Meio Rei: uma fantasia medieval “meio diferente”

Fiquei muito tempo afastada das fantasias com inspiração medieval por acreditar que a maior parte dos autores acabam caindo num doloroso “mais do mesmo” ao escrever sobre esse tipo de cenário. Quem começou minha reconciliação com o gênero foi George R.R. Martin, que me ganhou com seu ótimo trabalho com personagens depois da insistência dos amigos ter me levado a finalmente ler As Crônicas de Gelo e Fogo. E foi por simpatia ao velhinho que cedi a mais uma obra no estilo, Meio Rei, primeiro livro da Trilogia do Mar Despedaçado, de Joe Abercrombie, elogiado pelo criador de Westeros.

No Brasil, Meio Rei é publicado pela Editora Arqueiro, com ótima tradução de Alves Calado e 228 páginas. Só tenho elogios para a edição em si: muito bem traduzida e revisada, com bela capa e ainda uma prévia do próximo livro da série nas últimas páginas (que me pareceu muito mais interessante que Meio Rei, inclusive).

Sobre o livro, Abercrombie é um fenômeno: além de elogios de George R.R Martin, também conquistou outros autores consagrados de fantasia como Patrick Rothfuss (das Crônicas do Matador do Rei) e Rick Riordan (da série Percy Jackson), além de ter sido considerado, em 2014, uma das cinco melhores obras de fantasia pelo The Washington Post e um dos dez melhores livros para jovens pela Time.

Sabendo disso, obviamente fui ler com a expectativa nas alturas. É provável que isso tenha atrapalhado um pouco a minha experiência: esperava uma fantasia de inspiração medieval totalmente inovadora e… bem, não é isso.

O protagonista de Meio Rei é Yarvi, príncipe caçula que nunca esperava ter que assumir o trono do pai Uthrik. O jovem tem uma deficiência em uma das mãos, o que o torna inábil para a espada em uma cultura onde a força bruta é extremamente valorizada e tudo gira em torno da violência. Yarvi é insultado, desprezado e não tem nenhum amor pelo pai, que humilha o filho com o apelido “meio homem”, por causa de sua deficiência. Um sujeito detestável.

Para se afastar da família, o garoto dedica todo o seu tempo aos estudos para integrar o ministério, uma ordem que forma conselheiros para estadistas com habilidades semelhantes às dos druidas: política, estratégia, diplomacia e cura. Yarvi tem muito talento para isso, pois é inteligente e persistente.

Tudo corre bem para o príncipe até a véspera do exame que o admitiria na ordem dos ministros e romperia definitivamente o laço com sua família, quando ele recebe a notícia de que o pai e o irmão mais velho foram mortos em reino inimigo, fazendo dele o único herdeiro do trono.

Quando cheguei a essa parte do livro, já estava revirando os olhos. Eis aqui um clichê clássico de fantasia medieval: o homem fisicamente fraco, porém inteligente, que provará seu valor sobre os brutos. O nobre que vai provar ao pai repressor que tinha qualidades. Para ficar ainda mais previsível, Yarvi, em uma atitude juvenil impensada, jura vingança pelo pai e pelo irmão.

Felizmente, as coisas melhoram um pouco depois disso.

A grande qualidade de Yarvi como personagem é que ele não é nobre, nem altruísta ou heroico: é rancoroso, vingativo e sempre coloca a própria segurança na frente dos outros. Embora até sofra um pouquinho quando passa alguém para trás, acredita que esses momentos são perdas naturais da vida e não deixa que seu senso ético fique acima dos seus objetivos. Gostei dessa caracterização por achá-la mais realista do que a do herói abnegado: faz todo sentido Yarvi odiar e desprezar todos aqueles que o maltrataram por sua deficiência. Faz sentido ele não empatizar muito com os fortões que foram responsáveis por seu bullying a vida toda e considerá-los apenas peões para os jogos que sua inteligência estratégica arma.

Outro ponto que colabora para que a obra não seja assim tão previsível é que Abercrombie cria mulheres fortes, que têm uma função importante em um reino voltado para a guerra. Enquanto os homens lutam, elas são as responsáveis pelas finanças de seus lares, fecham contratos comerciais e manipulam o ouro do reino. A mãe de Yarvi, conhecida como a Rainha Dourada, é a maior comerciante e administradora de todo o Mar Despedaçado, e uma personagem bem interessante. Além dela, temos a prima e noiva prometida de Yarvi, que nas mãos de um autor mais preguiçoso seria uma donzela à espera e interesseira típica, mas acaba mostrando complexidade moral e uma construção mais rica que o esperado.

Porém, a boa construção de personagens não livra totalmente Meio Rei dos problemas narrativos que o abuso de clichês alimenta: o desenvolvimento da história chega a ficar cansativo quando o autor empilha desgraça em cima de desgraça para forçar o crescimento de Yarvi. O grupo que é construído para apoiar o protagonista também é bem previsível. A narrativa ganha força no final, que é realmente muito empolgante e inteligente. Mas fica a impressão de que todo o meio foi montado apenas para “encher linguiça” até a chegada do desfecho, visivelmente mais elaborado.

No geral, o livro foi uma leitura divertida que conseguiu me surpreender em alguns pontos, mas me entediou bastante em outros. Ponto positivo para a ironia sutil de Abercrombie ao retratar os nobres obcecados pela guerra de Meio Rei, e ao não delimitar claramente bem e mal nos personagens. Mas, se você espera uma fantasia medieval totalmente inovadora, baixe a expectativa: Meio Rei é apenas meio diferente.


Serviço

Título original: Half a King 
Editora: Arqueiro
Tradução: Alves Calado
Número de páginas: 288
Preço: R$ 39.90

Este livro foi cedido pela editora para resenha.


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Beatriz Blanco

Designer, professora, gamer e pesquisadora. Fã da franquia The Legend of Zelda, histórias de terror, aliens e kaijus. Acorda e dorme online.