Crazyhead: se a Buffy falasse palavrão

Enquanto todo mundo via Desventuras em Série, eu, a nerd hipster, resolvi ver Crazyhead. A série britânica produzida pelo Netflix em conjunto com o Channel 4 tem 6 episódios e é curtinha, fechadinha, do jeito que eu gosto. Também é um humor negro sobre duas meninas que se tornam melhores amigas enquanto lutam contra demônios.

Somos apresentadas a Amy (Cara Theobold que também fez Downton Abbey), uma funcionário de uma pista de boliche. Ela acredita estar com problemas psicológicos quando começa a ver rostos de demônio em seu agressor dentro de uma boate. Amy é salva por Raquel (Susan Wokoma), que encara caçar demônios como sua ocupação principal. Inicialmente, Amy acredita que Raquel também esteja louca, mas volta a pedir sua ajuda quando sua melhor amiga é possuída. Assim começa uma longa jornada de amizade e caça aos demônios, repleto de plot twists ora mais ora menos previsíveis.

Crazyhead explora bastante o papel da mulher. As personagens principais são duas jovens de comportamentos fora do padrão, que falam muito palavrão e parecem sempre agir de maneiras repreensíveis. Amy cresce ao longo da história quebrando as expectativas do público enquanto reconhece e aprende a dominar seu próprio poder. Deixa de ser apenas uma loira com “cara de colher”, como é chamada pela Raquel, para ser uma heroína com poderes psíquicos. Raquel, uma negra gordinha que começa a série parecendo uma louca deslocada, que não tem o menor tato social e que insiste em perguntar se todo mundo é gay (significa), acaba por se revelar uma heroína forte, inteligente e muito badass.

Além das heroínas, uma das melhores personagens da série é um demônio de alto escalão que possuiu uma mãe solo e, portanto, precisa cumprir com suas obrigações de mãe enquanto tenta dominar o mundo. Isso leva a uma das falas mais memoráveis da série, em que diz: “Eu nunca mais possuo uma mãe solteira, não há nenhum suporte.”

O criador de Crazyhead é Howard Overman, que também foi responsável por Misfits, a série britânica de 2009 sobre jovens detentos que se tornam superheróis. Overman disse ao Guardian:

“O programa vem da frase clássica “batalhando seus demônios“. Ao longo da história, a idéia de pessoas serem possuídas fala com algo muito profundo na nossa psiquê. Então temos duas garotas batalhando os demônios de viver suas vidas e lidando com amor e amizade… mas também batalhando demônios reais.”

Além de heroínas, no melhor estilo de Buffy a Caça-vampiros, Amy e Raquel constroem uma amizade sólida e percebem a importância de contar uma com a outra, enquanto tentam lidar com suas carreiras, seus amigos e seus relacionamentos amorosos. A Vox fez uma análise bem interessante nesse sentido, do poder da amizade e da sororidade, mas está cheia de spoilers, então leiam só depois que terminarem de assistir. E assistam, por favor.

 


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Deborah Happ

Formada em Midialogia, pela Unicamp, com mestrado em Estética e História da Arte, pela USP. Faz umas artes quando dá, escreve por necessidade.