Mulher Maravilha: Terra Um

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Mulher-Maravilha: Terra Um , com roteiro de Grant Morrison e arte de Yanick Paquette, foi um dos títulos mais alardeados de 2016, cercado de polêmica e controvérsias. Com título original Wonder Woman: Earth One, volume 1, foi publicada pela DC Comics em abril deste ano em capa dura com 144 páginas a um custo de U$16,00 (Amazon). No Brasil, seu lançamento foi anunciado na CCXP2016 e contou com a presença do desenhista Yanick Paquette. Vendida pela Panini por R$21,90, preço com 25% desconto no evento.

De acordo com o próprio Morrison, ele quis “ser fiel” às origens da princesa amazona, lhe conferindo uma história de origem que Moulton aprovaria. Porém, ainda que toda a criação de Moulton se resumisse às insinuações de Bondage, Morrison falharia em homenageá-lo, já que as insinuações ao tema são superficiais dentro da narrativa.

Minha primeira sensação foi de “mixed feelings” (sentimentos controversos). Fui lendo, devorando a revista e quando terminou eu fiquei: “Não! Pera, volta aqui! Como assim? Acabou?”, e ao mesmo tempo que eu queria saber o que vem depois, estava me sentindo extremamente incomodada.

Resolvi ler algumas resenhas e conversar com amigos antes de entregar meu veredicto, na tentativa de entender como uma HQ poderia gerar opiniões tão diversas entre fãs que acompanham Diana há tanto tempo. A conclusão que cheguei é que gosto é subjetivo demais, e as pessoas que gostaram ou não, devem sua opinião a diversos motivos e nenhum deles envolve questões ligadas à cronologia ou ao fato de ser ou não cânone.

Pelo que entendi, a ideia dessa série, que tem títulos de outros super-heróis, é que os artistas tenham total liberdade para explorar suas perspectivas acerca dos personagens e narrativas icônicas. Quanto a isso, percebe-se que há um entrosamento entre o roteirista e o desenhista, porque as imagens conversam bem com as falas, e o quadrinho fica dinâmico.

Para contar sua versão de origem da Mulher Maravilha, Morrison a coloca diante de um grande julgamento na ilha Paraíso, onde durante toda a história serão trazidas testemunhas que usam recursos como flashback para narrar suas perspectivas dos fatos vividos pela princesa amazona no mundo dos homens. O júri, composto por seres mitológicos da cultura grega, terão que decidir se Diana infringiu as leis locais ao expor as amazonas ao mundo dos homens, causando problemas com o ida da Medusa, que petrifica uma série de civis por onde passa.

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Se Morrison quis homenagear o criador da Mulher-Maravilha, Willian Moulton, é difícil dizer se ele foi bem-sucedido: a história de fato parece ter saído diretamente dos anos 40. Diálogos nada verossímeis para os dias de hoje, até mesmo para um grupo de mulheres que vive isolado do mundo há séculos. Tendo lido outras HQ da personagem recentemente e assistido a alguns desenhos, Diana não lembra nem de longe a guerreira que é em Novos 52, por exemplo.

Por isso, talvez o próprio Moulton não a aprovasse: o psicólogo, de vida tão controversa quanto as recentes histórias envolvendo sua personagem, a concebeu como uma mulher à frente de seu tempo, conceitualmente muito moderna para a época. Então, nesse sentido, a Mulher Maravilha de Morrison não tem nada de vanguarda! Ela é uma mulher de séculos passados agindo como tal. Tem músculos, mas seu discurso é muito estranho.

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Uau! Trevor fazendo menção à Diana ser uma “feminazi”. Que original, hein, Morrison!

Outro elemento que causou polêmica entre os fãs mais conservadores foi o fato de Steve Trevor ser negro e, sinceramente, nunca entendo essas reações. Ninguém nunca se incomodou com o fato de Trevor ser um personagem extremamente insosso ao logo dos anos todos, aí, Morrison coloca um piloto negro e as críticas surgem. Steve é coadjuvante e, como tal, não representa grande impacto à história, independentemente de sua cor. Nessa, entretanto, ele é um cara ok, bem diferente do que ocorre em algumas das narrativas, quando ele costuma agir de forma infantil e machista.

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A arte, por sua vez, é realmente muito bonita. A paleta de cores escolhida é agradável aos olhos, mas o excesso de caras e bocas das personagens é extremamente irritante. Tudo que Diana fala remete a expressões de orgasmo. Aqueles clichês recorrentes: olhos semicerrados, boca semiaberta com um olhar tão apelativo que as tais “posições ginecológicas” que tanto reclamamos, passariam despercebidas, caso houvesse alguma. Aliás, as referências às orgias em homenagem aos deuses estão totalmente dentro do contexto, fazendo sentido onde estão, já os comentários da Etta, são tão bobos quanto um garoto de 13 anos conseguiria escrever.

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Olhar as imagens isoladamente pode dar a ideia que se trata de uma história bem bacana. Porém, ter que lidar com as expressões sexualizadas das personagens femininas seguidas vezes, é simplesmente um exagero. E não que ela não deva ser sexy, porque, vamos combinar, sensualidade é praticamente uma característica inerente às amazonas. E Diana foi concebida assim, naturalmente sexy. O problema é que chega uma hora que a tal da verossimilhança vai embora. Nenhuma mulher, nem mesmo uma amazona, consegue agir de forma sensual o tempo todo!

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Talvez esteja só sendo chata, mas você terá que ler e decidir, porque, como eu disse, à primeira vista, é bonita, mas Mala chamando Etta de “gado” e Etta xingando de volta “sua vaca”, não ficou tão bom assim. Morrison abusa dessas situações, que acabam perdendo a naturalidade. Sem contar que Diana me passou a sensação de ser extremamente mimada, muito diferente da personagem da Gail Simone na animação de 2009.

Portanto, se vamos falar de origens, George Perez e Brian Azzarello conseguiram ser mais felizes que Morrison. O renascimento de Diana em Mulher-Maravilha: Deuses e Mortais, de George Perez, lançada em fevereiro de 1987 (Wonder Woman vol. 2 #1), trazia uma versão bem mais poética e coerente com o que Moulton imaginou em relação à mitologia. Já em Mulher-Maravilha: Sangue, primeiro de um arco com 6 volumes, foi lançado nos EUA em 2013 dentro do universo dos Novos 52 (série de novas histórias que surgiram em decorrência ao evento Flashpoint que alterou os universos da DC após 11 de setembro de 2011) e foi lançada no Brasil em abril de 2016 pela Panini, com 160 páginas. Azzarello conferiu à Mulher-Maravilha características mais condizentes com a origem que usou, onde ela é uma semideusa. Particularmente, a primeira história de N52 é algo que eu considero já ter nascido clássico, uma dessas histórias que vale a pena ter e ser recontada diversas vezes, principalmente por envolver aspectos da mitologia grega que eu gosto muito, como a presença dos deuses, o Minotauro, os desafios e tudo isso com uma Diana ainda adolescente.

fim

Enfim, Terra Um não é uma HQ de se jogar o dinheiro fora, principalmente para quem gosta de acompanhar as diversas versões dos super-heróis. A narrativa tem coerência dentro do que se propõe, com arte e acabamento muito bons. Só não faria sentido na cronologia oficial, mas esse não é mesmo o objetivo, então, leia e tire suas próprias conclusões, afinal, para cada leitor, há uma história diferente.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.