Desconstruindo Una: a sociedade não ouve as mulheres

Minha leitura de fim de ano foi Desconstruindo Una, uma novela gráfica densa sobre mulheres que sofrem violência e como sua voz ecoa no vazio. O fio condutor do livro são os crimes de um assassino em série que matava mulheres em West Yorkshire, Inglaterra, entre 1975 e 1981. Una narra os acontecimentos com detalhes, fruto de uma pesquisa minuciosa que inclui diversas reproduções de manchetes da época e toda a construção da narrativa dos crimes feita pela polícia, acumulando incompetência e culpabilização das vítimas no meio do processo. Este é mais um livro para refletirmos sobre a violência sofrida pelas mulheres, já escrevi sobre um outro aqui.

Dedicatória de Desconstruindo Una

O registro desse crime, que demorou décadas para ser solucionado, se mistura com a violência sofrida pela autora neste mesmo intervalo de tempo, o que a coloca em sintonia com a experiência cotidiana de milhares de mulheres no mundo todo e o que faz desse quadrinho uma leitura tão fundamental e um registro tão importante nesses tempos.

Eu ainda estava no meio da leitura, quando aconteceu a bárbara chacina de Campinas, em que um homem decidiu matar esposa e filhos e mais nove mulheres e deixou uma carta em que chama a todas de vadia, incontáveis vezes. Una também teve o carimbo de vadia na sua adolescência e ela diz “se você é mulher e alguém quer mostrar o quanto te odeia, você certamente será chamada de vadia ou algo similar”. E isso não tem relação à sua vida ser promíscua ou não, basta não fazer o que se espera que você faça.

Página de Desconstruindo Una

Una foi abusada na infância e o desamparo das crianças também é bastante exposto no livro. Crianças abusadas têm mudanças bruscas de comportamento e os adultos devem estar atentos para conseguir identificar do que se trata, para não taxar a criança de birrenta, mimada, delinquente e aumentar ainda mais o sofrimento. Comportamento bem comum entre os adultos, aliás, culpar as crianças pelas violências que elas sofrem.

Página de Desconstruindo Una

Os crimes de West Yorkshire poderiam ter sido resolvidos ainda nos primeiros casos, se a polícia tivesse prestado atenção no que as vítimas sobreviventes disseram. O retrato falado de uma adolescente, uma das primeiras vítimas, acabou sendo muito fiel ao assassino preso mais de trinta anos depois. A polícia trabalhou com a tese de “assassino de prostitutas”, numa comparação com Jack, o estripador, e simplesmente transferiu às vítimas o motivo de suas mortes. Mesmo que, o que foi verificado por Una, praticamente nenhuma das mulheres mortas fosse prostituta, foram assim taxadas, porque estavam bebendo ou andando sozinhas à noite. As autoridades também pareceram achar impossível que um homem comum, pai de família e trabalhador, fosse capaz de cometer atos tão bárbaros, mas foi o que se verificou.

Não ouvir as vítimas sobreviventes adiou a solução dos crimes e causou a morte de mais de uma dezena de mulheres que poderiam ter sido salvas. Una faz um lindo memorial para essas vítimas da incompetência e do silenciamento das mulheres no final do livro.

Página de Desconstruindo Una

Os dados sobre violência contra a mulher no Reino Unido são muito semelhantes aos do Brasil e de várias partes do mundo. “No Reino Unido, estatísticas recentes mostram que os homens correspondem por cerca de 98% dos crimes sexuais; enquanto dos suspeitos de homicídios acusados em 2011 e 2012 referentes a um total de 547 homicídios, 210 eram homens e 25 mulheres. Por que a ideia de que mulheres e crianças causam isso a elas mesmas é tão mais fácil para sociedades mundo afora aceitarem do que o fato de que homens violentos levam sofrimento a milhões de pessoas, em tempos de paz e de guerra?”, relata Una.

Alguns interlúdios, no meio de um conteúdo tão denso

Desconstruindo Una também trata da representação das mulheres nas artes, o uso do estupro como apelo dramático e como isso nos torna ainda mais vulneráveis. É muito conteúdo e ainda o relato intenso  de uma vítima que se culpou por muito tempo pelo que sofreu. “Culpar a vítima é um ato de refúgio e uma forma de nos enganar. Permite àquele que culpa sentar e julgar, imaginando alguma justiça mística que significa que coisas ruins só acontecem para pessoas más, garantindo, dessa forma, sua própria segurança. Um misticismo similar envolve a ideia do homem monstruoso, lunático, da figura oculta por uma capa nas sombras”, reflete a autora no seu posfácio.

O livro é praticamente todo em preto e branco, com uns detalhes de cor em algumas páginas. A história é contada em quadrinhos interrompidos por recortes de jornal e lindas ilustrações que servem como um respiro para um conteúdo tão denso.

 

A autora

Una é artista, acadêmica e quadrinista. Seus quadrinhos tratam de deficiência, psicose, ativismo polítco e violência contra a mulher e crianças. Desconstruindo Una foi lançado em 2015 no Reino Unido, e em 2016 no Brasil, pela Nemo.

 

Desconstruindo Una

Una

Tradução: Carol Christo

Editora Nemo

Número de páginas: 208

Formato: 17x24cm

R$ 49,80

 

O livro foi cortesia da editora.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Roberta AR

Gosto de escrever (o que acabou virando trabalho) e de café. Participo da cena de quadrinhos independentes desde 2007, atuando principalmente na divulgação e na produção. Também sou zineira e escritora.