Crítica: A Cura (2017)

É ainda mais decepcionante assistir a um bom filme que desperdiça seu potencial que a um inteiramente ruim do início ao fim. Esse é o caso de A Cura, novo filme de Gore Verbinski, conhecido pela série de horror O Chamado e pela franquia Piratas do Caribe. A nova investida do diretor no gênero de horror se aventura pelo terror psicológico e pelo imaginário gótico com competência, mas, apesar da ambientação consistente, não consegue segurar o fôlego até o final.

A história é focada em Lockhart, um jovem e inescrupuloso executivo de Wall Street, muito bem interpretado por Dane DeHaan, que recebe de seus superiores a missão de convencer o presidente da empresa a sair do luxuoso spa nos Alpes Suíços, em que se encontra recluso, para assinar uma importante fusão. Lockhart foi pego cometendo uma fraude financeira grave e precisa ser bem sucedido, para livrar sua pele e manter seu adorado cargo. Por isso, está determinado a levar seu chefe de volta a qualquer custo. A tarefa não parece muito fácil, já que o rico senhor aparentemente sofreu um colapso mental e está fora de si, tendo mandado uma carta para seus executivos avisando que não voltaria e viveria o resto dos seus dias em isolamento.

Temos então um protagonista que é a encarnação do babaquinha arrogante do mercado financeiro, que passa por cima de tudo e de todos por sucesso e riqueza. Esse herói detestável é confrontado com um mundo antigo e misterioso ao chegar no local da clínica, onde ele pretende passar o mínimo de tempo possível. É difícil não pensar em Drácula na cena em que o carro onde Lockhart está sobe lentamente a colina, com o imponente castelo dominando o horizonte. De forma semelhante ao clássico vampiresco, uma viagem breve de negócios acaba virando um pesadelo interminável quando o jovem executivo percebe que está preso na clínica, como uma versão macabra de A Montanha Mágica de Thomas Mann.

A opção pelo gótico feita por Verbinski realmente funciona na direção de arte de A Cura. As roupas e equipamentos médicos antiquados do spa tornam toda a ambientação estranha e assustadora, como se algo estivesse sempre fora do lugar. A fotografia é ao mesmo tempo bela e muito tensa, e cria alguns momentos bem assustadores com seus ângulos estranhos e cores sem saturação. O início do filme tem um trabalho sutil e de muito bom gosto na construção do clima, jogando de forma inteligente com clichês góticos que facilmente ficariam ridículos, como uma história sinistra no passado envolvendo a construção do spa e uma misteriosa paciente adolescente que usa lânguidos vestidos semi transparentes. Verbinski consegue o equilíbrio com uma mistura de sobriedade e leve sátira de costumes que funciona muito bem no primeiro terço do filme. Mas a partir daí, a coisa desanda consideravelmente.

O primeiro problema é que A Cura é muito mais longo do que deveria. Sucessivos clímax são apresentados, em vários momentos você acha que o filme vai acabar, e ele continua. A cada esticada na trama ela vai perdendo a sutileza e caindo na cafonice franca, com uma história vilanesca exagerada, previsível e nada inovadora. Conforme a narrativa vai dando sinais de cansaço, os furos no roteiro se multiplicam e aumentam até virarem rombos. A meia hora final é especialmente over e abandona o terror psicológico bem construído no início para abraçar sequências cheias de correria e revelações que não surpreendem, trocando a sátira sutil de costumes por um arco de redenção dos mais previsíveis. Eu fiquei realmente chateada porque estava amando o filme até então, e porque acho que ele teria sido salvo por uma boa montagem que eliminasse pelo menos 40 minutos da duração e segurasse os excessos da parte final.

O resultado geral não é terrível: A Cura tem muitas qualidades e impressiona bastante em alguns pontos. Dane DeHaan está muito bem no personagem, e seu visual convence tanto como executivo à beira do burnout quanto como pálido herói gótico cheio de olheiras e angústias. Algumas cenas são apavorantes, principalmente quando envolvem enguias (para mim os bichos mais assustadores do mundo, depois das mariposas) e uma sinistra cadeira de dentista vintage.  Mas acho que chamar de bom filme seria muito forte. É um filme mediano com excelentes momentos.


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Beatriz Blanco

Designer, professora, gamer e pesquisadora. Fã da franquia The Legend of Zelda, histórias de terror, aliens e kaijus. Acorda e dorme online.