Uma breve história da falsificação da realidade

No começo de novembro, a Adobe levou a público o projeto Voco, um software que promete ser o Photoshop do áudio. Com o Voco, seria possível imitar as frequências vocais de alguém com apenas 20 minutos de sua fala original. O software parece ser muito simples de usar e realmente seria muito útil para a gravação de podcasts, dublagens e obras de ficção em geral. No entanto, também poderia ter resultados catastróficos no jornalismo e na fabricação de evidências falsas, ou seja, falsificação da realidade.

Em luz a esse lançamento, a seguir elucidarei como é fácil alterar a realidade e dar um breve panorama de como isso foi e continua sendo feito por meio de fotomontagens e documentários falsos. Mostrarei também a frequência alta desse tipo de práticas que são usados para o mal.

Lá por 1920, Sir Arthur Conan Doyle, autor de Sherlock Holmes, veio a público defender a veracidade uma foto que teoricamente provaria a existência de fadas. O caso ficou conhecido como as Fadas Cottingley (em inglês “Cottingley Fairies”). Apenas na década de 1980, as primas Elsie Wright e Frances Griffiths, responsáveis pela fotografia vieram a público dizer que aquilo se tratava, obviamente, de uma farsa. Na época, as meninas morriam de vergonha de admitir que tinham enganado um homem teoricamente tão inteligente.

As Fadas de Cottingly, 1916
As Fadas de Cottingly, 1916
Fotografia de William Hope, cerca de 1900.
Fotografia de William Hope, cerca de 1900.

Até o século XIX, a fotografia era tida como um instrumento científico, impossível de adulterar. Junto com o incidente das fadas, a fotografia era usada como prova de outras crenças espiritualistas recorrentes na virada do século, e apresentava uma grande quantidade de fotos “de espíritos” causados por negativos de vidro mal lavados.

A manipulação fotográfica, no entanto, era usada desde a invenção da fotografia. No início da história da fotografia, a fotomontagem era usada com a finalidade de compensar as deficiências das primeiras máquinas fotográficas. Uma câmera não conseguia, por exemplo, focar o céu e o mar em uma praia. O fotógrafo, portanto, recortava o céu de uma foto e a combinava com o mar de outra foto, de forma a mostrar a paisagem inteira. Mas esse, é claro, é o lado bonitinho da coisa.

Montagens e retoques eram usados com frequência em governos totalitários durante a primeira metade do século XX, como na Alemanha Nazista, na China de Mao Tse Tung, e, principalmente, na União Soviética Stalinista. Durante o governo de Stalin, a história era reescrita e reeditada diversas vezes. Enquanto seus inimigos políticos eram mortos ou enviados para os campos de trabalho chamados de Gulags, eles eram progressivamente (mal) apagados de fotos oficiais. E quem ousa discutir com um governo totalitário, certo?

Stalin e Yezkov em 1935; Stalin sem Yezkov em 1940.

No audiovisual, a realidade não existe. Jornalistas diriam o contrário, é claro, mas como comunicação não é uma ciência exata, o que existe são pontos de vistas diferentes sobre o mesmo fato. Mesmo em fotografias não manipuladas, a simples escolha de ângulo ou enquadramento podem sugerir fatos diversos. O mesmo acontece com documentários, tidos por muitos hoje como o suprassumo do conhecimento. Mas documentários também têm roteiro e edição e mostram o mundo de acordo com a opinião de quem fez o filme.

E, assim como na fotografia, é muito fácil fingir a realidade no cinema. Documentários falsos têm até um nome chique no mundo acadêmico. Eles são chamados de “mockumentary”. “Mock” é inglês para “zombar”, e, portanto, mockumentaries são filmes de ficção que utilizam os códigos e regras do documentário para contar suas histórias, como entrevistas, depoimentos, narrações, câmeras tremidas e imagens aparentemente amadoras. O livro referência para o estudo de mockumentaries é “Faking it : mock-documentary and the subversion of factuality“, organizado por Jane Roscoe e Craig Hight em 2001. Nele, as autoras apontam as principais características desse tipo de filme. Um exemplo notório disso foi o falso documentário francês Opération Lune: Dark Side of the Moon, de 2002, onde é explorada a possibilidade de a ida do homem à lua ter sido uma farsa dirigida pelo Stanley Kubrick durante o governo de Nixon. Imaginem, logo o Kubrick ajudando o governo americano.

Mockumentaries também são muito comuns em filmes de terror, como o Bruxa de Blair original, de 1999, e Holocausto Canibal, de 1980, onde especulava-se se os atores realmente tinham morrido de verdade, chegando até a serem processados pela justiça. Mais recentemente, tivemos uma onde de filmes de terror desse tipo, como REC, Atividade Paranormal e uma dezena de filmes caseiros que pululam as creepypastas da vida.

Até os anos 1990, no entanto, a falsificação da informação era privilégio das poucas pessoas com acesso aos instrumentos necessários para produzi-los. Desde o surgimento da internet, em que cada vez mais pessoas possuem meios de acesso à produção e publicação de informação, desde o antigo Geocities até páginas mais simples como Tumblr, Facebook e até a Wikipédia. É possível criar informações novas o tempo todo. A própria Adobe democratizou o acesso a softwares de edição, como Photoshop, para imagens, e Premier, para vídeos. Por mais que os processos de manipulação fotográfica e montagem audiovisual sejam muito parecidos no meio analógico e digital, é inegável que é muito mais barato e simples fazer tudo isso através do computador. Hoje, na verdade, podemos facilmente editar imagens e vídeo com aplicativos de dentro dos nossos celulares.

Somado a essa avalanche de informações, o dicionário Oxford elegeu que a palavra do ano de 2016 fosse “post-truth” ou “pós-verdade”. Pós-verdade quer dizer relativo à circunstância em que fatos objetivos são menos influentes à opinião pública que o apela às emoções e crenças pessoais. A palavra descreve bem os tempos políticos nebulosos em que nos encontramos em 2016, quando tivemos o impeachment da presidente Dilma Rousseff no Brasil, a saída do Reino Unido da União Européia e a eleição do polêmico Donald Trump nos EUA, só para citar alguns casos. Nos três, os fatos objetivos foram soterrados por ideologias, muito ódio e, principalmente, desinformação.

O Facebook é apontado como um dos principais culpados por esse tipo de fenômeno. Os algoritmos da rede social reforçam as ideologias do usuário enquanto mostram apenas opiniões parecidas com as suas. Além disso, o site não filtra notícias reais de notícias falsas, notícias antigas e fotos descontextualizadas, ou mesmo notícias de fontes confiáveis com os títulos alterados pelos usuários. O Nexo até elaborou um guia rápido de checagem de informações falsas, já que a maioria das pessoas parece não conseguir distinguir e simplesmente replica o que ouviu por aí.

Descobrir a verdade no meio de fofocas e boatos é um exercício diário, principalmente quando somos atropelados por tanta informação. Nesse contexto, realmente acredito que mais uma forma de falsificar a realidade não seria nada bem vindo. Isso é tão 1984…


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Deborah Happ

Formada em Midialogia, pela Unicamp, com mestrado em Estética e História da Arte, pela USP. Faz umas artes quando dá, escreve por necessidade.