O Mais Barulhento Silêncio – Entrevista com a diretora Marccela Moreno

AVISO DE GATILHO: ESTUPRO

A violência na experiência sexual feminina é quase a regra, não a exceção.

 

Em novembro deste ano pude assistir ao curta-metragem O Mais Barulhento Silêncio, de Marccela Moreno, na Mostra das Minas, em Santos. O filme, que já possui várias indicações para prêmios em festivais de cinema,  traz depoimentos verdadeiros sobre estupros nas interpretações de diversas atrizes. Em sua abertura, somos informadas que 1 em cada 4 mulheres do mundo sofreu ou sofrerá algum tipo de violência sexual até o fim de sua vida, segundo a Organização Mundial de Saúde. -OMS.

Por mais sensível e poético que o filme tente ser, desce com um gosto amargo de impotência diante das situações as quais somos apresentadas, pois são situações cotidianas e muito naturalizadas em nossa cultura, nos lembrando que o estupro não acontece no beco escuro porque a mulher estava andando sozinha na rua., como geralmente é estereotipado. Ele nos lembra que estamos todas sujeitas a passar por isso e cada vez que lemos algo a respeito, é como se uma estaca fosse enfiada em nossos corpos, avisando que seremos a próxima vítima.

Não é fácil falar sobre isso sabendo que, enquanto escrevo e enquanto você lê, algumas mulheres estão sendo estupradas. Mais difícil ainda é ter que lidar com a desconfiança, o descaso, a sátira, que são recorrentes, vindas de pessoas que acreditam que esse não é um problema que lhes diga a respeito, quando na verdade, diz respeito a todos nós.

Por isso, por mais complicado que seja para algumas pessoas terem que lidar com essas informações, seria extremamente importante que o maior número delas tivesse acesso a esse trabalho, porque é muito impactante e intenso, tornando impossível para qualquer espectador sentir-se indiferente diante dele.

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Pensando nisso, conversei com a diretora do curta, Marccela Moreno, sobre O mais Barulhento Silêncio e espero que possam assistir em breve.

 1- Bom, como surgiu a ideia de fazer o curta e como recolheu os depoimentos? Como chegou até as mulheres?

Em abril de 2015, eu fui estuprada pelo cara com quem eu estava começando a ficar. Tínhamos vários amigos em comum, ele disse que tinha filhos, parecia ser um cara legal e eu confiei e fui à casa dele. Alguma coisa nele me repelia e mesmo assim começamos a nos beijar e quando as coisas foram avançando, eu fui rejeitando e dizendo “não”, “não quero transar com você”, tive de ouvir “você tá molhada, claro que você quer” ao que eu respondi ser uma resposta fisiológica sobre a qual eu não tinha controle e fui chamada de “didática”. Na hora não me pareceu ser uma situação tão violenta, mas hoje quando relembro, vejo que foi sim. E ele transou comigo, ou melhor, me estuprou, até que ele viu que eu estava lá, deitada, rígida e ele broxou. No dia seguinte me senti mal, culpada. Até que 5 dias se passaram e eu comecei a sentir uma grande angústia. Fui desabafar num grupo de feminismo que tinha no WhatsApp e no meu grupo de amigas mais íntimas e elas confirmaram o que eu intuía, mas não queria admitir: aquilo tinha sido um estupro. E aí, a maioria delas começou a dizer que já tinha passado por isso. Foi quando vi que o estupro, a violência na experiência sexual feminina é quase a regra, não a exceção. Isso começou a me mover muito. Elas me empoderaram e eu confrontei meu agressor (algo que não é muito fácil nem frequente) e as respostas dele foram me deixando com tanta raiva, porque ele ali não era só ele; ele era todos os algozes de minhas amigas, conhecidas e desconhecidas, de certa forma. Quando ele me perguntou “o que eu posso fazer pra minha filha não passar por isso? ” Desliguei o telefone e a ideia veio: “quero fazer um filme sobre esse tipo de estupro, no qual apenas as mulheres falem suas histórias; não quero especialistas ou qualquer coisa que afaste das histórias.” Senti que esse era o momento de falar e abordar isso.  Chegamos às mulheres por meio de posts em grupos feministas no Facebook.

 

2- Eu chorei muito durante filme, mesmo sem ter sido estuprada. Qual foi o feedback das mulheres que forneceram seus depoimentos? E de outras mulheres?

O filme cria um espaço de identificação muito forte com outras mulheres, infelizmente a maioria se reconhece naquelas histórias. Mas por outro lado, acredito que elas se sentem menos só, talvez menos culpadas e ouvidas, sabe? As mulheres que forneceram as histórias se sentiram assim, ouvidas, como se tivessem tirado um peso de si.

 

3- E quanto a você? Como tem lidado com o assunto e como lida com os gatilhos cada vez que recebe uma notícia sobre estupro?

Sinceramente? Uma mistura de raiva com desânimo, sabe? Um receio de que o mundo não vai ser melhor pras mulheres tão cedo. Eu sei que não é uma resposta nada inspiradora.  Mas ao mesmo tempo, por mais exaurida e devastada que eu me sinta com isso, eu me sinto cada vez mais compelida em ser mais uma vez para investigar os assédios, violências e agressões que nós vivemos simplesmente por termos nascido mulheres, sabe?

 

4- Uma coisa que me chocou foi saber que muitas mulheres não se dão conta que foram estupradas no momento do ocorrido. Por que isso ocorre?

Eu acho que é por várias coisas: nossa educação sexual, na maioria das vezes, é dada de forma subserviente ao homem; nossa vontade é condicionada a dele; crescemos ouvindo que temos de ser difíceis, que temos de dizer não, mesmo querendo dizer sim (ao passo que os homens aprendem que todo não nosso é na verdade um sim, pois temos de ser conquistadas, que a insistência faz parte do ritual). Eu acho que também existe uma divisão de mundos; que o mundo da sexualidade “livremente exercida” é algo visto como dos homens, que nós devemos saber lidar com isso e com preservação: se fomos à casa do cara, se bebemos demais, foi porque não fomos tão atentas à autopreservação como deveríamos. E que este é o tipo de situação que acontece quando não nos cuidamos, quando não nos resignamos ao mundo “doméstico”. Tenho também uma outra “teoria”: eu acho que ninguém quer se ver como a mulher estuprada. Então, muitas vezes, como proteção, criamos novas narrativas para nos ajudar a lidar com a violência, sabe? Ninguém gosta de se colocar no lugar de vítima. Eu acho que isso também é uma forma de lidar.

 

5- Como a produção cultural sobre um assunto tão delicado por ajudar as pessoas a se conscientizarem sobre ele?

 O cinema é muito poderoso. As imagens são muito poderosas. Eu acho que o filme pode sim ser conscientizador porque ele é uma experiência estética muito envolvente, sabe? Você é cercado, por 15 minutos, por imagens e sons que remetem à condição de opressão e violência vividas por mulheres, que falam de maneira direta e sincera sobre suas experiências. Com imagens simbólicas, que são ao mesmo tempo muito abertas à interpretação de quem vê, o que eu acho que engaje o espectador a refletir e a pensar sobre. E acredito que a maioria das pessoas, depois de ver um filme, qualquer filme, que as toque, sente a necessidade de falar sobre e multiplicar e compartilhar a experiência que tiveram. E aí, acredito que essa conscientização que O Mais Barulhento Silêncio visa suscitar funciona assim: num efeito corrente.

 

6- De que forma você acha que as mulheres podem se fortalecer para lidar com as consequências desses abusos?

 Eu acho que o mais importante é não se calar. Acho nós devemos sim quebrar os silêncios, mesmo que a princípio apenas umas com as outras, buscando essas pontes de identificação e empatia, sabe? Depois acredito que essa rede vai ser tão empoderadora que nós vamos nos sentir amparadas a quebrar o silêncio numa esfera maior: sair de nossos espaços de segurança para o mundo ouvir nossa dor. O silêncio vai corroendo a gente por dentro. E acho que nós como mulheres também precisamos estar atentas e cuidadosas para fazer com que outras mulheres se sintam seguras conosco; que a gente tenha sempre cuidado para não deixar julgamentos oriundos de machismos residuais que a gente tenha em nós, para não ajudar, mesmo que sem intenção alguma disso, a perpetuar o silêncio.

 

7 – Eu sou procurada por mulheres que sofreram algum tipo de violência e que me agradecem por expressar sentimentos que elas não conseguem colocar em palavras. Você consegue mensurar a importância do seu trabalho? Que tipo de reflexões podemos extrair do filme?

 Nossa, difícil essa! Eu acho que ainda não consigo mensurar isso. Eu só posso dizer que me sinto grata de ter podido fazer esse filme, porque sinto e já vi como muitas mulheres foram tocadas por ele, e que de alguma forma o filme tocou e ajudou a mover transformações pra elas. Sei que pra mim e pra toda equipe do filme, formada apenas por mulheres, o filme foi um grande divisor de águas.

 

8 – Atualmente não é possível assistir ao filme online. Existe previsão para que isso aconteça? Onde as pessoas podem assisti-lo?

 Estamos com o filme em período de inscrição em festivais, então, infelizmente, a gente não pode deixa-lo disponível. Mas estamos sempre buscando novas exibições fora do circuito de festivais, para que o filme possa ser visto e alcançar a maior quantidade possível de pessoas. Já exibimos em escolas ocupadas, universidades ocupadas, na ocupação do Minc aqui no Rio e continuamos buscando formas de organizar sessões do filme em outras cidades. Na nossa página do Facebook publicamos sempre as datas de novas exibições e também temos esse canal aberto com o público que queira ver o filme e queira propor exibições.

 

9 – O que gostaria de dizer às mulheres que passaram por algum tipo de abuso?

 Que vocês não estão sós. Que existem mulheres que querem ouvir vocês e ajudar da forma que podem. E que a culpa não é nossa. Nunca.

 

10 – Recentemente o caso da violência contra a atriz Maria Schneider em O último tango em Paris gerou bastante discussão. Nas obras de ficção, frequentemente o estupro é usado como um recurso para justificar uma atitude da vítima ou seu amadurecimento ou mesmo, para justificar ações do protagonista masculino. Isso é problemático? Por quê?

 Nossa, isso é imensamente problemático. Mostra um total descaso, desinteresse em conhecer e compreender mulheres por parte dos roteiristas. Isso já é um outro problema: a falta de roteiristas mulheres ou roteiristas homens preocupados em construir personagens mulheres complexas e com questionamentos, problemas e pensamentos próprios que não girem ao redor de homens ou de escrever narrativas femininas que sejam motivados pela vida interior das personagens e não, exclusivamente, por um evento externo a elas e violentos.

 

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Agradeço imensamente à Marccela pela coragem e pelo belíssimo trabalho. Realmente, não estamos sós e é nessa troca que nos fortalecemos.

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.