Estrelas Além do Tempo e as mulheres negras na ciência

No próximo dia 2 de fevereiro estreia nos cinemas brasileiros o filme Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures no título em inglês). O longa promete ser um dos grandes sucessos de bilheteria de 2017, sob a direção de Theodore Melfi, conta a história de três cientistas negras que trabalharam na NASA (Agência Espacial Norte-Americana) no programa espacial desenvolvido durante a Guerra Fria (que durou de 1945 a 1991). O longa metragem foi indicado ao Oscar 2017 nas categorias melhor filme, melhor atriz coadjuvante, pelo papel de Octavia Spencer que interpretou a cientista Dorothy Vaugnh, e melhor roteiro adaptado, escrito pelos roteiristas Allison Schroeder, Theodore Melfi.  

Atenção: este texto pode conter spoilers.

Quem são as mulheres negras do filme?

O filme trata de um momento específico da Guerra Fria, a corrida espacial que se deu entre Estados Unidos e a antiga União Soviética (1922 – 1991). Em especial, a primeira vez que um astronauta pôde orbitar a Terra, em 1962, feito que significou muito para os Estados Unidos e para os progressos em relação a descoberta do espaço. O que muitos desconheciam até a divulgação do longa metragem, é que na NASA tinha uma equipe composta inteiramente por mulheres negras que faziam parte do programa espacial.

Até 1964, os Estados Unidos eram um país oficialmente segregado, sendo que negros e brancos ocupavam espaços específicos destinados a cada um deles. E, como medida para amenizar a desigualdade racial, o governo estabeleceu uma parceria com a Agência Espacial para que ela empregasse mulheres negras com salários e posições de trabalho inferiores a dos brancos.

Três dessas mulheres foram diversas missões no espaço: as cientistas Katherine Johnson, Dorothy Vaughn e Mary Jackson.

Katherine Johnson

Crédito: Arquivo NASA

Nascida em West Virginia, Katherine Johnson formou-se em matemática e francês na Universidade de West Virginia. Desde muito nova, os professores de Johnson já notavam sua aptidão para trabalhar com cálculos, e inclusive incentivaram seus pais a investir na educação da menina, pois viam nela um grande potencial.

Em 1953, a cientista começou a trabalhar na NACA (Comitê Nacional para Aconselhamento sobre Aeronáutica), comitê que antecedeu a criação da NASA. Johnson é a única das três cientistas que está viva atualmente, com 98 anos. No ano de 2015, ela foi premiada pelo do presidente Barack Obama com a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais alta condecoração civil dos Estados Unidos.

Mary Jackson

Créditos: BGM arquivo

 

Assim como Johnson, Mary Jackson cresceu na Virginia e tinha uma tremenda habilidade para trabalhar com números. Formada em matemática e física pelo Hampton Institute, ela lecionou em Maryland antes de entrar para o programa da NACA ao lado de Dorothy Vaugham.

Jackson trabalhou na agência durante 34 anos e se tornou a primeira engenheira negra a integrar a equipe na NASA. Para conseguir o título de engenheira, Mary Jackson precisava cursar uma matéria oferecida pela Universidade da Virgínia, instituição que não atendia negros naquela época. Dessa forma, Jackson precisou de uma licença especial, concedida por um juiz para poder assistir às aulas no local.

Dorothy Vaughn

Crédito: Arquivo NASA

Nascida no Missouri em 1910, Dorothy Vaughn formou-se em matemática pela Universidade de Wilberforce com 19 anos e ingressou nos laboratórios da NACA durante a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945). Assim como Jackson, a cientista também foi professora antes de entrar para agência espacial.

Vaugnh representava uma figura de liderança no grupo de “Computadores Humanos” formados pelas mulheres negras da NASA. Ela se destacou por se tornar a primeira gerente negra da Agência e também pelo seu trabalho em coordenar sua equipe com a chegada dos computadores eletrônicos.

No filme, Dorothy Vaughn é interpretada pela atriz Octavia Spencer. Na cena, Vaughn está liderando sua equipe para a sala de computadores da IBM

As negras podem alcançar as estrelas!

E justamente por isso, Estrelas Além do Tempo não é um filme com um fim em si mesmo. A história das três cientistas contada pelo longa pode servir de inspiração para futuras pesquisadoras. Além de tirar três grandes nomes da ciência do anonimato, o filme exerceu um papel de representatividade que é essencial para o ramo.

Foi a representatividade que inspirou Mae Carol Jemison, a primeira astronauta negra da NASA, a seguir sua carreira no ramo científico. Jemison teve como espelho Sally Ride, primeira mulher a ir ao espaço, e também a personagem fictícia da série Jornada nas Estrelas, a tenente Uhura, uma comandante espacial negra.

Essa é Janette Epps, primeira astronauta negra da NASA. Crédito: Arquivo NASA

A cientista tripulou o ônibus espacial Endeavour como especialista da missão em 1992. Além de astronauta, Jemison é formada em medicina pela Faculdade de Cornell em Nova York e trabalhou por dois anos como médica do Corpo da Paz em Serra Leoa e na Libéria.

Mais recentemente, a NASA selecionou pela primeira vez uma mulher negra para tripular a Estação Espacial Internacional (ISS). Jeanette Epps foi escolhida para a missão em 2009. Ela é formada em física e doutora em engenharia aeroespacial pela Universidade de Maryland. Apesar da presença de mulheres negras na instituição não ser recente, somente em 2018 uma afro-americana fará parte da equipe que viajará para a ISS.

Outra pioneira cujo trabalho chegou até a NASA, é Evelyn Boyd. Nascida em 1924, ela foi a primeira afro-americana a obter doutorado em matemática pela universidade de Michigan em 1949. Além disso, também adquiriu seu título de doutorado em física.  

Contemporânea às cientistas de Estrelas Além do Tempo, Boyd lecionou durante pouco tempo na Fisk University de Nashville, mas a oferta de trabalhar na área de cálculo da IBM (International Business Machines Corporation) na construção dos primeiros computadores a atraiu. Com os investimentos que o governo norte-americano fez no programa espacial, a NASA contratou a IBM para instalar os novos computadores, e, com isso, Boyd fez parte da equipe que administrou as máquinas da IBM no local até 1963.

Evelyn Boyd foi a primeira afrodescendente a se doutorar em matemática e física de sua universidade. Crédito: Skip Coblyn

 

Alguns números sobre afrodescentes na ciência

A atriz Taraji P. Henson interpreta Katherine Johnson. Na cena, Johnson está calculando a trajetória do foguete de John Genn

Esse é outro ponto abordado durante o longa que merece destaque. Apesar de um contexto histórico totalmente diferente do atual, a questão do preconceito e das dificuldades estruturais encontradas pela população negra para ter acesso à formação acadêmica e alcançar postos de destaque fica bem clara.

Em Estrelas Além do Tempo, a segregação racial é explícita. Lugares demarcados separam os negros dos brancos, placas indicando lugares como banheiros, bebedouros, escolas e até hospitais destinados aos negros formalizam uma separação que a partir de 1964 foi extinguida pela lei. Além disso, o título em inglês Hidden Figures (“personalidades escondidas”, em português) traduz com  eficácia a ideia do filme que enfatiza como as cientistas foram colocadas nos bastidores e então esquecidas.

No Brasil, o racismo nunca foi formalizado pelas instituições de poder, mas os resultados de anos de segregação são percebidos na desigualdade da distribuição do ensino superior no país. Segundo números do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), jovens entre 18 e 24 anos compõem a maior parcela de estudantes do ensino superior, 58,8%.

O estudo divulgado em 2014 aponta que a porcentagem de estudantes negros no ensino superior corresponde a 45,5%, o que surpreende em relação ao número divulgado na pesquisa anterior, em 2004, na qual negros e pardos representavam apenas 16,4% do total. Apesar do crescimento expressivo, quando a porcentagem de estudantes negros nas universidades é feita em relação ao número total de jovens negros do país, na faixa etária de 18 a 24 anos, ela é de apenas 10,8%. Isto mostra que ainda há uma grande discrepância e muitos negros não estão nas universidades.

Outro ponto relevante para analisar a presença negra na carreira acadêmica são os números divulgados pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). O CNPq é um órgão público que tem o objetivo de incentivar o desenvolvimento científico e a pesquisa no país, grande parte de seus investimentos se dá por meio de bolsas de estudo. Devido à grande procura por esses números, a partir de 2013, a plataforma de buscas de pesquisadores brasileiros, conhecida como Lattes, incluiu o item etnia.

Segundo dados divulgados em janeiro de 2015, existem 91.103 bolsistas em território nacional e 12.780 no exterior. No Brasil, a parcela de bolsistas brancos corresponde a 58% do total, os bolsistas afrodescendentes somam 24,8% . Os indígenas correspondem a 0,3% e ainda há um percentual de pessoas que não declararam nenhuma etnia.

No exterior, a porcentagem de bolsistas negros é de 18,8% (16,4% pardos e 2,4% negros), enquanto brancos representam 64,8%. Entre as mulheres, as brancas representam 59% do total de bolsistas, sendo que o percentual de negras é de 26,8%.

Dados divulgados na revista Scientific American mostram que, nos Estados Unidos, somente 2% das pessoas que trabalham na áreas de ciência e engenharia são mulheres negras. Observa-se que há uma grande disparidade, uma vez que 51% são homens brancos e 18% são mulheres brancas.

Apesar de as estatísticas parecerem desanimadoras, a lição que o filme traz é de inspiração. Para que cada vez mais mulheres, sejam elas negras ou não, possam ver na representatividade, um caminho para ocupar os espaços da ciência e de ramos nos quais ainda somos minorias.

Revisão de texto: Isabelle Tancioni.


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