Ajin: Demi-Human e o que significa ser humano

Vamos falar aqui do anime que estreou na Netflix em abril do ano passado e teve sua continuação na plataforma em dezembro, Ajin: Demi-Human (ou semi-humano, em português). A série possui 13 episódios em sua primeira temporada e indicação classificatória para maiores de 16 anos. O que é plenamente justificável, diga-se de passagem, diante de várias cenas de sangue e violência que me fizeram fechar os olhos e virar a cabeça algumas vezes.

A história começa há 17 anos, quando foram descobertos os primeiros Ajins em batalhas da África. Ajins são seres supostamente imortais: eles até morrem, mas voltam à vida segundos depois, totalmente recuperados. Ou seja, se o Ajin foi morto por um tiro, ele se regenera e volta a viver sem nenhum tipo de dano. Além disso, qualquer condição prejudicial à saúde que existia antes da morte é curada, como fome, deficiência vitamínica, perda de sangue e etc.

Até o início da trama, haviam sido confirmados 46 deles pelo mundo e 2 no Japão, local onde se passa a história. Porém, é difícil estimar o numero de Ajins, pois a única forma de detectá-los é através do mecanismo de voltar à vida. Portanto, somente após a morte de uma pessoa será possível dizer se ela é ou não um Ajin.

Nagai Kei, um estudante do ensino médio, descobre que é um Ajin após ser atropelado por um caminhão, no trajeto de casa após a escola. A partir de então, ele passa a fugir e a se esconder de caçadores de recompensa e de agentes do governo que trabalham na detecção e na captura de imortais pelo País. O decorrer da história gira em torno de perseguições, conflitos, mortes, ressurreições e muita ação. Os episódios são bem conectados entre si e aquela vontade de “assistir só mais um pra ver o que acontece” predomina.

Nagai Kei
Nagai Kei

Nascer, envelhecer e morrer – como sabemos desde o Rei Leão, este é o ciclo da vida. Mas o que acontece quando pulamos uma dessas etapas? Quando morrer já não é mais um horizonte inevitável na existência humana, quando a morte, como fim, praticamente não existe?  Vemos várias vezes durante o anime a afirmação de que Ajins não são humanos e o tratamento relegado a eles é condizente com essa ideia. O raciocínio é mais ou menos assim: se não morrem, não são humanos. Logo, não precisam de direitos humanos ou qualquer forma de respeito,

Nesse sentido, saber que somos pobres mortais, que podemos encontrar nosso fim para essa existência simplesmente ao atravessar a rua, é algo essencial. É algo que faz parte, a brevidade da vida é o que dá significado a ela. Mas perder a característica mortal já nos transforma em algo diferente? Em algo necessariamente ruim? Por exemplo, se um Ajin leva uma vidinha normal, respeitando as normas sociais e respeitando as outras pessoas, ele é menos humano do que alguém que está vivo e mata ou tortura por interesses econômicos?

Ok, são muitas reflexões que não possuem uma resposta final. A questão do que significa ser humano é alvo de discussões e de estudos desde a antiguidade. Tudo depende da perspectiva que você adota. Se o seu olhar for direcionado para aspectos biológicos, você encontrará um tipo de resposta. Se for mais interessado no comportamento, você verá outros aspectos. Se pensar que o importante é a alma de uma pessoa, essa discussão vai longe. Por isso é tão difícil estudar psicologia e por isso há muitas discordâncias no que diz respeito a como lidar e como tratar a humanidade. O que podemos dizer é que não há uma perspectiva que seja melhor do que a outra e que todas trazem resultados, à sua maneira.

 

Personagens principais
Personagens principais

Por enquanto, a imortalidade permanece como um elemento da ficção. Mas ela não deixa de ser importante para que possamos refletir acerca de nossa realidade e percepções. Nesse sentido, é comum a afirmação de que pessoas que cometem crimes hediondos não são seres humanos, e sim, monstros. Entretanto, se seguirmos essa linha de raciocínio  outras questões acerca do homem podem surgir, tais como:  e se ele nao form um monstro? E se ele é bom e a sociedade o corrompeu? Ou ele é mau e somente faz o bem por medo da punição?

Bom, já deu pra perceber que minha intenção aqui não é responder nada, mas mostrar que o importante é fazer as perguntas certas – as que servem para questionar suas convicções e não apenas para reafirmá-las. Muito difícil, eu sei. Mas de que adianta passar o curto tempo que temos nessa existência, presos em apenas uma mentalidade?

Portanto, veja Ajin: Demi Human no Netflix e tire suas próprias conclusões.


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Bianca Ferreira

Psicóloga, mestranda em psicanálise e dona da Bianqueria.