenil como a paixonite pelo galã da história, porém, esse não era o foco central da trama. Trina é uma das mais importantes quadrinistas e pesquisadoras de HQ americanas e quis conferir à Misty um pouco do que acreditava sendo feminista, como a possibilidade de uma mulher fazer o que quisesse, inclusive competir em um enduro de motocross. Suas roupas e posições não tinham como objetivo atrair o olhar masculino, uma vez que esse não era o público alvo da revista.

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Agora observem Misty nessas edições, pelo traço de Watson Portela. Portela é um dos mais talentosos desenhistas do país e praticamente todas as produções dos anos 80 em algum momento passaram pelas suas mãos. Porém, Watson era bem conhecido por suas mulheres sensuais, cujas narrativas eram voltadas para o público majoritariamente masculino. Misty teve apenas 6 edições nos Estados Unidos, no entanto, o sucesso no Brasil e em outros países fez com que as editoras a publicassem por mais tempo, sem o conhecimento de Trina, lógico. Misty era vendida nas bancas ao lado da Turma da Mônica e, embora fosse direcionada ao público adolescente, no Brasil era comprada por meninas que, como eu, tinham em média 9 ou 10 anos.

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Bom, e o que isso tem a ver com representação feminina e qual a importância disso?

Para que possamos falar sobre a importância da representatividade e como isso afeta a produção de quadrinhos é preciso entender e contextualizar essa produção. Principalmente, é preciso ser didática, porque os ruídos que se formam a partir de discussões nas redes sociais criam a impressão que as mulheres têm alguma coisa contra a expressão da sexualidade ou temas tabu em geral. Não temos!

Mas vamos lá: quem acompanha o mercado de quadrinhos já percebeu que as mulheres representam hoje uma grande parte do mercado consumidor. Segundo dados da Marvel, 40% de seu público é formado por mulheres. E quando falamos em poder aquisitivo, não estamos falando só de quadrinhos, mas no geral: maior poder aquisitivo = maior consumo. Sendo assim, todo comércio está de olho no dinheiro que as mulheres passaram a ter e de que forma elas irão gastá-lo. Logicamente, os quadrinhos, sendo acima de tudo produtos criados pelos meios de comunicação de massa (jornais) irão responder à lógica do mercado, ou seja, seus produtores irão tentar atrair o maior número possível de consumidores se ajustando às demandas desse mercado.

Imagens publicadas pleo site http://www.themarysue.com/things-we-saw-today-1332/
Imagens publicadas pleo site http://www.themarysue.com/things-we-saw-today-1332/

O que as pessoas precisam entender é: as mulheres também têm acesso às redes sociais, também produzem críticas e são formadoras de opinião. Se até pouco tempo atrás ouvir nossas demandas não era uma preocupação dos produtores, bom, agora é, afinal, editoras são empresas que visam lucro, como qualquer outra empresa inserida em um contexto capitalista.

Logicamente isso interfere no processo criativo dos artistas envolvidos, mas sejamos francos, quem produz para grandes editoras, sempre esteve sujeito às imposições desse mercado, tendo que atender a prazos curtos e produzir praticamente em escala industrial e de forma mecânica. O artista que deseja manter sua criatividade e autoria, opta por produzir de forma independente e não ter o mesmo alcance e lucro que teria na Marvel ou DC.

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Será que essa cena era mesmo necessária para a narrativa?

Portanto, é apenas muito ingênuo apelar à liberdade de expressão do artista que tem alguma obra vetada ou cancelada por uma editora quando a liberdade de expressão garante o direito individual de manifestação de suas ideias e não ampara a produção em escala massiva com fins lucrativos. É importante entender isso porque quando mulheres se opõem à determinada publicação, elas sim estão exercendo sua liberdade de expressão ao manifestarem sua opinião pessoal e ao decidirem não adquirir tal PRODUTO. Não temos o poder de vetar ou censurar nada, até porque, ninguém tem essa intenção.

O que está ocorrendo é que agora que o dinheiro também está em nossas mãos, as editoras dependem de nossa opinião para adequarem seus PRODUTOS ao nosso gosto e isso é uma opção mercadológica! Nada tem a ver com censura ou moral. É na verdade bem simples: não gostamos de uma publicação, não compramos e ainda explicamos a razão.

Persépoilis e a vova Miss Marvel: representatividade importa!
Persépolis e a nova Miss Marvel: representatividade importa!

Oras, quantas de nossas produções são simplesmente ignoradas, boicotadas ou negativamente criticadas simplesmente por terem sido produzidas por mulheres? E quando foi que mencionamos que estamos sendo censuradas de alguma forma? Nunca! Porque pedir bom senso é muito diferente de censurar qualquer coisa, até porque, mais uma vez, não temos esse poder.

E por que o mercado entende que representatividade é o caminho para atrair mais mulheres, ainda que isso represente a insatisfação de seu público masculino? Bom, não existe uma fórmula para o sucesso e o que o mercado está fazendo é experimentando. O contexto é novo, portanto, é necessário ajustar a produção. Para isso, empresas estão buscando meios de atrair públicos diversos ao mesmo tempo que tentam manter o público mais antigo. Não é algo fácil, por isso ainda há muita discrepância entre o que esperamos e o que é feito.

Sobre a importância da representatividade, eu já havia falado em uma matéria para o Judão (aqui), onde conversei com a psicóloga Andréa Lagareiro. Andréa está fazendo mestrado em Psicologia na USP e usa histórias em quadrinhos para lidar com resolução de conflitos entre adolescentes, ou seja, alguém com muita propriedade no assunto. Por meio dela entendi que uma das funções da ficção é a de nos ajudar a lidar com questões reais, por isso, o sentimento de fazer parte de algo e de identificação com determinadas narrativas podem representar elemento fundamentais para que sejamos capazes de superar certos problemas.

Sendo assim, o que de fato tem ocorrido é que, pela primeira vez nossa insatisfação sobre como costumamos ser retratadas nas produções culturais de uma forma geral, está sendo levada em consideração. Uma produção artística surge com acordos estabelecidos entre seu criador e seu público. Como mencionei recentemente em um post: você desenharia um pinguim caçando na savana? A menos que se trate de uma ficção surrealista, imagino que não, afinal, mesmo na ficção existem códigos estabelecidos entre produtor e consumidor que garantem que uma mensagem seja transmitida de acordo. É o que acontece com o som de explosões no espaço: Sabemos que isso não é possível, mas há muito tempo esse elemento foi estabelecido como algo verossímil para os consumidores de ficção científica e por enquanto ainda funciona.
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Na produção de quadrinhos mainstream alguns acordos foram estabelecidos entre consumidores e artistas e funcionavam até pouco tempo atrás. No entanto, o público cresceu. Atender as demandas de um público maior e mais diverso é um desafio, mas considerando que parte desse público representa uma grande parte dos lucros, é preciso entender que o que passa a ser estabelecido nos quadrinhos mainstream afeta diretamente a produção independente, caso o artista tenha interesse em alcançar um público significativo.

Ou seja, em nenhum momento as integrantes dos coletivos de quadrinhos se manifestaram contra produções eróticas, até porque muitas delas também produzem material de conteúdo considerado tabu. O que sempre foi falado e continuará sendo falado é que grande parte da produção de HQs não traz personagens femininas verossímeis da nossa perspectiva e que gostaríamos de consumir tais histórias nos enxergando nelas também. Não é tão difícil, é? O problema não é o quadrinista fazer uma personagem hipersexualizada em uma narrativa que não oferece um contexto pra isso, o problema é que agora nossas críticas têm alcance e quando dizemos que não gostamos ou que não iremos comprar, nossas vozes ecoam!

Aqui no Minas mesmo já falamos sobre o trabalho belíssimo da Giovanna Casotto e de outras publicações eróticas. O que não cabe é continuar achando que closes ginecológicos e personagens hipersexualizadas não representam um problema. Quando somos expostas desde que nascemos a padrões irreais de forma massiva, essa exposição é extremamente nociva para nossa autoestima e para nosso desenvolvimento como indivíduos autônomos. Não faltam estudos sore como a cultura de massa afeta diretamente nossa percepção e formação.

Também é preciso ter em mente que quando um artista opta por não se expressar como gostaria em nome do bom senso (que alguns preferem chamar de autocensura) ele está fazendo isso por questões comerciais, não porque está sendo proibido de expressar sua criatividade. Vivemos em uma democracia e se o artista quer expressar sua arte o fará livremente, em sua publicação independente, em uma galeria, entre os amigos. No entanto, quando você VENDE UM PRODUTO, então deve se adequar à lógica do mercado, como em qualquer área, do contrário, seu produto ficará encalhado e isso nada tem a ver com censura, mas com capitalismo.

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.