Tratamento alternativo para neuropatias

Por Marucia Chacur,

Dor é definida por sensação e experiência desagradável que estão associadas com um dano tecidual real ou em potencial. A dor tem como objetivo proteger nosso organismo de um insulto que pode causar danos.

Como a dor é produzida?

A dor é gerada em 4 etapas. A primeira etapa é denominada transdução que se refere transformação de estímulos nocivos em estímulos elétricos. Há inúmeras células nervosas especializadas distribuídas pelo nosso corpo, denominadas nociceptor. Elas são capazes de decodificar os estímulos potencialmente nocivos que tenham a capacidade danificar nosso corpo.

A segunda etapa é a transmissão que está associada a transmissão dos estímulos a coluna espinal.

Na etapa chamada de modulação, os estímulos são modulados, intensificados ou reduzidos, e dessa forma, ajustados.

A quarta etapa é conhecida como percepção, onde o cérebro processa a informação. A percepção vai gerar um conjunto de reações comportamentais, emocionais e fisiológicas. Por exemplo, quando sua mão toca uma coisa que está extremamente quente, você retira a mão, seus batimentos cardíacos aumentam e ainda você pode gritar “Aiiiiiiii” (entre outras coisas).

Esta é a resposta considerada fisiológica e este mecanismo é acionado para evitar ou minimizar injúrias.

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Etapas da nocicepção

O que é neuropatia?

Quando alguma parte relacionada a geração da dor é danificada pode levar ao desajuste na produção de dor. Após a lesão, o microambiente local sofre uma série de mudanças desencadeando muita dor local.

As lesões traumáticas dos nervos periféricos são mais frequentes e podem ser causadas por diferentes fatores, como por exemplo: ferimentos penetrantes, esmagamento, tração, falta de oxigênio, choque elétrico, percussão e vibração.

Neuropatias orofaciais

O nervo trigêmeo (em amarelo) é responsável pela condução da maior parte das informações dolorosas da face e possui três ramos distribuídos na face. Rotineiramente, na prática odontológica, pode ser alvo constante das anestesias utilizadas em tratamentos dos dentes inferiores e também pela proximidade de seu trajeto à região cirúrgica de extração dos dentes terceiros molares inferiores.

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Nervo trigêmeo em amarelo. Fonte Wikipédia.

Uma lesão em um destes nervos pode acarretar um quadro clinico que muitas vezes resulta em sensações de fisgada, dormência, queimação ou prurido, e pode causar alteração da sensação à dor no local. Em ratos este modelo é usado para mimetizar um quadro de neuropatia trigeminal conforme descrito por Tsuboi, 2004.

A neuralgia trigeminal é uma causa comum de dor facial. A prevalência de condições de dor crônica na população é alta, cerca de 12 – 30%. Ela tem um impacto significativo na qualidade de vida e funcionamento socioeconômico do paciente.

A Associação Internacional para o Estudo da Dor define a neuralgia trigemial como uma doença unilateral dolorosa que se caracteriza por breves episódios de dor, tipo choque elétrico que tanto seu início quanto término pode ser abrupto. Dentre os diversos modelos de neuropatia utilizando lesão de nervos do corpo, o nervo trigêmeo também tem sido um alvo importante. Uma vez que, o nervo trigêmeo é o grande responsável por conduzir as informações sensoriais provenientes da face e do pescoço.

Tratamentos convencionais

O uso de medicamento e complexos vitamínicos estão entre as formas mais descritas na literatura. Porém, muitas vezes, esse tratamento é ineficaz e/ou está associado à presença de efeitos colaterais. Por exemplo, drogas como a gabapentina e a pregabalina podem aliviar os sintomas dolorosos. No entanto, mais de 50% dos pacientes que utilizam esses medicamentos relatam sentir efeitos secundários, sendo que a sedação prolongada é mais frequentemente relatada, o que limita a sua utilização clínica.

Tratamentos alternativos

Alternativas terapêuticas para o tratamento da dor neuropática se fazem necessárias, uma vez que esse tipo de morbidade não responde satisfatoriamente a nenhum tipo de intervenção convencional, ou seja, cirúrgica e medicamentosa.

Vários estudos experimentais têm sido desenvolvidos na tentativa de melhor compreender os mecanismos fisiopatológicos da regeneração nervosa e suas complicações, além de buscarem um tratamento que apresente resultados melhores do que os atualmente existentes. Entre eles podemos citar, o laser (Light Amplification Stimulated Emission of Radiation) de baixa potência, onde ser utiliza luz para produzir um efeito terapêutico em tecidos vivos.

 Laser de baixa potência

Os efeitos benéficos da terapia por raio laser já são amplamente divulgados e utilizados na odontologia e fisioterapia, porém, sabe-se muito pouco sobre as bases fisiológicas da estimulação tecidual por raio laser. Na prática clínica os comprimentos de onda mais utilizados encontram-se entre 630 a 1300 nm, este intervalo é conhecido como “janela terapêutica” para tecidos biológicos (Baxter, 1997).

O grupo o qual eu lidero, mostrou que a aplicação de 10 sessões de laser de baixa intensidade (904nm), em modelos experimentais de lesão trigeminal, resultou em uma diminuição da resposta dolorosa destes animais.

Além de verificar em animais de laboratório, também testamos esta técnica em pacientes. Neste estudo, também foi possível observar uma melhora do quadro doloroso dos pacientes que sofriam de dores orofaciais proveninetes de diferentes lesãos bucomaxilar.

Estes resultados sugerem que esta técnica pode trazer muitos benefícios para pacientes que sofrem de dores orofaciais.

Importância

Esperamos que estes resultados sirvam de base para o melhor conhecimento do uso do laser, podendo contribuir para a elaboração de um protocolo de tratamento mais eficiente em pacientes portadores de neuropatias pós cirurgias orais. Além disso, pretendemos contribuir para a implementação desta terapia em outros casos de neuropatias.

Sobre mim:  

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Eu, Marucia Chacur, trabalho com comportamento animal desde 2008, quando ingressei no mestrado pelo departamento de Farmacologia no ICB/USP. Desde então, venho trabalhando na área de dor e tentando compreender melhor suas características e maneiras para amenizá-las, sempre buscando a melhora na qualidade de vida dos pacientes. A maioria do trabalho com laser terapia está publicado ou em fase de publicação. Os experimentos com dor orofacial foram conduzidos pelo aluno Daniel de Oliveira Martins, atualmente em seu pós-doutoramento no laboratório. Agradecemos o financiamento da FAPESP

 

Referências:

Tsuboi Y, Takeda M, Tanimoto T, Ikeda M, Matsumoto S, Kitagawa J, Teramoto K, Simizu K, Yamazaki Y, Shima A, Ren K, Iwata K. Alteration of the second branch of the trigeminal nerve activity following inferior alveolar nerve transection in rats. Pain. 2004; 111(3): 323-34.

Baxter GD. Therapeutic laser. In:  Therapeutic Lasers: Theory and Practice. Edinburg: Churchill Livingstone; 1997. p. 1-19.

 

Reponsável pela correção e revisão mais detalhada: Isabelle Tancioni

Revisão de texto: Helen Miranda.

Figura sobre Etapas de Nocicepção :  DeepArt

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Foto dos integrantes do laboratório: Rafael, Alyne, Fábio, Milena, Igor, Mara, Bianca, Marucia, Joyce e Daniel

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