Entrevista com Giovanna Casotto – “a beleza está em todo o lugar”

Já falamos sobre a incrível roteirista e ilustradora de HQs eróticas Giovanna Casotto nesse post.

Gostamos de falar sobre ela porque, claramente, Giovanna é uma das únicas, senão a mais proeminente, mulher atuando no gênero, infelizmente, ainda majoritariamente masculino, altamente problemático, falocêntrico e com olhar e abordagens totalmente unilaterais.

Giovanna é resistência e lembrança de que mulheres podem atuar sim, onde bem quiserem com competência e propriedade, trazendo um olhar diferenciado e representatividade para o nicho do erotismo.

Tivemos a honra de entrevistá-la em um bate-papo leve e despretensioso,onde ela fala dos tabus que enfrentou e enfrenta no meio, sobre críticas à sua abordagem e formato de trabalho e sobre como é uma mulher perfeitamente normal, como qualquer outra, livre de fetichizações masculinas descabidas apenas por atuar no mercado erótico. Confira:

Entre seus leitores, há muitas mulheres. Que tipo de feedback recebe delas?

Difícil saber exatamente o tipo de feedback que o quadrinho erótico proporciona junto ao público feminino… Na verdade, não sei se é possível para um desenhista ter a verdadeira noção do alcance do seu trabalho, seja em que área for. O que posso dizer é que meus quadrinhos exaltam a mulher, sua ironia e a alegria de quem a observa. Me enxergo como uma “feminilista”, uma grande fã da beleza feminina. Muitas mulheres me escreveram perguntando por que desenho a mim mesma… antigamente eu desenhava amigas, na verdade, eu não teria como desenhar todas as mulheres que gostaria, são muitas. No entanto, isso me faz pensar que minha visão da mulher é a que muitas mulheres gostam.

Quais das suas características você empresta às suas personagens? Quanto da Giovanna realmente há nelas?

O corpo e o rosto são quase sempre meus. Obviamente, deixo bem claro aqui que eu não vivo as aventuras sexuais que a protagonista das minhas histórias vive. Não tenho tempo, mem a energia e nem a atitude para isso, ahahah!

 

Algumas mulheres que trabalham com erotismo preferem usar pseudônimos devido ao assédio e preconceito que ainda existe em relação ao gênero erótico. Você já passou por algum tipo de constrangimento desde que começou a desenhar?

No início, eu propus aos editores de usar um nome masculino. Porém, tive coragem e acabei usando meu nome e sobrenome. Eu tive, sim, vários problemas referentes a isso,  mas sou bem resistente e tenho um orgulho muito forte. De resto, sou uma pessoa extremamente reservada, até para evitar mais problemas, não participo de feiras ou manifestações e muito raramente concordo em expor meu trabalho em algum lugar.

 

Qual foi a situação sexual mais engraçada que viveu? Chegou a publicá-la?

Eu sempre me diverti muito com sexo… Sinceramente, não saberia responder a essa pergunta. Ou talvez as coisas que vivi não fossem tão interessante de contar quanto as situações fantasiosas que imagino em minhas histórias. Vai ver é isso.

 

Por que acha que as mulheres se identificam com seu trabalho?

Não sei se se identificam… Imagino que achem as minhas personagens esteticamente bonitas ou talvez sintam certa identificação com elas. A beleza tem sempre um apelo… talvez por serem genuínas e gostarem de sexo, por serem o foco das histórias.

 

O que costuma fazer quando não está desenhando?

Eu sou uma grande costureira! Adoro costurar vestidos estilo pin up dos anos 50. Também gosto de fazer bolsas de crochê!

 

É leitora de quadrinhos? O que costuma ler?

Não, não leio quadrinhos… Nem mesmo os meus! Não sou uma apaixonada por quadrinhos, tenho apenas grandes amigos que são excelentes quadrinistas

 

Além das sua próprias experiências, quais são suas outras fontes de inspiração?

Como eu disse anteriormente, não se trata da minha experiência, mas de fantasia. Não teria tempo hábil de viver todas as fantasias que desenhei. Na verdade, sou uma mulher absolutamente normal em toda sua manifestação emocional.

 

Por que algo que tanta gente gosta ainda é um tabu?

Não saberia responder. É um tabu? Não creio que seja.

 

Suas personagens e histórias trazem uma perspectiva feminina do sexo. No que isso difere da perspectiva masculina em uma HQ erótica?

Sinceramente nunca parei pra pensar nisso, sabia?. Talvez seja porque nos meus quadrinhos a mulher é sempre “vencedora” nos jogos amorosos. Talvez ela conduza o jogo com esperteza. Ou talvez a forma como faz para conduzir seus parceiros chame atenção. São elas quem mandam, isso também é altamente erótico.

 

E quanto à música? Recomendaria alguma para os leitores apreciaram Giovaníssima?

Amo a músicas americanas dos anos 50, o rock n’ roll, mas também Billie Holiday. Bom, pra mim, ela é a melhor. Recentemente tenho gostado muito de Amy Winehouse. Quando mais nova, gostava muito de punk, Clash, Ramones, Iggy Pop e Cramps.

 

Já sofreu algum tipo de censura?

Já, em tempos idos, mas não mais.

 

E o que diria às mulheres que desejam fazer quadrinhos eróticos? por onde começar?

Eu diria, sem meios termos, que não se sobrevive de quadrinhos, salvo raras exceções. Portanto, é sempre bom ter um “plano B”, mas, mesmo assim, não percam as esperanças de obter sucesso futuro como  grandes quadrinistas, estudem, acreditem e invistam em si mesmas.

 

O que acha de desenhar mulheres fora do padrão? 

Faço isso frequentemente. A mulher mais linda que já vi na vida é uma bailarina curvilínea e eu a desenhei bastante. Não ligo muito para padrões estéticos, a beleza está em todo lugar.

 

Casotto tem apenas duas revistas publicadas no Brasil: Giovanna e Giovaníssima, ambas publicada pela Editora Veneta.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina

Criadora do MinasNerds.