Ficção Científica Latina: a Invenção de Morel

Realismo fantástico é o nome cult para fantasia e ficção científica. Na verdade, são a mesma coisa. Talvez o realismo fantástico apenas dê mais atenção à linguagem. Uma coisa legal sobre esse gênero é que grande parte de seus escritores são latino-americanos, como Gabriel García Márquez (meu amor), Júlio Cortázar, Jorge Luis Borges e até mesmo o brasileiro Érico Veríssimo, com Incidente em Antares. É interessante ver a fantasia sob uma óptica tropical, fugindo das convenções europeias e estadunidenses.

Invenção do Morel, de Adolfo Bioy Casares
Invenção do Morel, de Adolfo Bioy Casares.

A Invenção de Morel foi escrito por Adolfo Bioy Casares em 1940. Ele o considerava o início de sua carreira literária e até mesmo o grande Jorge Luis Borges, seu amigo pessoal, dizia que a obra tinha “uma trama perfeita”. O livro foi relançado agora em 2016 pela coleção Biblioteca Azul da Globo Livros com tradução de Sérgio Molina e prefácio do próprio Borges.

Inspiração para a série Lost, o livro conta a história de um fugitivo venezuelano que se esconde em uma ilha na Polinésia, onde acredita estar sozinho. Enquanto fica cada vez mais abalado pela solidão, ele percebe visitantes misteriosos na ilha. Ao mesmo tempo que deseja que eles sumam, para que ninguém descubra sua presença e possivelmente acione a polícia para prendê-lo, ele se apaixona por Faustine, que estranhamente ignora suas repetidas investidas. Borges tinha razão e a trama é realmente perfeita. Não há um detalhe fora de lugar e tudo se encaixa como um grande quebra-cabeça, desde os dois sóis da ilha, até a piscina que ora tem peixes mortos, ora água límpida.

A escrita do livro é muito interessante. É um diário em primeira pessoa, contando as aventuras do protagonista pela ilha. Ele fala sobre a forma como sobrevive ao frio e às marés, como encontra comida e abrigo, descreve as construções da ilha e, finalmente, quem são aqueles visitantes que podem ou não estar ali. Às vezes, vemos notas do rodapé, colocadas propositalmente pelo autor para tornar o diário mais acreditável, como se aquilo fosse um relato real editado por outra pessoa que o encontrou posteriormente. Sendo ficção científica, os eventos extraordinários são todos explicados na trama e, portanto, poderiam muito bem ser reais. Foragido da justiça, o protagonista anseia por companhia ao mesmo tempo que teme que as pessoas descubram quem ele é e o denunciem. Ele também está sozinho por tempo suficiente, sobrevivendo às intempéries da natureza, para talvez começar a enlouquecer. Assim, nos perdemos entre os devaneios e delírios de um homem isolado da sociedade por seus próprios meios.

A leitura, no entanto, não é das mais fluidas. Não sei se estou cansada demais, mas levei umas duas semanas para terminar as poucas mais de 100 páginas. Talvez seja por conta da linguagem e pelo fato de ser epistolar (ou seja, escrito em forma de diário), ou talvez por não ter capítulos, apenas asteriscos separando as entradas no diário. É possível que a ideia da narrativa seja essa, para que o leitor sinta a angústia e o desespero do protagonista. Mas é preciso ser forte e seguir até o fim. A tal da invenção do Morel é realmente surpreendente e o livro tem um dos fins mais bonitos que já li. De partir o coração.

Dados técnicos

Título: A Invenção de Morel

Autor: Adolfo Bioy Casares

Editora: Biblioteca Azul, Globo Livros

Tradução: Sergio Molina

Páginas: 112

Este livro foi cedido pela editora para resenha.


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Deborah Happ

Formada em Midialogia, pela Unicamp, com mestrado em Estética e História da Arte, pela USP. Faz umas artes quando dá, escreve por necessidade.