LOGAN: O Wolverine que merecíamos

ESSA RESENHA NÃO CONTÉM SPOILERS

Antes de qualquer coisa: LOGAN, – (EUA, 2017 – Dirigido por James Mangold- 20h Century Fox)  vai te fazer chorar. Prepare os lenços.  Isso mesmo. Um filme de herói, baseado em QUADRINHOS, vai te fazer chorar feito um bebê. Não é um filme de ação, apesar de ter muita. É um drama. Aliás, ele está classificado exatamente assim no IMDB. Portanto, segure o coração.

Dito isso, vamos à história: O filme tem como linha mestra o arco de histórias em quadrinhos escrito por Mark Millar (Guerra Civil, O Legado de Júpiter) e desenhado por Steve McNiven (Quarteto Fantástico, Novos Vingadores, Guerra Civil)  chamado Velho Logan (Old Man Logan), sem seu elementos fantásticos, graças aos deuses.

Ele foi lançado nos EUA em meados de 2008/9 e aqui no Brasil em 2011, ainda que desmembrado em histórias  mensais do Wolverine e republicado encadernado pela Salvat, em 2014.

O plot fala de um futuro distópico em um território devastado e dividido por gangues, onde os poucos mutantes que sobraram, lutam para sobreviver. Tendo essa ambientação como espinha dorsal, a equipe de roteiristas (que conta com o próprio diretor James Mangold, Michael Green, Scott Frank e David James Kelly)  magistralmente amarrou a origem de X-23, Laura Kinney à história, dando peso, consistência e verossimilhança ao roteiro, em uma aula fantástica de storytelling: Em 2024, com a extinção dos mutantes, uma empresa de tecnologia genética encontra um meio de manipular genes X implantando-os em crianças.  Escondidos no deserto do meio-oeste americano, estão os mutantes Wolverine, Caliban e Professor Charles Xavier, que sente a presença de Laura, que consegue fugir desta empresa e precisa de ajuda para chegar a um lendário refúgio de crianças mutantes fugitivas. Após muita resistência, Charles convence Logan a levar Laura para este suposto esconderijo,enquanto tentam fugir dos Carniceiros, capangas de Dr Rice, geneticista que está caçando tais crianças pelo mundo. A partir daí, a história se desdobra em uma  mistura de faroeste e road movie direto para dentro da alma do mutante mais complexo da franquia X-Men e que há muito merecia um filme à altura: Mr James Howlett, codinome: WOLVERINE.

Como muitos já sabem aqui, aprendi a ler com quadrinhos de heróis, por conta disso eles são minha paixão, fazem parte do meu DNA e tornaram-se meu trabalho. Em minha adolescência, nos anos 80/90 eu praticamente DEVOREI X-Men, Lia, no máximo, 4 títulos mensais e graphic novels e meus preferidos eram os dos Filhos do Átomo, por expor discussões sobre preconceito, aceitação ,sentir-se deslocado e estranho em um mundo padronizado, enfim, tudo o que faz parte da vida de um adolescente. Wolverine, de pronto, conquistou meu coração por seu pavio curto e métodos pouco ortodoxos para resolver problemas, já que eu fui uma adolescente muito revoltada e raivosa, a identificação foi imediata. (E ele era baixinho, o que também ajudou).

O carcaju tornou-se um de meus heróis preferidos e comecei a ler tudo o que era lançado sobre ele. A medida que ia me aprofundando no personagem e seu passado e características eram cada vez mais exploradas pelos roteiristas de HQs, fui percebendo suas camadas, sua multiplicidade.

Wolverine foi o primeiro dos mutantes, juntamente com Noturno, a ter uma história pregressa bem fundamentada, o que serviu de base para que a maioria de seus roteiros nas HQs fossem tão sofisticados. É a narrativa de um homem (adulto, a maioria dos mutantes ainda era muito jovem, adolescente) atípico, dono de poderes peculiares e uma mutação quase animalesca e que por isso fora rejeitado e abandonado, capturado, tem todas as suas memórias apagadas,  e tem novas, condicionadas e implantadas, tem seu corpo violado e é transformado em um monstro assassino. É uma grande analogia para soldados que são explorados até o limite e perdem a sanidade em tempos de guerra, é um símbolo para os  que perdem sua porção humana para servir a um sistema bélico e genocida. Wolverine me envolvia, não por seu fator de cura e histórias violentas. mas porque sua luta sempre fora contra si mesmo. Contra o monstro que implantaram em seus ossos e mente. Contra quem o condicionaram a ser. E vejam bem, nesse ponto, acaba sendo a luta de todos nós, contra esse mundo que insiste em nos moldar.

O pavor dos fãs era grande com relação a esse filme, eu inclusa. Uma nova produção da 20th Century Fox, detentora dos direitos cinematográficos da franquia X-Men e Quarteto Fantástico, carros-chefe da Marvel e que, convenhamos, não teve lá muito talento para explorar o potencial da riqueza que tem em mãos, vide todos os filmes de Wolverine e Quarteto lançados até agora, salvando-se poucos dos X-Men. Junta-se a isso, a direção  de James Mangold, que também já havia dirigido o tão esperado  “Wolverine: Imortal” de 2013 e que fora um fiasco e decepção para os fãs, o medo aumentou. Mas temos que lembrar que Mangold tem na manga os ótimos “Garota Interrompida” e  “Walk The Line – a cinebiografia de Johnny Cash” onde mostra seu talento em dirigir atores e extrair deles emoções intensas, e ele, com certeza, o exerceu em LOGAN. Diz a boca pequena da cultura pop que o filme sofreu pouquíssima intervenção da Fox, o que talvez explique seu sucesso.

Pois o MinasNerds garante: afastem esse medo. O filme é uma primazia. É o filme definitivo do Wolverine: complexo, sombrio, tocante, cruel e ao mesmo tempo doce, terno e transformador.  A fotografia em tons terrosos do deserto, alternada a paisagens urbanas decadentes faz uma perfeita correlação ao espírito alquebrado que permeia toda a película. O clima western/road movie é imperativo, tanto que existe uma homenagem CLARA ao clássico  western “Os Brutos Também Amam” de 53, no filme, além da trilha sonora MUITO PONTUAL, que conta com clássicos de Johnny Cash, canções tradicionais como Amazing Grace e bandas folk contemporâneas como Caleo.

A ação é crua e bárbara, como um filme de um dos maiores assassinos da Marvel deveria ser, não à toa foi classificado acima de 18 anos . O ponto alto  fica por conta da relação de Logan com Professor X e Laura. A atriz mirim Dafnee Keen é surpreendentemente expressiva no papel de Laura Kinney a X-23, e abre caminho com propriedade para carregar o cetro de mais nova mutante bad ass da franquia. Sir Patrick Stewart, também em sua derradeira interpretação do Professor X, e Stephen Merchand, no papel de Caliban, estão incríveis.

LOGAN corre o grande risco de não agradar a um público mais novo, afeito a blockbusters de heróis no estilo Vingadores. É adulto, é lento, denso, profundo e totalmente diferente do que muita gente espera, embora tenha fanservice.  Foi feito sob medida como despedida de Hugh Jackman do papel que o consagrou há 15 anos. Na coletiva de imprensa que deu em fevereiro em São Paulo, o ator se emocionou muito e disse: “Logan  está em um momento que não quer criar laços porque ele perdeu muita coisa. Perdeu muitas pessoas. Cometeu erros que machucou muita gente. Ele meio que quer dizer – “Não chegue perto, não quero intimidade. Não me endeuse, não me coloque em um pedestal, não queira ser meu amigo, você só vai se machucar. Não me ame. Esse é o momento que Logan se encontra”  Jackman também menciono  que jamais deixaria de ser Logan, dentro de seu coração. E respondemos que muito provavelmente dentro do coração dos fãs também, aindamais depois de LOGAN. Um filme de herói DIGNO, que sai do patamar juvenil e eleva as histórias em quadrinhos a uma discussão adulta e profunda no cinema. Um filme que Wolverine e seus fãs mereciam.

LOGAN estréia em circuito nacional nesta próxima QUARTA-FEIRA, 1 de MARÇO.


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Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina

Criadora do MinasNerds.