As HQ do selo Pagu no Social Comics

Para quem ainda não conhece o selo, o Pagu Comics é uma parceria da editora Cândido e da plataforma de quadrinhos digitais Social Comics, para a produção e divulgação de títulos produzidos exclusivamente por mulheres.

Patrícia Rehder Galvão, conhecida pelo apelido Pagu, foi uma mulher à frente de seu tempo. Nasceu em 9 de junho de 1910, na cidade São João da Boa Vista, no estado de São Paulo, e veio de uma família tradicional. Na época, as mulheres ocupavam uma posição social inferior a dos homens. Elas eram educadas para serem boas esposas e mães.

No entanto, Pagu não estava interessada em seguir regras, mas em desafiá-las. Escritora, poeta, desenhista, tradutora, diretora de teatro, jornalista, crítica de arte e militante política, Patrícia Galvão foi uma das responsáveis por dar voz e representatividade às mulheres na sociedade brasileira da década de 1920, uma luta que permanece até hoje, cada dia mais forte. Por isso, sua trajetória serviu de inspiração para a criação do selo. (via blog do Social Comics)

De acordo com um dos responsáveis pela Social Comics, Marcelo Bouhid, em painel apresentado na CCXP2016, as mulheres representam hoje cerca de 20% do total de leitores do site. Quando o site começou, em 2015, o público feminino correspondia a 5% dos leitores.

Contando hoje com 4 títulos exclusivos, com previsão de novos lançamentos em breve, o selo Pagu Comics oferece algo que estamos acostumados a ver no universo dos super-heróis da DC ou da Marvel: um universo compartilhado!

Embora as histórias estejam no começo, já é possível ter uma boa ideia da proposta coordenada pela roteirista Ana Recalde, que, a cada edição, traz mais informações sobre como as narrativas que se passam em lugares diferentes do Brasil se cruzarão em algum momento lá em frente.

Tudo começou com As Empoderadas, da Germana Viana. A artista, conhecida por sua irreverência e espontaneidade, confere o mesmo ritmo de aventura da sua HQ Lizzie Bordello à história de três mulheres, com vivências completamente diferentes, que se conectam a partir de um evento misterioso. Devido a um fenômeno muito estranho, pessoas adquirem poderes e habilidades diversas e passam a usá-los como lhes convém, para o bem e para o mal. Cabe às 3 protagonistas lidar com seus novos poderes e com uma série de vilões com propósitos nada nobres. A série está atualmente em sua 4ª aventura e a cada episódio, existe um suspense e uma tensão crescente sobre como elas irão lidar com os problemas que se apresentam. Não bastasse a narrativa super cativante, As Empoderadas ainda traz personagens muito mais próximas da realidade do que o que estamos acostumados a ver nas HQ de super-heróis, elas são mais verossímeis, até porque a história se passa em um universo real: a cidade de São Paulo.

Em Haole, com roteiro de Milena Azevedo, Chairim Arrais e Sueli Mendes na arte, Blenda Furtado na arte-final e Wayne Ribeiro e Brendda Lima na cor, acompanhamos a misteriosa Irene em uma jornada que envolve, entre outras coisas, viagens a um universo paralelo inspirado em Alice no País das Maravilhas. Irene chega a Natal, no Rio Grande do Norte, sem que as pessoas saibam nada a seu respeito, mas aos poucos descobrimos que a jovem negra de longos cabelos castanhos perdeu parte da perna em um ataque de tubarão. Por isso, além de ter que lidar com as responsabilidades de um novo emprego, novos amigos e uma iguana que vira seu animal de estimação, Irene também precisa aprender a lidar com seus próprios monstros. Atualmente, está no 3º capítulo e, a cada capa, uma nova artista é convidada. Na segunda, a arte ficou por conta da Cris Eiko (A2 e Penadinho).

D.A.D.A. tem roteiro de Roberta Araujo, arte de Renata Rinaldi. Essa história se passa no futuro, depois que um apocalipse enviou a Terra para uma era sem tecnologia. Nesse cenário árido e violento, quatro mulheres negras, com poderes de suas orixás, tentarão proteger o que restou da humanidade.  Teve o primeiro capítulo lançado no dia 20 de novembro de 2016, dia da consciência negra, com arte-final de Jéssica Lang e capa de Chiquinha e Cath.

Quimera é o título mais recente e foi lançado em janeiro de 2017. Desenvolvido pelo Estúdio Complementares, tem Cris Peter no roteiro e cor, Dika Araújo e Ariane Rauber na arte . A primeira capa foi feita pela Bilquis Evely, artista brasileira que assina a arte da fase atual da Mulher-Maravilha na DC, com Greg Rucka. Em Quimera, que se passa no Rio Grande do Sul, o evento misterioso que atingiu As Empoderadas tem suas implicações no sul do país. É a primeira vez que fica claro que existe um universo compartilhado e que os seus efeitos não se limitam à cidade de São Paulo.  Nessa história, também recheada de turbulências, duas mulheres, cujas vidas acabam se intercalando, precisam encontrar maneiras de lidar com problemas sobrenaturais e que estão fora de seu alcance. Uma relação muito improvável acaba se tornando a chave para que elas possam combater o que vem por aí.

Apesar do público alvo ser o feminino, se engana quem pensa que essas HQ são panfletárias. Não haveria nada de errado se fossem, mas não são. São histórias de aventura, com narrativas que certamente agradam tanto o público infanto-juvenil como os adultos que costumam ler quadrinhos de heróis. Ainda que temas como diversidade, relacionamentos e gênero sejam abordados, eles fazem parte de cada história como elementos tão naturais quanto deveriam ser em nossas vidas. Entretenimento garantido!

Artistas do selo Pagu na CCXP2016. Estande da Social Comics.

E, para garantir a continuidade dessa produção, a editora Ana Recalde realizou uma convocatória de novas artistas que resultou em um total de mais de 700 portfólios recebidos. Como serão selecionadas apenas 10 mulheres para integrar o selo e a qualidade dos trabalhos enviados é muito boa, no decorrer do ano ajudaremos a divulgar os portfólios dessas quadrinistas.

Acompanhem as novidades na fanpage do Facebook da Pagu Comics.

 

 

 

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.