A garota com a tribal nas costas, de Amy Schumer

untitledAmy Schumer é uma mulher que aos 18 anos fez uma tatuagem de que se arrepende. Em seu primeiro livro, A garota com a tribal nas costas (Intrínseca, tradução de Andrea Gottlieb e Catharina Pinheiro), a humorista usa esse incidente para fazer um paralelo com os erros cometidos em sua trajetória e uma reflexão bem humorada (e às vezes tragicômica) das dificuldades que encontrou como mulher para chegar à posição em que se encontra hoje.

Amy é bem-sucedida em um meio extremamente masculino, a comédia stand up. É uma mulher em evidência na mídia que não se encaixa nos tradicionais padrões de beleza de Hollywood. É uma vítima de estupro e de violência doméstica. É filha de um homem que convive com a esclerose múltipla. E ela aborda todas essas facetas com uma escrita direta e leve (mérito também da excelente tradução), que torna a leitura prazerosa e rápida, cheia de piadas muito bem traduzidas, que tornam os temas pesados mais digeríveis.

Porém, é justamente no tom das piadas que Amy escorrega: seu humor autodepreciativo, mórbido e meio escatológico acaba em vários momentos sendo gordofóbico, capacitista e elitista. Embora não sejam piadas que visam detonar essas minorias com alguns humoristas mal-intencionados, é perceptível que ela faz brincadeiras ofensivas nesse sentido. Também me irritaram as constantes alfinetadas às críticas que recebeu na internet por antigas piadas racistas. Entendo que a humorista enfrente um bocado de ódio gratuito nas redes, mas não era o caso aqui e não é assim que se reage à críticas, mesmo que essas sejam piadas que ela não faz mais.

Por outro lado, o livro toca em pontos muito importantes sobre o machismo estrutural do qual nem mesmos mulheres brancas e ricas como Amy estão livres. A descrição dela sobre a primeira vez, um estupro cometido pelo então namorado, é particularmente triste, por ser uma história extremamente comum. O caso de violência doméstica que ela sofreu nas mãos de outro companheiro também. Ela fala sobre como toda mulher, mesmo as que se acham mais duronas, como ela, estão sujeitas a esse tipo de violência. É comovente ver como ela usa o livro para discutir o combate à violência cometida com armas de fogo, causa que ela adotou depois de duas espectadoras terem sido mortas durante um tiroteio em um cinema que exibia seu filme. A sua jornada através do machismo e da maledicência dos colegas para se estabelecer no humor também é muito interessante, por refletir as dificuldades de tantas mulheres em meios dominados por homens, onde somos constantemente julgadas por nossa aparência e vida sexual.

Ler o relato de Amy e a honestidade com que ela se desnuda, das maiores qualidades aos piores defeitos, me fez refletir muito sobre o peso que é colocado sobre as mulheres até mesmo por outras mulheres. Ela discute o fato de se sentir pressionada a representar a classe feminina como um todo, sendo que só consegue falar por si, limitada pelo recorte do seu status social. A maneira que ela afirma ter encontrado para lidar com isso foi assumir e abraçar com totalidade as suas falhas, simbolizadas pela tatuagem que dá nome ao livro. A leitura me fez questionar se realmente devemos colocar o peso de falar por todas as mulheres em poucas representantes, e acredito que não deveríamos.

No geral, achei um bom livro, mas recomendo uma leitura crítica por conta das piadas problemáticas e algumas escorregadas da autora no tom. Mas acho importante que as questões colocadas por ela estejam hoje visíveis o suficiente para serem discutidas e abraçadas pelo humorismo mainstream. A mídia deveria procurar mais diversidade em narrativas de mulheres, mesmo as imperfeitas, do que sonhar com uma militante perfeita que representará a todas nós. E às mulheres públicas cabe aceitar críticas com mais maturidade e humildade do que Amy. Espero que ela chegue lá.


Serviço:

Título: A garota com a tribal nas costas

Autora: Amy Schumer

Editora: Intrínseca

Tradução: Andrea Gottlieb e Catharina Pinheiro

Páginas: 336


Este livro foi cedido pela editora para leitura.


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Beatriz Blanco

Designer, professora, gamer e pesquisadora. Fã da franquia The Legend of Zelda, histórias de terror, aliens e kaijus. Acorda e dorme online.