A Menina Submersa, uma narrativa verdadeira e surreal

Vou escrever uma história de fantasmas agora.

Assim India Morgan Phelps — ou simplesmente Imp — começa a contar sua história. Poucas páginas depois, nós, leitores, nos perguntamos a que tipo de fantasmas ela se refere: aos fantasmas literais, de histórias de terror; aos assuntos não resolvidos do passado que voltam para nos perturbar; ou aos fantasmas metafóricos que habitam em nós?

A Menina Submersa — Memórias é um livro sobre vários tipos de fantasmas.

Imp é uma garota d

Exemplar "limited edition" de "A menina submersa", com capa dura especial.
Exemplar “limited edition” de A Menina Submersa.

e vinte e quatro anos que vive sozinha desde que perdeu a mãe. Além da ajuda financeira, Imp recebeu da mãe e da avó uma herança mais complexa: a esquizofrenia.

Entretanto, ela leva uma vida normal: trabalha, pinta seus quadros, gosta de ler. É independente. Mas, mesmo com o tratamento adequado, a esquizofrenia lhe prega peças: segundo ela, sua memória não é confiável. Às vezes, é difícil ter certeza do que aconteceu na realidade e do que é fruto de sua imaginação. E esse é o grande fascínio de sua história.

Em seu aniversário de onze anos, Imp vai com a mãe ao museu e fica impressionada com um quadro chamado A Menina Submersa, que retrata uma jovem nua à beira de um rio. Com o tempo, o quadro, seu autor e qualquer coisa relacionada à história da pintura tornam-se suas obsessões.

Imp se considera estranha e deslocada. Entretanto, suas características peculiares não incomodam Abalyn Armitage, sua namorada. Até que Imp conhece Eva Canning. Imp encontra Eva nua, na beira de uma estrada. Assim, não consegue deixar de relacionar essa pessoa ao quadro A Menina Submersa. Além disso, ela tem uma forte impressão sobre Eva: ela não é humana.

A partir desse encontro é que se desenrola a parte surreal da narrativa de Imp. Como o livro é escrito em primeira pessoa, só conhecemos a história através dos olhos da protagonista. E, assim como ela, não podemos ter certeza de quais acontecimentos são factíveis e quais foram imaginados ou embaralhados por sua memória.

O início do livro é um pouco arrastado, não deixando claro do que exatamente se trata a história. Mas, conforme os acontecimentos se desenrolam e os mistérios surgem, ficamos cada vez mais envolvidos pela trama.

Capa da edição normal de A Menina Submersa. Mostra o rosto de uma garota pálida de cabelos molhados colados ao rosto.
Capa da edição normal de A Menina Submersa.

Um aspecto interessante na escrita de Caitlín R. Kiernan é a maneira como ela trabalha a representatividade. Imp é lésbica, e Abalyn é uma mulher trans e bi. Entretanto, essas não são as características mais marcantes das personagens. A sexualidade delas não é explorada de maneira estereotipada ou objetificante. Ambas são personagens complexas, com histórias complexas. Embora a narrativa aborde a sexualidade, ela não se resume a isso.

A abordagem da autora sobre a protagonista psicoatípica também é muito pertinente. Embora a própria Imp se refira a si mesma como louca e deslocada, a imagem que o leitor tem dela é bem diferente: Imp é uma mulher inteligente, sensível e um tanto inocente, que lida da melhor forma que pode com sua doença e um passado trágico.

Em resumo, A Menina Submersa Memórias não é uma obra sobre a esquizofrenia, mas sim uma narrativa verdadeira e surreal (factível ou não) dos acontecimentos vividos (ou talvez não…) pela protagonista. É um verdadeiro labirinto de memórias.

Livros: A Menina Submersa — Memórias

Autora: Caitlín R. Kiernan

Editora: Darkside Books

Tradução: Ana Resende e Carolina Caires Coelho

Número de páginas: 320

Lívia Stevaux é revisora de textos, apaixonada por livros, quadrinhos, gatos e tribal fusion. É introvertida e tem sérias dificuldades para escrever minibiografias.


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