K. — Relato de uma Busca é uma história da ditadura

Esse é um dos livros que fui “obrigada” a ler na minha vida acadêmica. Por conta de um trabalho para a aula de redação na faculdade, tive que ler K. — Relato de uma Busca, muito querido pelo meu professor, que fez questão de fazer a maior propaganda do livro. Resultado: na mesma semana, metade da sala tinha adquirido seu exemplar. No começo eu li a contragosto, confesso. Mas algumas horas após o término da leitura, consegui entender como o livro é profundo e extremamente importante para entendermos mais sobre o sofrimento das pessoas durante a ditadura militar no Brasil.

Bernardo Kucinski conta, com maestria, a história de K., um homem judeu cuja filha desaparece no período da ditadura. Em um domingo qualquer, ele sente falta da filha que há dez dias não telefona. Preocupado, sai em busca dela e descobre que há algum tempo ela não aparece na Universidade de São Paulo, onde é professora de química, para dar aulas.

Sem saber o que temer, mas já temendo […], dirigiu rumo ao campus da universidade. […]

Ela não veio hoje, disseram as amigas. Hesitantes, olhavam de soslaio umas para as outras. Depois, como se temessem a indiscrição das paredes, puxaram K. para conversar no jardim. Então revelaram que havia onze dias que ela não aparecia.

 

A partir daí, o livro transcorre em uma narrativa muito interessante, nem sempre focada no pai em busca da filha. Por vezes o livro tem foco em K., e por outras em histórias paralelas que, de certa forma, têm relação com a trama principal. Podemos ler, por exemplo, conversas entre torturadores, cartas, relatos do pai, de informantes, etc. Dessa forma, a obra traz um tom bastante diversificado e sombrio ao relatar um período tão ameaçador em nosso país.

No começo da leitura, a narrativa se arrastou um pouco até que eu conseguisse entrar no ritmo. Lá pelo meio da história, alguns capítulos me transmitiram muita agonia. Atente-se, por exemplo, ao capítulo da conversa entre a psicóloga e a empregada doméstica da casa do delegado Fleury. Foi o meu preferido, mas extremamente pesado. Muito desse sentimento vem do próprio autor Bernardo, por ter vivido durante a ditadura e ter perdido a própria irmã, presa pelos militares e dada como desaparecida na década de 1970. K. é, na verdade, a história de seu pai à procura da filha.

Ao falar do livro K. e também do seu livro de contos de Você Vai Voltar Para Mim, Bernardo mostra-se bastante sério e diz que suas obras têm um toque de realidade — de histórias que ele mesmo ouviu na fatídica época —, mas também de ficção. Tudo isso nos ajuda a adentrar mais esse momento histórico, nos faz entender mais sobre a política de outrora e a de hoje.

Para quem quer expandir seus conhecimentos de História do Brasil e ler um livro que traz bastante reflexão, K. — Relato de uma Busca é altamente recomendado. Prepare sua mente e uma caixinha de lenços, e convença um(a) amigo(a) a ler também. Porque, acredite, você vai precisar discutir todo o conteúdo da história depois.

Dados técnicos

Título: K — Relato de uma Busca

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 176

Mariana Zillo é estudante de Produção Editorial, estagiária e booktuber do canal Primeiros Espaços.

 


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