Bordados – Marjane Satrapi

Lançado no Brasil em 2010, pela Companhia da Letras, Bordados é uma das obras da iraniana Marjane Satrapi, mais conhecida por Persépolis. A ilustradora e cartunista que hoje mora em Paris, foi a primeira quadrinista de seu país e ganhou o mundo com seu feminismo considerado irônico e sutil.

Com 136 páginas, a história em preto e branco com os traços cartunescos  narra as conversas das mulheres iranianas durante o ritual do Samovar, chá típico da cultura do país que é servido em três momentos do dia, sempre seguindo os protocolos seculares. Após o almoço, enquanto Marje prepara o chá, as outras mulheres lavam a louça e durante a sesta dos maridos, elas se reúnem para tomar a tradicional bebida enquanto tricotam, ou seja, falam da vida alheia.

Bem diferente do tom épico da Persépolis, Bordados é bem mais curto e pode ser lido em poucas horas. Embora não seja focado na vida de Marjane, os aspectos pessoais nos dão a impressão de estar na sala, ouvindo aquelas histórias que, embora não guardem semelhança com nossa cultura, de alguma forma parecem próximas. A sensação é de que Bordados poderia muito bem ser um capítulo de Persépolis.

A narrativa gira em torno das relações das mulheres, mais velhas que Marjane, com os homens e com o casamento. Desde mulheres obrigadas a casar aos 13 anos com generais 50 anos mais velhos a mulheres casadas que nunca viram um pênis, ainda que tenham concebido vários filhos.

Com ironia e leveza, Satrapi aborda questões delicadas como a violência doméstica e submissão feminina que é levada a níveis extremos: Bordados não é apenas um sinônimo para fofoca, mas para um tipo de procedimento cirúrgico ao qual mulheres se submetem na tentativa de “permanecerem” virgens até o casamento.

De acordo com a autora, práticas como reconstrução do hímen e outras cirurgias plásticas são bastante comuns na cultura iraniana, sempre com a intenção de agradar aos homens. Por mais que um certo sarcasmo seja observado na fala das mulheres em relação aos seus maridos, a verdade é que o ritual do Samovar é uma espécie de terapia em grupo para que as mulheres consigam lidar com uma realidade que as trata como posses masculinas.

Até mesmo o vício em ópio é tratado com sutileza, ainda que represente uma forma de autoengano, tanto para homens como para mulheres, como uma fuga das situações cotidianas.

Apesar dos temas complicados, Bordados tem vários momentos divertidos que tornam a HQ despretensiosa00, capaz de prender o leitor da primeira à última página.


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Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.