3% da Netflix – O Brasil é uma distopia

Nesta sexta-feira, 25 de novembro, a Netflix, o serviço de streaming mais famoso e usado dos últimos anos, liberou a primeira temporada da primeira série totalmente brasileira de seu catálogo original: 3%. Dirigida pelo uruguaio Cesar Charlone (fotógrafo do filme Cidade de Deus, de 2002), e outras três pessoas, a série ficou famosa quando um piloto foi postado no YouTube há alguns anos.

O episódio piloto, escrito por Pedro Aguilera, fez bastante sucesso na internet, e foi produzido com o financiamento de um edital público, mas, como não havia dinheiro suficiente para terminar o projeto ele não foi adiante. Isso só se tornou possível quando a Netflix comprou os direitos da série, com a condição de que ela fosse feita essencialmente por brasileiros.

A premissa do seriado é um processo seletivo em um futuro brasileiro distópico, no qual apenas 3% das pessoas são selecionadas anualmente para irem ao Maralto, uma espécie de paraíso, sem os problemas sociais enfrentados pelo restante da sociedade. E a história traz vários personagens tentando passar pelo processo seletivo que parece, à primeira vista, arbitrário e sem sentido.

Durante coletiva de imprensa, Aguilera contou que a ideia para o roteiro veio enquanto ele lia as distopias clássicas da ficção científica, como 1984, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Adous Huxley. Ele tentou imaginar como seria um universo distópico em terras tupiniquins, considerando as nossas questões sociais que nos tornam um dos países mais desiguais do mundo. Os atores, inclusive, contaram, durante a coletiva, como foram seduzidos pela temática da série.

Coletiva realizada em São Paulo. Crédito: Pedro Saad/Netflix
Coletiva realizada em São Paulo. Crédito: Pedro Saad/Netflix

Bianca Comparato, que faz Michele, uma das personagens principais, foi categórica: “O Brasil já é uma grande distopia”. Como ela coloca, já temos grandes processos de segregação em nossa sociedade. Comparato disse que o que chama a atenção na série, e o que a difere de outras distopias, é o conceito colorido latino e brasileiro, uma estética que não é tão usada em produções estrangeiras.

Segundo os atores, a série segue uma premissa de que, no futuro, as questões de gênero e raciais já foram superadas, e os problemas agora são outros. É interessante, porque temos diversos atores negros nos papéis principais, como Viviane Porto, que interpreta a analista desse processo seletivo, Michel Gomes, que faz um cadeirante que tenta provar sua força para entrar no Maralto, e Vaneza Oliveira, que vive Joana, uma das candidatas e também melhor amiga da protagonista..

Mesmo assim, a Netflix enfrentou problemas durante a escalação do elenco, com um pedido bastante racista por parte da equipe responsável, que procurava “atores negros e bonitos”, dizendo que isso talvez fosse realmente difícil. Parece que eles se desculparam e trouxeram um ótimo elenco.

Quanto aos personagens, os atores afirmam que todos são multifacetados e bastante completos, tanto o time principal de candidatos, quanto Ezequiel, o gestor do processo interpretado por João Miguel, e a própria analista do governo.

Inclusive, Vaneza Oliveira coloca que “Joana é uma personagem muito forte, mas isso é uma forma de resistência. No fundo, ela é uma mulher sozinha, sensível, que tenta se adaptar e entender as pessoas”. “É importante olhar para ela e ver que ela não é só uma mulher”, explicou, colocando que é preciso ver a personagem como um ser humano completo.

A questão do protagonismo feminino foi apontada também por Bianca Comparato, que ficou muito feliz em ver duas mulheres na linha de frente, ao lado de um cadeirante, mostrando que nenhuma dessas pessoas é frágil. “É importante ver mulheres e negros ocupando esses espaços”, afirmou Oliveira.

De cara, o novo piloto da série mostra a força de uma produção original Netflix, com uma ambientação bastante interessante e que salienta a desigualdade social: o lado “rico” é extremamente branco, polido e brilhante, um tanto antisséptico, enquanto o lado “pobre”, traz ruas pichadas, roupas coloridas e diversidade de rostos, texturas e pessoas.

A série é promissora e abre portas para o Brasil, uma vez que pode alavancar outras produções brasileiras e tem um alcance internacional, visto que a série foi lançada simultaneamente em todos os países nos quais a Netflix atua. Está disponível com dublagem em inglês, além das legendas para cada país.

No geral, a premissa é interessante, e visto que séries distópicas como Black Mirror, também da Netflix, têm feito bastante sucesso com o público em geral, espera-se que 3% consiga seu espaço entre os fãs.

Todos os oito episódios da primeira temporada já estão disponíveis para os assinantes da Netflix.


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Gabriela Colicigno

Leitora desde criança, jornalista, booktuber e apaixonada por palavras, é viciada em chocolate, computador e livros de fantasia.