Resenha: Bugigangue no Espaço

Eu cheguei atrasada e esbaforida para a sessão de Bugigangue no Espaço e, talvez por isso, tive uma agradável surpresa: a animação nacional não é um filme ruim, como eu esperava, é até divertido. O longa de 80 minutos é a primeira produção brasileira em 3D (de usar óculos) e foi adaptado dos personagens da HQ de Ale McHaddo.

A história acompanha Gustavinho (dublado por Danilo Gentili) e sua irmãzinha Fafá (dublado pela Maisa Silva) que começam o filme se preparando para ir a uma excursão no planetário da cidade. Acidentalmente, os dois, junto a um grupo de crianças formado por um amiguinho de Gustavinho, um valentão gordo, uma patricinha e uma japonesa nerd acabam destruindo um modelo do sistema solar da biblioteca da escola e ficando de castigo até conseguirem fazer um novo. Enquanto isso, numa galáxia muito, muito distante, acontece um golpe de estado na Confederação dos Planetas e o vilão Gana Golber ameaça a paz em todo o universo. Uma pequena nave de Ivans, aliens pequenos e desastrados, consegue escapar e fica incumbida de restabelecer a ordem na galáxia, mas acaba caindo na Terra, justamente na escola das crianças. Com a ajuda da turma de Gustavinho, os aliens conseguem consertar a nave a ajudar a Conferedação dos Planetas.

Gustavinho e o ET de Varginha

O filme tem várias referências a filmes clássicos de ficção científica, principalmente ET e Star Wars, que marcaram bastante a infância do diretor. A trilha sonora, gravada com a Orquestra Sinfônica de Budapeste, lembra a trilha de Star Wars e dá o tom mais dramático às imagens satíricas. Tecnicamente, o filme é bom e perde pouco para produções estrangeiras, mas o 3D, da qual a equipe se gaba de ter sido o primeiro produzido inteiramente no Brasil, não faz diferença no filme.

Os atores se saíram bem, principalmente aqueles que não são dubladores de verdade como o Danilo Gentili, que se encaixou perfeitamente na pele de um menino na puberdade. O que me incomodou de verdade, no entanto, foi a sensação constante de filme dublado, adaptado, que tirou as características realmente nacionais. O filme é muito pouco brasileiro. Tirando as gambiarras que as crianças fazem para consertar o disco voador, as referências e o enredo são muito americanos. A única referência com cara de brasileira é o ET de Varginha com uma nave sucateada, mas mesmo ele parece mais um cowboy americano vestido de Han Solo. Segundo o diretor, o filme foi feito primeiro em inglês, pensando já como um produto exótico para exportação, e posteriormente, foi traduzido para o português. Isso fica óbvio quando assistimos e me entristece que o cinema nacional ainda faz tanta questão de ser mais validado no exterior que no Brasil.

É um filme nacional meio com vergonha de ser brasileiro. De qualquer forma, é bacana ver que há pessoas fazendo filmes de animação e ficção científica no Brasil. É um filme bacana, de qualquer forma, muito bem feito e é bom valorizar a cultura nacional.

O filme estreiou dia 23 de fevereiro e está disponível em mais de 400 salas em todo o Brasil.


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Deborah Happ

Formada em Midialogia, pela Unicamp, com mestrado em Estética e História da Arte, pela USP. Faz umas artes quando dá, escreve por necessidade.