Fences – Um limite entre nós

Estreou, em circuito nacional, na última quinta-feira (2 de março) Fences – Um limite entre nós, filme que deu à Viola Davis seu primeiro Oscar. Dirigido e protagonizado por Denzel Washington, o drama é baseado na aclamada e premiada peça de teatro homônima. Narra a história de Troy Maxson (Denzel Washington), um homem amargo e frustrado que, apesar de muito talentoso, nunca conseguiu se tornar jogador de beisebol profissional e leva a vida trabalhando como coletor de lixo.

O filme conta com diálogos longos, poucas mudanças de cenários, ausência de trilha sonora em grande parte do tempo e um enquadramento muito específico, que causa estranhamento em um primeiro momento por trazer a sensação de que estamos assistindo a uma peça de teatro e não a um filme. Esses pontos, de forma alguma tiram a qualidade e o brilhantismo do filme. Muito pelo contrário, evidenciam seus grandes pontos de sustentação: o roteiro irretocável e atuações primorosas.

Sem dúvida alguma, o mais impressionante no filme é o desenvolvimento das personagens. Troy Maxson, em um primeiro momento, se mostra espirituoso e boa-praça, cativando o espectador. Mas, aos poucos, ele revela outras facetas muito mais complexas, de um homem embrutecido e marginalizado pelo racismo, amargo pela frustração de seu sonho, violento e que não encara a família como relação de afeto, mas apenas como responsabilidade e dever. Mesmo após se opor a que seu filho caçula siga uma carreira nos esportes, com uma perspectiva de futuro promissor, Troy se mostra uma pessoa detestável, mas coerente com os valores com as quais acredita, não um vilão. É a naturalidade de Denzel Washington ao interpretar Troy que empresta um total realismo e profundidade ao personagem.

Já a personagem de Viola Davis, Rose, a esposa de Troy, é o exato oposto. Dez anos mais jovem que o marido, tem verdadeira devoção por ele – a quem ela reconhece como uma alma boa – e segue ignorando e perdoando seus defeitos e falhas. Essa devoção é decorrente do reconhecimento das possibilidades da sua vida sem ele: uma sucessão de homens abusadores, filhos com pais diferentes ou uma vida de solidão e frustração. Rose transborda emoção e delicadeza e isso é evidente em diversos pontos do filme, em especial nas cenas entre Rose e Gabriel, irmão mais novo de Troy. Gabriel é veterano da segunda guerra mundial e foi ferido em combate. Ele recebeu uma placa de metal na cabeça que o deixou com sequelas mentais severas. Todos os gestos, falas e olhares demonstram sentimentos à flor da pele e são os responsáveis por fazer Viola brilhar em uma atuação genial. Enquanto Troy se impõe pela voz e pela palavra, Rose se impõe pela emoção.

Com um ritmo muito lento associado a uma atmosfera com uma tensão crescente, o filme torna-se um pouco difícil para o público lidar e digerir de uma só vez, com um transbordamento tão grande de sentimentos e emoções. O título original Fences (“cercas”, em tradução livre) carrega um significado muito mais potente, o que tornam a história muito mais rica, do que “Um limite entre nós”, sua versão em português. A todo momento, a ideia de cercas é retomada. Seja no sentido literal da cerca ao redor da casa que Rose pede para que Troy construa, e que ele leva anos para concluir, quanto nas cercas metafóricas que Troy construiu ao redor de si e, com isso, afastou o irmão, os filhos e a esposa.

As atuações potentes associadas a um roteiro primoroso faz de “Um limite entre nós” um filme que merece ser assistido e nos fazer refletir sobre as cercas que construímos para deixar as coisas e as pessoas do lado de dentro ou de fora.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Kelly Cristina Nascimento

Do Sonhar. Nerd desde que se entende por gente.Virginiana.Leitora voraz. RPGista há 18 anos. Ex-viciada em Pinball. Temperamental. Coleciona Hq. Adora Neil Gaiman.