Modelo Vivo de Laerte Coutinho

“ Pode fazer piada de qualquer coisa, o que importa é saber de que lado da piada você está. A criação pode tudo, claro.”

Laerte Coutinho, uma das mais influentes cartunistas brasileiras, colaborou com muitos dos periódicos alternativos que circularam no Brasil e ainda hoje, seja em suas tiras no Facebook ou em cartuns e charges encomendadas especialmente para ilustrar colunas de política em jornais, seu trabalho continua irreverente e provocativo.

Em entrevista à revista Berro cujo título já diz “Não há limiar para o humor”, a cartunista afirma: “O que tem é que ouvir, depois. O que não pode é censurar, antes”, ao se referir à censura artística, diz que deveria haver um judiciário adequado, pois de nada adianta a regulamentação da linguagem ou a censura. Tendo vivido e produzido durante a Ditadura, Laerte fala com convicção sobre o assunto e tem sido figura recorrente em eventos sobre política e ativismo.

No entanto, desde seu processo de transição de gênero, sua produção passou a refletir também suas angústias e indagações, com um olhar muito mais interno do que externo. Um processo de autodescoberta e de autoaceitação refletido em sua tiras com uma sensibilidade ímpar, fazendo com que se tornasse um grande ícone na luta pela visibilidade da comunidade LGBTQ.

Ou seja, Laerte tem uma bagagem tão grande quanto diversa e tanta história pode ser um peso não tão fácil de ser carregado. Em Modelo Vivo é essa a impressão que temos: Laerte se despe diante do leitor sem o menor constrangimento em nos mostrar que nem sempre tem respostas pra tudo, nem mesmo quando se trata de sua própria existência.

Seu último trabalho, lançado pela Boitempo em 2016, foi muito bem recebido pelos colegas da área, que entendem a relevância da história da cartunista para o país. Porém, para o público que a imortalizou em sua memória como a responsável por personagens como os Piratas do Tietê, Modelo Vivo pode representar uma obra complexa e com uma subjetividade que talvez seja entendida por alguns leitores como algo muito denso, diferente da produção irreverente com que estão mais acostumados.

Alternando tiras inéditas ou extraídas de outras publicações com retratos de sua relação com os modelos vivos, a Laerte desse livro é alguém mais próximo e real do que a celebridade que costuma aparecer nos eventos, até porque, este é um título que nós leitores atribuímos a ela e que realmente não a representa. Laerte é, acima de tudo, uma figura política com peso e relevância históricos, por isso, reduzi-la a um ícone pop seria, no mínimo, injusto.

Modelo Vivo não é um livro de humor, embora ele esteja presente em uma ou outra tira. É uma obra em que a cartunista mostra aos seus leitores um pouco do seu universo interno, quase como um encontro durante um café, quando você encontra uma velha amiga para falar da vida e ela lhe diz o que tem feito e como está.

Para quem sempre acompanhou seu trabalho, este é mais um para a coleção. A mesma pessoa que criou tiras tão incisivas e questionadoras, também criou personagens debochados, criou a Lola – A Andorinha. Criou e reinventou a si mesma tantas vezes, que uma coleção com seus trabalhos é certamente uma das mais ecléticas e camaleônicas que alguém poderia imaginar.

Editora Boitempo
organização Toninho Mendes
páginas 88
Peso 250 gr
ano de publicação 2016
isbn 9788575595237

 


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Dani Marino

Dani Marino é pesquisadora de Quadrinhos, integrante do Observatório de Quadrinhos da ECA/USP e da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial - ASPAS. Formada em Letras, com habilitação Português/Inglês, atualmente cursa o Mestrado em Comunicação na Escola de Artes e Comunicação da USP. Também colabora com outros sites de cultura pop e quadrinhos como o Iluminerds, Quadro-a-Quadro, entre outros.