Uma conversa sobre o machismo no meio cosplay

O machismo é um fenômeno que se faz presente nas mais diversas relações sociais e pessoais. No meio cosplay, isso não é diferente. São diversas ocorrências e discussões acerca de um tema importante, que não pode ser simplesmente ignorado. O MinasNerds não está alheio a essa realidade, e conversou sobre o assunto com meninas cosplayers numa edição do Anime Festival BH, realizada nos dias 19 e 20 de novembro de 2016 na capital mineira. Os depoimentos das cosplayers evidenciam que o assédio ainda se faz muito presente, juntamente com demandas de corpos idênticos aos das personagens e comentários desrespeitosos, principalmente nas redes sociais.

Um dos momentos em que o problema do assédio com cosplayers veio à tona, foi durante a edição de 2015 da Comic Con Experience aqui no Brasil. Na ocasião, dois entrevistadores do programa Pânico na Band participaram do evento, realizando diversas “piadas” e “brincadeiras” com o tom característico do “humor” que eles representam. Porém, numa dessas “brincadeiras”, um dos entrevistadores lambeu o braço de uma cosplayer que estava caracterizada como a Ravena, dos Jovens Titãs.

Um desrespeito gigantesco, que acabou tendo grande repercussão: como resultado, o Pânico na Band foi banido dos próximos eventos da CCXP. Mas infelizmente, eles são apenas um exemplo do que acontece nos eventos do Brasil e do mundo. Na Comic Con de San Diego, também em 2015, as mulheres representavam metade do público presente, mas ainda reclamavam das apalpadas e dos ataques de homens que lutam para “proteger seu território” contra a entrada da audiência feminina.

As apalpadas sem consentimento foram uma das reclamações das cosplayers com as quais conversamos, que acabam tendo que desenvolver estratégias para se protegerem:

“Tem sempre um homem que vem tirar foto com a gente e tenta dar uma passadinha de mão. Eles têm que entender que eu não estou aqui pra isso. Eu não estou fazendo programa, estou me divertindo. Qualquer um que chegue pra tirar foto comigo eu já peço pra colocar a mão da cintura pra cima. E olhe lá.”

“O fato deles colocarem a mão sem pedir, ficar olhando… Hoje mesmo um cara estava tirando foto da minha bunda. Eu me sinto constrangida porque a gente devia ter a liberdade de fazer o cosplay que quiser aqui sem passar por isso.”

Outro aspecto ressaltado foram as roupas curtas das próprias personagens. O cosplayer costuma se empenhar em realizar uma réplica o mais fiel possível do personagem. Mas muitas vezes, no caso das mulheres, isso significa pouca roupa e aumento do assédio. Uma das meninas que estava de Arlequina, na versão do filme Esquadrão Suicida, comentou sobre o short curto da personagem (que também já foi alvo de discussões pela internet):

“A Arlequina é assim e eu quero fazer um cosplay bacana. Não posso colocar um short na metade da canela sendo que ela não é assim. Fica totalmente fora do personagem.”

A própria atriz, Margot Robbie, fez uma declaração contra a roupa curta da personagem: "não, eu não gosto de usar aquilo."
A própria atriz, Margot Robbie, fez uma declaração contra a roupa curta da personagem: “não, eu não gosto de usar aquilo”

Além disso, a pressão para se ter o corpo retratado nas HQs, nos mangás e nos filmes desestimula as mulheres a representarem personagens queridas, porém irreais em termos estéticos. Quando a diferença é pequena, elas se utilizam de alguns artifícios, como truques de maquiagem, enchimentos e salto alto. Mas quando essa diferença não pode ser contornada, muitas optam por não fazer o cosplay:

“Eu mesma deixo de fazer cosplay de uma personagem que eu amo e que às vezes tem muito peito, sendo que eu não tenho. Não adianta porque eles vão ficar me olhando e falando. Então muitas vezes eu não faço por esse motivo.”

Natália Paixão, que sofreu com o machismo após o cosplay de Estelar na FIQ 2013.
Natália Paixão, que sofreu com o machismo após o cosplay de Estelar na FIQ 2013.

Estes são apenas alguns exemplos de situações nas quais o machismo se infiltra, gerando meninas na defensiva, inseguras quanto ao próprio corpo e sem qualquer incentivo para continuarem a fazer aquilo que gostam. É uma pena que em pleno 2017 isso ainda aconteça. O respeito ao espaço do outro e, principalmente, o respeito aos corpos das mulheres é algo que não pode ser desconsiderado, independente de qual contexto estejamos falando. Por isso, não importa que ela esteja de cosplay ou qual cosplay ela esteja usando. Cada um tem a liberdade de se fantasiar como quiser e de ter o corpo que bem desejar. E o respeito, nunca é demais.


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Bianca Ferreira

Psicóloga, mestranda em psicanálise e dona da Bianqueria.