‘Diário de Uma Escrava’ é uma história de terror real – as vítimas e vilões somos todos nós

Aviso de conteúdo: estupro, violência psicológica, sequestro

“Acredito fielmente que escravos e prisões não se fazem somente com paredes, grades ou algemas, mas também com palavras e situações”

Anualmente, cerca de 250 mil pessoas desaparecem no Brasil – sendo 40 mil menores de 18 anos e uma porcentagem nebulosa (mas que se estima alta) composta por meninas vítimas de violência sexual. É tendo esse dado em mente que a história de terror de Diário de uma Escrava se torna ainda mais tenebrosa: os acontecimentos são baseados no mundo real.

No livro de Rô Mierling, lançado pela DarkSide Books, acompanhamos o drama de Laura, uma garota comum (como eu, você, suas amigas, primas, irmãs) que é sequestrada e passa anos em cativeiro, servindo de escrava sexual a Estevão. A história nos puxa para dentro dos relatos perturbadores da menina, que dia após dia desenvolve uma convivência doentia com o abusador e uma relação perturbadora com a própria mente, dilacerada e explorada à exaustão tanto quanto seu corpo.

Despida de qualquer forma de romanceamento da situação, a realidade com que a autora nos apresenta Laura desperta três principais sensações bastante distintas, mas que, juntas, nos tornam também reféns tanto quanto a personagem. Primeiro vem a impotência diante de uma violência tão brutal. Depois vem o medo: a vítima é tão comum e real que poderia ser, literalmente, qualquer pessoa. Durante a história, inclusive, pequenos capítulos narram casos de sequestros de outras meninas comuns em situações banais. Finalmente, vem o grande estalo mental de que tudo isso é real.

Conhecendo um abusador

Pessoas como Estevão, o sequestrador de Laura, existem e estão muito bem camufladas sob a fachada de “homens de família” (e digo “de família” com toda a carga problemática que esse conceito patriarcal pode carregar). É um homem adulto, bem educado e discreto, que engana e atrai crianças para um mundo perverso e praticamente impossível de ser compreendido racionalmente. O “ogro”, como é chamado por Laura, mostra uma visão aterrorizante do que considera — por falta de palavra melhor — amor.

Por meio das falas de Estevão e da descrição de seu comportamento feita por Laura, conhecemos alguém desprovido de qualquer senso de humanidade, empatia e compaixão, que ainda assim consegue declarar sua paixão pela menina e dormir em paz no final do dia após longas sessões de tortura sexual e psicológica.

A história serve de alerta quanto à naturalização de uma infinidade de conceitos nocivos à sociedade, entre os quais a sexualização da infância, o acobertamento de comportamentos sexistas e a aceitação da degradação do corpo feminino, entre outros. Assim, Estevão não é só um homem, mas uma alegoria que expõe, com grau máximo de brutalidade, o que uma pessoa é capaz de fazer com outra a quem julga submissa ou menos digna de justiça ou respeito.

Consequências assustadoras

Acompanhar o crescimento de Laura dentro do cativeiro e as consequências da escravidão a que está submetida é uma experiência sufocante — por isso, e como o mais interessante é tê-la sem muito conhecimento prévio, é melhor limitar a descrição por aqui. Cabe ressaltar apenas que a cada rompante de esperança que ela tem, intercalado à completa entrega e “autodesistência”, é quase como se o fluxo de pensamento se misturasse ao do leitor: ela vai fazer você questionar todo o sentimento que desenvolveu em relação ao sequestrador, às memórias anteriores ao sequestro (que passam e repassam como um filme o tempo inteiro), à dúvida do que é real ou não e, com muito pesar: vale a pena tentar mudar alguma coisa? O que vem depois?

“O poder que ele tem sobre mim é incalculável (…) porque sei que ninguém mais me aceitaria nesse mundo depois de tudo que passei”

 

Dados técnicos

Título: Diário de Uma Escrava

Autora: Rô Mierling

Editora: DarkSide Books

Este livro foi cedido pela editora para resenha.
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Aline Pereira

Mestre Pokémon e jornalista. Amante do cinema (e da pipoca com manteiga), compro camiseta de super-herói na seção infantil e nas horas de tédio tento mover objetos com o poder da mente. (Tô no Twitter @alineperr)