Viva la Vida Tosca: a autobiografia engraçada e melancólica de João Gordo

Muita gente mais jovem acompanha o João Gordo mais pela sua carreira na MTV ou pelo seu canal no YouTube, e se acostumou com a imagem de um cara bonachão e divertido com mensagens positivas, como a defesa da causa vegana. Mas o vocalista do Ratos de Porão teve uma vida bem complicada, marcada pela relação difícil com o pai autoritário, problemas de autoestima, depressão e abuso de drogas. É essa jornada pelo inferno e para fora dele que Gordo narra na sua autobiografia Viva la Vida Tosca, escrita em parceria com o jornalista André Barcinski (autor da excelente biografia de Zé do Caixão) e publicada pela DarkSide Books. O relato pessoal e ágil é uma leitura essencial para quem quer entender melhor a bagunça que foi o nascimento da cena punk no Brasil.

João Gordo detalha sua trajetória de menino nerd viciado em TV, enciclopédias e quadrinhos a punk mundialmente famoso que subiu no mesmo palco que seus ídolos, alternando entre leveza, melancolia e mea culpa. O texto é bem informal, com a irreverência cheia de palavrões do cantor. A escrita flui de forma quase oral, e a sensação é a de que o próprio João Gordo está contando sua vida em uma conversa de bar. O cantor tem o mérito de não tentar sair “bem na fita” e conta tudo de que não se orgulha: o dinheiro que furtava da mãe, as mancadas no trabalho, a agressividade e a homofobia de seus primeiros anos de punk. Os (mal)feitos não são exaltados em nenhum momento e Gordo não faz uma apologia da “vida tosca”, pelo contrário.

O cantor fala também do convívio difícil com o pai, policial militar extremamente religioso que não aceitava a rebeldia do filho, e atribui a ele seu envolvimento com o rock. Gordo aborda os bastidores dos primeiros anos do punk brasileiro com intimidade e conhecimento de causa, dando nomes, detalhes e datas, e não poupa declarações polêmicas contra figuras conhecidas como Max Cavalera. Nada é glamourizado ou exaltado, o que contribui para o tom melancólico do relato: Gordo vê os excessos da juventude como frutos de seus problemas de autoimagem e autoestima, de uma depressão muitas vezes paralisante e da difícil relação familiar. Reflete sobre agressões passadas, sofridas e desferidas, sem tentar se justificar ou se colocar como ídolo ou modelo.

Uma dessas reflexões é para mim o ponto forte da biografia: o relato que João Gordo faz de sua tomada de consciência como punk após entrar em contato com comunidades anarquistas na Europa. Nas palavras do cantor, ele deixou de ser um “fascistinha” após conhecer outros punks e entender a necessidade de politização da cena brasileira, que ele descreve como homofóbica e hostil às minorias, sem se isentar de sua participação no problema. A jornada de crescimento de um jovem punk que, em suas próprias palavras, só queria saber de “treta e bagunça” é colocada de forma natural, renunciando à panfletagem ou à vontade de se glorificar.  O livro também conta com algumas entrevistas que ajudam a dar contexto às declarações de João Gordo, em alguns momentos até contrariando ou desmentindo o cantor.

As passagens engraçadas se tornam ainda mais hilárias no palavreado desbocado de João Gordo, como quando seu grupo de amigos punks tentou roubar o equipamento do Capital Inicial ou seus momentos de irreverência ao vivo na MTV, que renderam algumas broncas da equipe. Mas o maior mérito do livro é fazer um retrato cru e intimista do caos que foi o nascimento do punk no Brasil e do amadurecimento dos seus membros. Outros pontos positivos são o design e a diagramação da edição, cheia de imagens e fragmentos de jornais, com cara de zine.

Recomendo a leitura, mas não vá com a ilusão de encontrar um artista perfeito e bonzinho em quem se espelhar. João Gordo, como o punk, é contraditório, agressivo e um pouco ofensivo. E para complementar recomento assistir abaixo ao excelente documentário Botinada, que conta um pouco do nascimento do punk brasileiro, das brigas, das gangues e do sucesso que consagrou algumas bandas dessa geração.

Dados técnicos

Livro: Viva la Via Tosca

Autores: João Gordo e André Barcinski

Editora: DarkSide Books

Páginas: 320

Este livro foi cedido pela editora para resenha.
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Beatriz Blanco

Designer, professora, gamer e pesquisadora. Fã da franquia The Legend of Zelda, histórias de terror, aliens e kaijus. Acorda e dorme online.