Sarah e o pato: crianças e idosos como centro do mundo

Em tempo de desenhos frenéticos ou que parecem lobotomizar as crianças, que ficam como zumbis na frente da tela, foi um grande refresco descobrir Sarah e o Pato numa zapeada pela Netflix, com meu filhote de dois anos. Está bem, fui meio ranzinza nesta introdução, também tem desenhos bons para crianças bem pequenas no ar e coisas novas para esse público. Acho isso maravilhoso.

Sarah é uma menina de sete anos. Seu melhor amigo é um pato, que divide a casa com ela, mas não vemos nenhum adulto. Podemos presumir que os adultos existem, que ela tem pai e mãe, pois a casa é grande e ela usa dinheiro e não trabalha, mas isso não tem importância. O pato tem seu quarto e a Sarah tem o seu. Eles dividem a sala de tecnologia, a cozinha, a sala e outras dependências da casa. Mas entenda bem, a Sarah é uma criança e o pato é um animal de estimação, que não fala e se comporta como um animal de estimação espertinho.

Sarah, o pato e seus amigos, John e o flamingo

As vizinhas da Sarah são as Irmãs das Fitas, as gêmeas que adoram fazer acrobacias, e a Senhora do Cachecol, uma velhinha tricoteira que mora com sua bolsa falante. E aqui temos outra lindeza do desenho: idosos e crianças são os principais personagens a ter voz nesta animação. Os adultos que encontramos pelo caminho estão trabalhando, são atendentes de lojas e consultórios, e seu papel se resume a isso.

A bolsa falante da Senhora do Cachecol dá a pista que a fantasia tem um bom espaço na história. Encontramos um guarda-chuva que não gosta de se molhar, um arco-íris super simpático, galochas saltitantes, pratos que fogem para a floresta, a lua que gosta de pintar, árvore que dá lã e outras coisas fofas.

Crianças são pessoas independentes

As crianças se reúnem e conversam sobre astronomia, esportes, fazem compras, andam de ônibus, vão à biblioteca, mas o que a Sarah gosta mesmo de fazer é ficar sentada no seu banco favorito do parque, em frente ao lago.

O desenho tem um ritmo lento, as crianças falam pausadamente, a trilha sonora é relaxante e temos muitas cenas com jazz. Em muitas delas, Sarah está tocando sua tuba. Duas cenas, especificamente, me ganharam nesta animação. A primeira foi quando a Sarah responde ao narrador, que também é um personagem, que aquela seria a hora de sentar e pensar. A segunda foi a seguinte:

“Vendedor no parque: Quer algodão doce grátis?
Sarah: Hum (em dúvida)
Narrador: Vamos, Sarah. Pode pegar, não tem problema.
Sarah pega, olha o algodão doce e prova: Eeewww. Muito doce! – e joga no lixo – Eca!”

Como não amar uma criança que tem a tranquilidade para sentar e pensar? Uma criança que não acha açúcar tudo isso? Aqueceu meu coração.

A Senhora do Cachecol

A Senhora do Cachecol ensina a Sarah a andar de bobsled

A amiga da Sarah que mais aparece na história certamente é a Senhora do Cachecol, a tricoteira que mora com sua bolsa falante e seu burrinho de estimação. Ao conhecer melhor essa adorável velhinha, descobrimos que ela já participou das olimpíadas de inverno, que ela conhece músicos e teve uma vida descolada. Sua idade avançada veio com um início de senilidade e ela esquece o nome das coisas com frequência. É lindo de ver a admiração da Sarah pelos seus feitos e a tranquilidade com que ela lida com esses deslizes da velhice. Respeito é a grande chave das relações.

Menina pode fazer o que quiser

Tem essa lindeza toda no universo das crianças com seus animais de estimação (aparecem outros no caminho) e os idosos, mas tem também a menina protagonista que faz o que quer fazer. Pode ser cozinhar, navegar na internet, fazer safari fotográfico, observação astronômica, pesquisas bibliográficas sobre animais. O que ela quiser é possível. Não só a ela, mas para as outras meninas da história, e aos meninos também, é claro. São crianças retratadas como elas realmente são: perspicazes, curiosas, talentosas.

A animação é uma criação de Sarah Gomes Harris e Tim O’Sullivan para o canal Cbeebies, o canal britânico infantil da BBC. Sua primeira temporada foi ao ar em 2013 e duas delas estão disponíveis na Netflix, com uma dublagem maravilhosa em português. A terceira temporada terá quarenta episódios e começou a ser exibida em outubro, já espero ansiosa sua chegada à internet. Aqui, a animação chegou a ser veiculada na TV Brasil, mas não tenho certeza se ainda vai ao ar.


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Roberta AR

Gosto de escrever (o que acabou virando trabalho) e de café. Participo da cena de quadrinhos independentes desde 2007, atuando principalmente na divulgação e na produção. Também sou zineira e escritora.